Literatura,

O seu amor é canibal

Moby Dick traz um relacionamento homoerótico entre Ismael e Queequeg no centro de seu enredo

01out2022 - 04h51 | Edição #62

  
Ilustração de Letícia Lopes [Divulgação]

Dos clássicos cujo apelo se renova a cada relançamento, poucos são tão carregados de simbolismo e possibilitam tantas interpretações quanto Moby Dick, de Herman Melville. O livro sai em nova tradução de Rogério Galindo para a editora Antofágica, com belas ilustrações de Letícia Lopes, posfácio de Caetano Galindo e aparato crítico de Luiz Ruffato, Rita Isadora Pessoa, Vinícius Duarte Figueira e do próprio Galindo, que ressalta o aspecto inovador e inclassificável do livro.

Assim como seu personagem-título, Moby Dick intimida o leitor. Se seu tamanho e reputação assustam, a obra-prima de Herman Melville, contudo, é uma leitura bastante fluida, épica em escopo e possibilidades de interpretação. Na superfície, temos a história da obsessão monomaníaca de um homem, o capitão Ahab, em busca de vingança contra a baleia-branca que devorou sua perna numa castração talvez não apenas simbólica (ele se refere a ela de modo ambíguo, como sendo quem “tirou meus mastros”). Em Moby Dick abundam simbolismos bíblicos, fálicos, críticas à escravidão e ao imperialismo, informações enciclopédicas sobre baleias (que nesta edição ganham ilustrações) e, de um modo tão evidente que surpreende quão pouco é percebido e abordado, um relacionamento homoerótico no centro de seu enredo.

Lugar de falo

Ainda que a atração entre dois homens fosse abordada de forma mais explícita em seu último romance, Billy Budd, os primeiros capítulos de Moby Dick são carregados de metáforas bastante claras, que Melville utiliza para evidenciar o que não poderia, ou não quisesse, dizer às claras. Ismael, o filosófico narrador do livro, encontra-se em busca de pouso. Informam-lhe que a única cama disponível na pousada (um grande leito nupcial) já está metade ocupada por outro, um canibal polinésio chamado Queequeg.

Ismael aceita dividir o leito e, chegando primeiro à cama, antecipa a chegada do outro feito uma noiva, seu olhar ansioso diante do corpo do outro se despindo, as apalpadas iniciais e a fuga e o retorno do quarto são, em tudo, símiles da descrição de uma noite de núpcias. A relação entre os dois é assim selada sobre a cama: ao acordar, Ismael sente o braço de Queequeg largado sobre si de modo carinhoso e afetuoso, num “abraço conjugal”, metáfora repetida com insistência por Melville.

Após a primeira noite, Ismael curiosamente se sente culpado ao escutar o sermão de um padre mencionando Sodoma e Gomorra. Em seguida, porém, o que o discurso da Igreja condenara, os hábitos pagãos sancionam: os dois sentam-se sobre uma colcha que, Queequeg explica, é a mesma sobre a qual suas duas irmãs se casaram. Após fumarem um cachimbo cerimonial, Ismael conta que Queequeg “encostou a testa na minha, me agarrou pela cintura e disse que dali em diante estávamos casados”. Os dois então voltam para a cama, onde “na lua de mel de nossos corações, ficamos deitados eu e Queequeg — uma dupla aconchegante e amorosa”.

Apertando o espermacete

Durante muito tempo, julgou-se que o espermacete, o fluido gorduroso que se extraía de baleias para fabricação de velas, sabão, ceras e óleos, fosse de fato seu esperma, e não um fluido cerebral. Por esse motivo, o cabeçudo cachalote é chamado, em inglês, sperm whale. E não, não precisamos nem entrar na relação com a palavra seamen (“marinheiros”, em inglês, que tem som igual ao de “sêmen” na mesma língua): Melville deixa seus próprios personagens fazerem isso. Após capturarem uma dessas “baleia de esperma”, eles se põem em círculo para, com as próprias mãos, realizar o processo de apertões e puxões com que extraem o espermacete da cabeça do animal, naquela que pode ser considerada a passagem mais homoerótica de toda a literatura do século 19:

“Espremer! espremer! espremer! (…) Espremi aquele espermacete até uma estranha espécie de insanidade se abater sobre mim; e me peguei sem querer espremendo as mãos de meus colegas de trabalho nele, confundindo-as com os delicados glóbulos. Essa tarefa gerou um sentimento tão abundante, afetuoso, amistoso, amoroso que por fim eu estava apertando as mãos deles sem parar e olhando sentimentalmente nos olhos deles; como se dizendo: Ah, caros companheiros de existência, por que deveríamos daqui por diante nutrir qualquer amargura social ou sentir o menor mau humor ou inveja! Venham; vamos todos espremer as mãos uns dos outros; melhor ainda, vamos espremer a nós mesmos universalmente no leite e no espermacete da gentileza”.

A fúria do corpo

Não deixa de ser curioso como em Melville, de Queequeg na cama à roda de espermacete, relações de afeto masculino se desenvolvem entre imagens que sugerem sempre masturbação mútua, mas nunca penetração. Em uma obra tão inegavelmente apegada a simbolismos, as escolhas de palavras e momentos são tão latentes que não creio que se possa considerá-las nem sequer codificadas. São o mais próximo, talvez, que um autor conseguiria chegar, em seu tempo, de abordar relações e obsessões que, se não chegam a ser sexuais, são certamente homoafetivas — e em sua obra seguinte, Billy Budd, claramente homoeróticas.

Em ‘Moby Dick’, relações de afeto masculino se desenvolvem entre imagens que sugerem sempre masturbação mútua

O que leva, naturalmente, a especulações sobre a sexualidade de Melville, para as quais não há, e talvez nunca haja, uma resposta definitiva. Sabe-se com certeza que não suportava a companhia da própria esposa, preferindo a de marinheiros nos portos e bares. Se sua devoção pelo amigo Nathaniel Hawthorne abriu espaço para suposições, saber que mantinha em seu escritório um busto de Antínoo, o deificado amante do imperador Adriano tornado ícone gay desde o século 18, não deixaria muitas dúvidas.

Tanto em Moby Dick quanto em outras obras suas, faltam personagens femininas na obra de Melville e sobram imagens de uma masculinidade dinâmica expressa por meio de ação física (por oposição, a imobilidade de um Bartleby reforçaria isso). Ainda que o afeto entre homens domine a literatura de Melville, ele próprio não consegue vislumbrar um final feliz para isso: assim como a perdição de Ahab vem da obsessão em penetrar com seu arpão o grande falo simbólico que é Moby Dick, a salvação de Ismael surge, justamente, por meio do caixão construído por Queequeg. 

Quem escreveu esse texto

Samir Machado de Machado

Escritor, é autor de Tupinilândia (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.