Ilustração de Tala Abu Turki, de treze anos

Direitos Humanos, Literatura infantojuvenil,

Por que a barbárie deve prevalecer?

Relatos e desenhos de crianças e adolescentes palestinos sobre medo e resistência compõem um pedido de ajuda contra a guerra

01mar2026 • Atualizado em: 25fev2026 | Edição #103

Gaza é a contadora de histórias que vai partir para não voltar, depois de contar a história da última guerra.

Assim termina a abertura deste livro, escrito por mais de cinquenta crianças e adolescentes, entre dez e dezessete anos, em oficinas organizadas pelo Tamer Institute for Community Education nos vários acampamentos dos deslocados da guerra em Gaza e nas escolas do governo e da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA), em Deir al-Balah, na região central da Faixa de Gaza.

Ilustração de Fatima Abu Madi, de catorze anos

O projeto que resultou no livro (cujas vendas no Brasil serão revertidas em apoio às ações do Tamer Institute) uniu crianças de Gaza às de outras cidades palestinas e, por aqui, reuniu dezessete editoras: Barbatana, Bazar do Tempo, Binåh, Boitatá, Caixote, Casa das Letras, Lumiar, Padaria de Livros, Palavras Educação, Peirópolis, Pó de Estrelas, Quelônio, Selo Emília, Solisluna, Tabla, Veneta e WMF Martins Fontes.

Ajuda

A edição traz relatos autobiográficos e ilustrações das crianças, além de textos assinados pelos mediadores das oficinas, Hani al-Salmi e Hana Ahmad. Enquanto Gaza é a contadora de histórias cuja voz violentamente silenciada se ergue no texto das crianças, os mísseis são personificados em vilões: “Quem corre atrás de nós e nos mete medo, e até o caminhão tenta fugir dele, é o míssil malvado”. Inimigos de carne e osso são igualmente mencionados pelos autores, cuja infância foi brutalmente interrompida, como o “ferreiro trapaceiro” de quem ninguém gostava, que construiu uma gaiola gigante, trancou as crianças, jogou a chave no mar e fugiu.

Ilustração de Abdullah Abu Madi, de onze anos

A tênue fronteira entre ficção e não ficção não impede que nós, leitores, possamos visualizar o rosto dos tais ferreiros trapaceiros: genocidas imperialistas que lideram grandes nações.

Se para algumas crianças a ficção é a melhor maneira de elaborar as dores e perdas dilacerantes, para outras as imagens que poucos meios de comunicação tiveram coragem de veicular durante os bombardeios a Gaza são as escolhidas para expressar a compreensão da realidade.

É difícil ler de uma única vez. Falta o ar. Há gritos e explosões saltando das páginas

Há, ainda, os que traduzem a resiliência em meio à reinvenção da vida cotidiana, não sem encontrar frestas por onde lançar apelos urgentes, como ao narrar a impossibilidade de se realizar uma prova de matemática na escola devido ao barulho das bombas: 

[…] então, usei minhas habilidades para contar quantos mísseis atingiram nosso bairro, […] quantas risadas se foram […]. Contei também quantas casas se ajoelharam aos pés dos moradores e pediram: ‘Não vão embora, não me deixem aqui sozinha, eu posso ser atingida pelos mísseis e morrer, como vocês’.

Trata-se de um legítimo e assustador pedido de ajuda. Um relatório do Unicef de outubro de 2025 informou que cerca de 64 mil crianças haviam morrido ou ficado feridas em decorrência da guerra na Faixa de Gaza — entre elas, pelo menos mil bebês. Esses números podem ser muito maiores.

Retrato

Os relatos e desenhos das crianças palestinas retratam a crueldade da guerra sem meias-palavras, eufemismos ou relativismos cínicos, comumente usados por adultos impiedosos. A fome, o racismo e toda sorte de injustiças são marcas frequentes nas criações: “A gente se acostumou a beber chá de manhã sem açúcar e sem biscoitos: essa guerra adora açúcar e roubou todo o açúcar”; “nós dormimos cedo, depois da oração da noite, e acordamos com fome antes dos passarinhos”; “a gente não toma nenhum comprimido, porque os aviões bombardearam todos os estoques de remédios, e não sobrou nenhum hospital”.

Ilustração de Salma Sulaiman, de doze anos

É difícil ler Não vou escrever poesia e outros textos de uma única vez. Falta o ar. Os olhos não aguentam tamanha dor. Há gritos e explosões saltando das páginas. E há um silêncio cúmplice que inviabiliza futuros, expresso sobretudo na parte final — “O primeiro dia depois da guerra”, no qual encontramos o texto a que o título faz referência, escrito por Karim Yunis, de treze anos, no acampamento de Al-Mahatta. Faço questão de nomeá-lo e de informar o lugar onde ele vivia quando “virou poeta” porque temo que sua voz e sua história, singulares e por isso mesmo universais, desapareçam forçosamente.

Ao ser entrevistado por um jornalista, Karim leu em voz alta os poemas que havia escrito sobre a guerra e foi aplaudido por outras crianças do acampamento. Mas, ao escrever esse relato, ele afirmou categoricamente: “no primeiro dia depois da guerra, não vou escrever poesia”. Ressoa em sua fala a máxima proferida por Theodor Adorno, que afirmava ser “bárbaro” escrever poesia depois de Auschwitz. Mas ecoa, também, a “animosa interrogação” elaborada por Alfredo Bosi a partir de Adorno: “por que a barbárie deve prevalecer?”.

Ilustração de Karam Sabah, de nove anos

Karim e as crianças palestinas que escreveram em meio a uma das mais terríveis barbáries do nosso triste tempo, irmanadas a incontáveis anônimos, mortos ou sobreviventes de guerra, erguem a voz contra o silêncio escandaloso dos “ferreiros trapaceiros” e nos convocam a somar-nos a elas, seja lançando-nos ao mar em corajosas flotilhas, seja insistindo, poetica e coletivamente, em soprar e amplificar a voz delas.

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É doutora em Educação, professora e crítica literária.

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Por que a barbárie deve prevalecer?”

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