Literatura infantojuvenil,

O poder ultrajovem

Em meio a censuras e traduções de obras brasileiras para o inglês, a literatura Young Adult nacional mostra a sua força

01ago2020 - 01h00 | Edição #36 ago.2020

Foi ao ler O apanhador no campo de centeio, aos treze anos, que a escritora Luisa Geisler sentiu que acessava espaços literários dentro de si com os quais ainda não estava acostumada. “Na época, foi um assombro na mente, tanta raiva concentrada numa literatura. Me marcou muito.” O clássico do inconformismo adolescente, relançado no ano passado em nova tradução de Caetano Galindo pela Todavia, inaugurou estilisticamente o narrador jovem moderno, e, não por acaso, é visto nos Estados Unidos como marco zero do que veio a ser chamado de Young Adult, ou YA, o Jovem Adulto.

Apesar de a classificação ter surgido nos anos 1960, foi com o boom dos anos 2000 que esses leitores passaram a ser vistos como um mercado específico, devido a fenômenos como as séries Harry Potter e Jogos Vorazes e autores como John Green, de A culpa é das estrelas. “O mercado de ya surgiu quando o próprio jovem passou a escolher o que ler, quebrando a relação anterior com os livros, em que obras eram entregues por pais e professores”, explica Diana Passy, criadora da Flipop, evento anual que ocorre em São Paulo dedicado principalmente à literatura YA. Ela ressalta que o YA não é gênero literário, mas recorte demográfico, definido pela faixa etária que cada selo editorial considera seu “leitor jovem”. Na prática, isso pode ir dos doze aos 29 anos.

Nathália Dimambro, editora do selo Seguinte da Companhia das Letras, ressalta o peso do mercado americano como criador de tendências, dando escala global ao fenômeno. “Entre janeiro de 2014 e setembro de 2015, as vendas de infantojuvenis subiram 12,6% nos Estados Unidos, 28% no Brasil e 10% na China. Nesse mesmo período, onze dos vinte best-sellers nos Estados Unidos eram infantojuvenis.”

O fenômeno se fez notar na Bienal do Livro de São Paulo em 2018, quando várias editoras passaram a dar destaque nas estantes para os ya nacionais. “São autores jovens, altamente engajados nas redes sociais”, diz Dimambro. “Muitos tiveram blogs literários ou canais no YouTube sobre livros e bastante conhecimento do mercado ya no Brasil e no mundo, de obras que retratam a realidade do jovem brasileiro, não raro abordando temas delicados, como a descoberta da sexualidade, saúde mental, bullying e revenge porn.” Paula Drummond, editora da Rocco, reforça que, com as redes sociais, os mercados conversam muito mais hoje em dia. “Normalmente, quando uma tendência começa nos Estados Unidos, ela desemboca no Brasil também.” 

Busca por diversidade

Por isso é tão raro que o caminho inverso seja trilhado, mas é o que acontece agora com dois autores brasileiros que estão sendo publicados pela Scholastic nos Estados Unidos, um mercado que traduz muito pouco. “O YA busca dialogar com um público que está em formação, seja como leitor ou como cidadão, e isso não tem a ver com idade, mas com as experiências de vida”, explica Lucas Rocha, cujo romance Você tem a vida inteira (Galera Record) foi lançado em junho nos Estados Unidos como Where we go from here (Para  onde vamos a partir daqui).

A trama entrelaça a vida de três rapazes com hiv: Ian, um universitário que recebe o diagnóstico positivo; Henrique, que convive com o hiv há três anos; e Victor, cujo namoro com Henrique é atrapalhado por seus preconceitos em relação ao vírus. A ideia surgiu quando Rocha, bibliotecário de 27 anos de São Gonçalo (RJ), trabalhou na revista do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). O livro foi lançado na mesma Bienal de 2018 em que a Galera Record trouxe ao Brasil o americano David Levithan, autor e editor de YA na Scholastic. Ele pediu aos seus editores brasileiros para ver lançamentos nacionais em YA, e os levou para seu colega Orlando dos Reis, filho de brasileiros, leitor fluente de português e também editor.

“Escrevi tendo em mente um leitor tão local que não percebi que a história poderia ser global”, explica Rocha. Será curioso ver como o público americano, que não possui sistema público de saúde, reagirá ao ler que no Brasil o sus garante tratamento gratuito para o HIV. “É importante para os americanos ouvirem outras vozes e enxergar o mundo por um ponto de vista que não seja o dos Estados Unidos.”

