Literatura infantojuvenil,

Simpatia pelo lobo

Em livro premiado, Alexandre Rampazo desmonta os preconceitos contra o vilão das histórias infantis

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

O lobo é o grande bicho-papão das histórias infantis. Criatura da escuridão, de olhos amarelos e devorante boca, carrasco de inocentes — é o que nos asseguram as fábulas O lobo e o cordeiro (Esopo, La Fontaine), Chapeuzinho Vermelho (Charles Perrault, irmãos Grimm), Os três porquinhos (Joseph Jacobs), Pedro e o lobo (Sergei Prokofiev) e A história sem fim (Michael Ende).

Não é difícil entender a razão desse estigma: diferentemente das vacas, porcos e ovelhas, o lobo é um dos animais que, tal como a aranha e a serpente, recusaram a domesticação, permanecendo independentes do homem. Sobre esta escolha crucial temos o testemunho insuspeito de Esopo. Convidado pelo cão a trocar as agruras da liberdade pelas migalhas da servidão, ele retrucou: “Antes livre, mas faminto, do que gordo, mas cativo!”.

Tendo rejeitado a civilização, o lobo seguiu seu caminho, irremediavelmente fiel à natureza. Daí ter se tornado a representação sensível da selvageria, dos instintos, dos subterrâneos da alma. Logo passou a conotar o satanismo: inimigo do cordeiro, símbolo dos cristãos, o lobo já aparecia como a corporificação do mal em afrescos pintados nas catacumbas romanas do século 4. No Paraíso perdido de Milton, Lúcifer praticamente repete as palavras do lobo: “Antes rei no inferno que escravo no céu”. 

Parece ser apenas a resignação de um perdedor. Mas o tempo se encarregou de mostrar que a arrogância humana em relação à natureza está inviabilizando a sobrevivência da civilização. Em 1955, antes de qualquer sinal da catástrofe climática, Claude Lévi-Strauss já alertava que “o mundo começou sem o homem e acabará sem ele”. Será que o lobo tinha razão?

A voz do outro

O ceticismo crescente sobre o futuro da humanidade abriu caminho para que os defensores da natureza passassem a ser ouvidos. Esse espírito anima a obra premiada de Alexandre Rampazo, que tenta remover toneladas de calúnias que soterraram a figura do lobo ao longo dos séculos. Ciente de que resgatar sua imagem é uma tarefa difícil, o ilustrador paulistano adota uma estratégia retórica engenhosa.

O livro inicialmente nos apresenta o protagonista. Não é um animal qualquer, e sim um lobo imenso, de feições angulosas e mirada penetrante. Em seguida divisamos, na folha adiante, a figura de Chapeuzinho Vermelho. Virando a página reencontramos o lobo — e unicamente ele: “Este é o lobo. A Chapeuzinho Vermelho não está mais aqui”. A revelação causa espanto. Será que a menina foi devorada? Ou será que ela fugiu? Como o leitor desconhece o desfecho do episódio, é induzido a completá-lo mobilizando os lugares-comuns que colonizaram sua mente: como pode ser bom alguém que é mau até no nome?

A narrativa recomeça, sempre com o mesmo formato: primeiramente vemos o nosso “vilão” e, depois, algum “cidadão de bem” da literatura infantil — a avó de Chapeuzinho Vermelho, os três porquinhos, a princesa, o príncipe, o caçador… Mas a seguir todos desaparecem da história sem nenhuma explicação. Após cada sumiço resta somente o lobo, cada vez mais só.

E cada vez mais distante, pois os sucessivos desencontros entre o malvado e os bonzinhos vão reforçando a repugnância contra sua figura. A cada capítulo, o lobo vai se afastando no horizonte e se dissolvendo na paisagem. Quanto maior a carga de preconceitos contra um personagem, mais invisível ele se torna. É o que mostra o romance Homem invisível, de Ralph Ellison: “Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver”. O lobo real não é visto: o leitor enxerga apenas os clichês que projetou sobre ele.

O lobo só deseja ser tratado de igual para igual; a natureza sabe ser hostil, mas também sabe prover 

O pobre animal não consegue se defender dos estereótipos, ele nunca fala nada. Ou talvez ele fale alguma coisa, mas não escutamos o que ele diz, não prestamos atenção. Sempre que um segmento da população é difamado ou injuriado, seus argumentos deixam de ser levados em consideração: aos excluídos só é concedido o silêncio. Além de invisível, o lobo é inaudível.

Esse quadro desolador somente se altera na sequência final: em lugar de uma figura lendária, entra na história um simples menino, que pergunta ao lobo se ele quer brincar: “Sim. Siiim. Siiiiiiiim!!!”, responde o interlocutor, agora feliz e radiante. E, para grande surpresa do leitor, todas as supostas vítimas do lobo reaparecem para entrar na farra. Elas não haviam sido comidas, apenas tinham se afastado dele. Percebe-se afinal quão injustos eram os preconceitos que o cercavam.  

O lobo não queria servir, não queria ser um escravo. Mas ele aceita brincar, deseja ser tratado de igual para igual. A natureza sabe ser hostil, mas também sabe prover: foi uma loba etrusca que amamentou Rômulo e Remo. E ela, sobretudo, sabe ensinar. Como dizia seu aluno Leonardo da Vinci, todos “aqueles que tomam por mestre a outro que não seja a natureza, mestra de mestres, se esforçam em vão”. 

 Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.