Literatura,

A terra prometida

Livro de autora franco-senegalesa se debruça sobre narrativas de imigrantes que buscam uma vida melhor na Europa

01nov2019 - 00h19 | Edição #28 nov.2019

O ventre do Atlântico poderia ser o título de um livro sobre o tráfico de escravizados nos séculos 18 e 19, mas não é. O ventre em questão ainda é a África, mas a história é outra. A autora senegalesa Fatou Diome usa sua própria biografia para tratar de um assunto importante para nosso presente e que não recebe o tratamento devido pela comunidade internacional: a imigração, principalmente a motivada pela busca de uma vida digna, em meio à fuga da guerra, da miséria e da fome.

Entrelaçadas à narrativa principal, histórias bem e mal sucedidas de idas e vindas de jovens e adultos entre o Senegal e a França são contadas pela escritora. Lançado em 2003 em francês, quando a autora tinha apenas 35 anos (hoje ela tem 51), poderia ser um texto datado, mas continua atual, por trazer as razões que impulsionam o vai e vem de pessoas nesta era de globalização muito desigual. Em tempos de ascensão do pensamento conservador no mundo, nada mais urgente do que falar sobre os direitos ou a legalidade das fronteiras.

O livro chega ao Brasil pela editora Malê alguns anos depois de a “crise de refugiados” na Europa atingir seu auge midiático, em 2015 e 2016. Acalmada, em termos de noticiário, pelo acordo bilionário com a Turquia — que agora “controla” a rota dos Bálcãs — e pela criminalização dos barcos de salvamento de imigrantes no Mediterrâneo, a chegada diária de centenas de indivíduos à Europa tem agora passado “despercebida” por quem não quer ver o problema. Na França, segundo a contagem extraoficial, de duzentos a trezentos indivíduos chegam ao país diariamente.

Essencialmente autobiográfico, O ventre do Atlântico tem como fio condutor a história da personagem principal, Salie, que foge de seu país natal para escapar do destino de ser uma “bastarda” e tentar reconstruir sua vida na terra da prometida liberdade
de que tanto ouviu falar na escola por meio do aprendizado da língua francesa. Diome, como sua personagem-narradora, escapou de ser morta logo após o nascimento porque sua avó desrespeitou os costumes locais e resolveu ela mesma criar a neta, nascida fora dos laços do matrimônio. Há muitas críticas ao Senegal, mas a autora não se furta a falar do racismo e das dificuldades enfrentadas na nova pátria, e muito menos do peso imposto pelo histórico de colonização e pelo imperialismo capitalista atual aos países africanos.

Dupla identidade

A protagonista é o elo entre os outros personagens, todos “expatriados” ou desejando uma nova geografia que lhes permita realizar o sonho de ser o que desejam. O professor “exilado” do continente senegalês na ilha de Niodior; a sua amada que tem de fazer o caminho inverso e fugir para o continente para ser livre; o “homem de Barbés”, que, apesar de ter sacrificado décadas em seu autoexílio francês, se torna um herói na volta; seu meio-irmão mais novo, que sonha em jogar futebol em um time europeu — não descartando arriscar a vida em uma das pirogas que atravessam o Mediterrâneo. 

Fatou Diome se autodenomina franco-senegalesa. Diz que é esse “país alargado” pela fusão de suas duas “pátrias” o seu território mental e real. Apesar de estar há 25 anos radicada em Estrasburgo, no leste da França, para onde se mudou ao casar-se com um alsaciano — de quem se divorciou por nunca ter sido aceita pela família dele —, ela ainda tem de explicar essa “dupla nacionalidade” a jornalistas locais. 

Apesar da contestação sobre sua autoproclamada “dupla identidade”, ela é hoje uma escritora de renome na França. Tanto que ficou à vontade para afrontar as propostas e análises dos políticos de partidos de direita sobre o fluxo de imigrantes em um debate ocorrido na tv em 2015. “Você pode ir embora, porque eu tenho a intenção de ficar”, disse, com segurança, depois de discorrer sobre as vantagens econômicas que a população imigrante oferece ao país onde trabalha.

No auge do debate das eleições presidenciais de 2017, ela publicou Marianne porte plainte! (“Marianne acusa”), um ensaio em defesa dos ideais humanitários de liberdade, igualdade e fraternidade encarnados por Marianne, personagem feminina alegórica que passou a representar a República após a Revolução Francesa no fim do século 18. Esse texto discute e desconstrói os ideais retrógrados que buscavam circunscrever e definir uma “identidade nacional francesa” fixa, original e imutável, que foi usada por políticos e partidos para assegurar seu nicho de votos e leitores. 

Há críticas ao Senegal, mas a autora não se furta a falar do racismo e das dificuldades na nova pátria

Atualmente, Fatou Diome está em turnê pela França para lançar seu novo livro, Les veilleurs de Sangomar (“Os vigias de Sangomar”), em que procura honrar os familiares e todos que tiveram de seguir suas vidas após perderem entes queridos na tragédia que deixou, em setembro de 2002, cerca de 2 mil mortos no naufrágio do navio Le Joola, ocorrido na costa do Gâmbia, que faz fronteira com o Senegal. 

Apesar de continuar a defender sem descanso a liberdade individual dos seres humanos, ela não tem medo de se tornar uma voz controversa entre os “progressistas”, como mostrou em entrevista ao jornal Le Monde: não se vê como feminista porque acredita que toda mulher é em si uma defensora da igualdade entre os gêneros, e levanta a bandeira de que se deve ir além de discutir a reparação pelos crimes cometidos pela escravidão e pela colonização (os que vieram “antes de nós” já fizeram isso) para tratar de temas mais “urgentes” da nossa época. 

Traduzido para mais de vinte línguas, O ventre do Atlântico se junta, no mercado editorial brasileiro, a outros lançamentos relativamente recentes de escritoras africanas, como a nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie, a ruandesa Scholastique Mukasonga e a ganense Yaa Gyasi. Nada melhor do que poder ler mais sobre o mundo, e o o livro de Fatou Diome é importante para se compreender o momento atual.

Quem escreveu esse texto

Izabela Moi

É diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

Matéria publicada na edição impressa #28 nov.2019 em outubro de 2019.