Literatura infantojuvenil,

Um conto de faltas

Livro de Giovana Madalosso faz com que crianças e adultos confrontem os altos e baixos da vida

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

Altos e baixos é um encanto. É doce, divertido, bonito e ótima companhia. A surpresa é que, mesmo com tudo isso, o livro não está condenado ao canto das fofuras. Fruto da conversa de Giovana Madalosso (autora do arrebatador Suíte Tóquio, considerado um dos melhores livros de ficção do ano passado pelos colaboradores da Quatro Cinco Um) com sua filha e publicada em boa hora pela Leiturinha, a obra é também efeito do desejo da escritora de falar com as crianças sobre as dores e as delícias de existir. 

Entre o texto e a ilustração viva de Ionit Zilberman, o livro conversa sobre o bom e o ruim, o fácil e o difícil, o gostoso e o chato que se colocam para a girafa, para o camaleão, para o jacaré e o morcego, para a centopeia… para todo mundo e para qualquer um. O mais interessante, porém, é que o leitor vai percebendo que o mesmo traço que traz uma vantagem produz também uma desvantagem: “Não tem bom sem ruim”, diria a minha avó, e, nessa história, a Canguru está ali para desenhar a sua versão da verdade, com todas as letras e cores. 

Falando com as crianças, Giovana Madalosso usa seu talento para desfazer estereótipos e apresentar as complexidades do viver: em Altos e baixos, o conectivo “e” está em destaque. Aliás, foi com esse conectivo que Freud apresentou a ideia de que, diferentemente do que tentamos apresentar com as nossas belas formulações, a lógica do inconsciente aceita contradições. E é assim que o livro faz pensar e encontra um lugar muito especial nesse tempo do mundo em que ser criança e ser brasileiro não tem sido nada fácil. 

É por isso também que, diante de um trabalho como esse, o termo “literatura infantil” se torna impreciso. Essa obra literária escrita para as crianças não é infantil e, ao mesmo tempo, faz pensar se não haveria, em toda literatura, um esforço e um modo de fazer com o infantil que nos habita.

Limites

No curso da prolongada crise sócio-sanitária a que estamos todos submetidos, temos pensado e nos angustiado diante do sofrimento das crianças. Lemos suas experiências a partir de tudo que realmente lhes faz falta. 

Para umas, a escola, a alternância entre o ambiente público e o privado, os encontros em alteridade, a ampliação da participação e da inclusão social. Para outras, além disso, a segurança alimentar e a proteção contra a violência intrafamiliar, a proteção social. Para todas, a saudade de brincar com gente do seu tamanho, de pensar a vida junto com outras crianças. 

Falando com as crianças, a autora usa seu talento para desfazer estereótipos e apresentar as complexidades da vida

Diante de toda essa falta, nós nos perguntamos como vamos falar sobre o que é muito difícil com cada criança, pensando-se ainda nas desigualdades e negligências às quais, como sociedade, submetemos as infâncias. O nosso problema hoje é de tal tamanho que não se deixa contornar por nenhuma ficcionalização da vida. O real se impõe, e a pergunta retorna: o que vamos dizer às crianças? O que vamos fazer com elas?

É aqui que Altos e baixos nos pega pela mão para enfrentar um obstáculo próprio à relação intergeracional da nossa época: vez por outra, os adultos, embalados pela carochinha, imaginam-se capazes de dar tudo o que falta às crianças que escolheram amar. É nessa mesma hora e nessa mesma posição que esquecemos que o único recurso que temos para lidar com o que falta é nos relacionarmos frontalmente com os nossos altos e baixos, com o que somos e temos, com o que não somos e não teremos. É verdade que as ficções sempre podem nos ajudar com isso, mas também é verdade que, muitas vezes, caminham na direção oposta, insistindo nos impossíveis da felicidade sem fim. 

Histórias contadas com os limites — os do corpo, os do tempo, os da vida — e nunca apesar deles dão lugar para a criança e podem funcionar como amparo para as suas invenções e para a construção das suas possibilidades. São essas as ficções que podem trazer movimento e surpresa. Com os próprios altos e os baixos, com sorte e algum humor, afinal, cada um vai procurar o seu jeito de voar. É esse o encanto desse “conto de faltas”.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social.

Quem escreveu esse texto

Ilana Katz

É psicanalista e pesquisadora do Latesfip da USP.

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.