Rocha não está sozinho: outro autor nacional prestes a ser lançado pela mesma Scholastic é Vitor Martins, cujo romance de estreia, Quinze dias (Globo Alt, 2017), sairá em novembro como Here the Whole Time (Aqui o tempo todo). A premissa clássica dos romances adolescentes — o “será que ele gosta de mim?” — ganha novos contornos quando Felipe, que nutre uma paixão pelo vizinho Caio, precisa lidar com esse sentimento e sua insegurança quanto ao sobrepeso durante os quinze dias em que dividem o mesmo quarto. 

O YA é um segmento que abraça com força questões de representatividade e diversidade, e com frequência Martins escuta leitores já adultos dizerem que seus livros eram o que gostariam de ter lido quando jovens. “Quando falamos sobre a juventude LGBT, há a questão da adolescência tardia. Muitos a passaram se escondendo, e só se permitiram viver de verdade suas paixões e questionamentos depois dos vinte anos.” Um exemplo dessa ponte intergeracional é o romance Dois garotos se beijando, de David Levithan — recentemente vendido junto com o de Lucas Rocha num box oportunamente intitulado “Kit Gay” — que mostra diversos garotos LGBT, incluindo um rapaz trans, cujas vidas são afetadas por dois jovens tentando quebrar o recorde de beijo mais longo transmitido ao vivo. 

Um detalhe, porém, destaca o livro: seu narrador é uma voz plural, composta pelo espectro dos falecidos na epidemia de aids dos anos 1980, os quais observam e comentam perplexos a liberdade das novas gerações em viver o que não puderam. Martins aponta que a literatura YA pode ser engajada e ser entretenimento, mas sempre girará em torno da juventude e do que acontece quando passamos por ela. “Ainda temos muito enraizada no meio literário brasileiro a ideia de que YA seja leitura para adolescentes, e não sobre adolescentes.” Para ele, escrever YA é procurar as respostas para a dúvida: “Do que os jovens estão falando agora?”. E os jovens querem essas questões respondidas para hoje. Isso gera uma renovação grande desse público. 

Formação de leitores

Não é coincidência que o YA seja alvo da censura que se aninhou na realidade nacional. Quando Luisa Geisler lançou seu Enfim, capivaras (Seguinte), não imaginou o que aconteceria quando o livro caiu nas mãos de um pastor evangélico em Nova Hartz, cidade do interior gaúcho. Chocado ao saber que no livro — pasmem! — adolescentes bebiam escondido dos pais e falavam palavrões, fez os exemplares serem recolhidos da rede pública municipal, e a autora foi desconvidada da feira literária local.

“Eu só queria um livro no qual a Luisa adolescente pudesse se ver, ver a confusão que sentia naquela época, de personagens com dúvidas sexuais, dinâmicas sociais, que sentem que não encontram sua turma nunca”, diz Geisler. “Sinto que autores brasileiros querem leitores formados, mas não querem formar esses leitores. Não criamos um espaço confortável de leitura e discussão de Machado de Assis. Jogamos José de Alencar numa turma de quarenta adolescentes como se fosse uma granada, mas torcemos para que haja sobreviventes.”

O romance de Geisler, ambientado no interior de Minas Gerais, acompanha um grupo de adolescentes por 24 horas, quando decidem pôr à prova as mentiras de um deles, que garante ter uma capivara de estimação. Tradutora de ya estrangeiros, ela ressalta que ainda há bastante espaço de crescimento no Brasil. “O mercado americano já conta com best-sellers YA discutindo dinâmicas raciais e sexuais gerando discussões que são parte da cultura nacional, mas aqui ainda é visto como ‘literatura de gênero’, como algo que só existe para um tipo de público.” Rocha concorda que não há assuntos proibidos no YA: “Existem adequações, mais do que limitações, pois estou falando com uma audiência em formação”. E Martins destaca que há um grande senso de comunidade quando se fala do mercado YA brasileiro, o que estrutura seus autores para avançarem em outras direções. Como na clássica crônica de Drummond, em que uma menina confronta o pai no restaurante ao escolher ela própria o cardápio, uma nova geração sabe o espaço que quer ocupar.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Samir Machado de Machado

Escritor, é autor de Tupinilândia (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.