Literatura infantojuvenil,
Admirável mundo antigo
Robôs meio toscos (e engraçados) descobrem o que pode haver do lado de lá de sua realidade pós-apocalíptica
30jan2026 | Edição #102Em A incrível expedição dos robôs, a escritora e roteirista de cinema tcheca Taťána Rubášová homenageia duas tradicionais formas literárias: as narrativas pós-apocalípticas e as viagens de descobertas (como não lembrar, por exemplo, de A incrível viagem de Shackleton, de Alfred Lansing? — que narra a luta pela sobrevivência da tripulação comandada pelo britânico Ernest Shackleton em expedição fracassada de conquista do Polo Sul).
A homenagem, contudo, opera em chave paródica, a começar pela escolha dos protagonistas: não são homens e mulheres que se aventuram por terras desconhecidas, mas dois robôs de uma cepa posterior à do Homem de Lata, de O Mágico de Oz, já que são dotados de sentimentos, como medo e coragem. Aliás, não há humanos na história, porque eles deixaram de existir. Eis o cenário pós-apocalíptico da narrativa — um cenário que lembra o final do filme A. I. – Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg, em que só restaram robôs altamente tecnológicos, desenvolvidos por outros robôs, sem qualquer contato com os humanos ou a mínima lembrança deles. Os robôs de Taťána Rubášová, cujas feições e vida vêm das mãos do ilustrador Jindřich Janíček, são bem mais toscos que os de Spielberg, o que confere grande parte da graça desta história em quadrinhos.
Num futuro distante, os robôs William e Meriwether são designados para empreender uma primeira expedição de pesquisa para além da “Grande Muralha”, que cerca e isola o local onde habitam. Não há informações precisas sobre esse local, muito menos sobre o modo de vida da comunidade. Sabemos apenas que William é cientista e passa o dia no laboratório e que Meriwether foi programado para desempenhar o papel de “um intrépido viajante que não tem medo de nada”, embora nunca tenha estado, até então, em lugar algum.
Se os personagens de lata sonhassem, talvez tivessem imaginado a existência da civilização humana
Contudo, as imagens desta curiosa história em quadrinhos — que não se constrói com a sucessão de pequenos quadros, mas de grandes vistas, muitas vezes ocupando a página inteira — permitem vislumbrar um pouco da realidade dos personagens de lata: em uma delas, os dois protagonistas caminham entre centenas de robôs ainda inanimados, dispostos de pé em longas e intermináveis fileiras, como numa linha de montagem; outra os mostra cruzando um enorme galpão de peças e barris de armazenamento, que parece ser controlado pela torre em forma de um gigantesco robô. É como se eles habitassem uma fábrica e a vida se resumisse à produção de outros seres à sua imagem e semelhança.
A comunidade isolada e algo industrial de onde partem faz lembrar ainda uma terceira forma literária: a das narrativas distópicas sobre sociedades que vivem em isolamento. A exemplo dos personagens desse tipo de narrativa, os dois robôs atravessam o muro que os confina com desconhecimento total do que existe do lado de fora e com a crença de que só há vida no espaço protegido: “Prevalece uma convicção generalizada de que além da Muralha não há nada”, diz William, o narrador da história.
O objetivo da expedição é desbravar e mapear os territórios atrás do alto muro a fim de verificar se são habitáveis, colher amostras e trazer para análise e, o mais importante, tentar encontrar vestígios que indiquem a origem dos robôs. No percurso, atravessam desertos, savanas, florestas e deslumbram-se com o novo — que, na verdade, é o que resta do antigo mundo, anterior ao dominado pelos robôs.
Mundo artificial
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Um dos aspectos mais divertidos da história — além da cômica relação entre William e seu auxiliar Meriwether, que se assemelha vagamente à de c-3po e r2-d2, em Star Wars — é o modo de classificação das coisas, traduzindo o mundo natural em termos do mundo das máquinas, familiar aos robôs. Os peixes são classificados como “um grupo movido a água”; os pássaros, como “amostras voadoras”; as plantas, como “materiais fotossintéticos sensíveis a dióxido de carbono”. Como, ao iniciar a expedição, os robôs não desconfiam de que muito antes existiram os humanos, não reconhecem seus ossos: daí, classificá-los como “unidades de estruturas mineralizadas” e chamar as caveiras de “corpos ocos elipsoidais de finalidade desconhecida”.
Se os robôs sonhassem, talvez tivessem imaginado a existência dessa civilização perdida, cujos vestígios encontram pelo caminho. “Só que os robôs não sonham”, diz William. “Apenas um cientista ingênuo, em um laboratório, teve um sonho.” Esse cientista era ele mesmo. William talvez estivesse se dando conta, em plena expedição, de que, sem sonho, não há imaginação e, sem imaginação, não há descoberta.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Admirável mundo antigo”
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