Literatura estrangeira,
Uma voz de uma geração
Criadora da série Girls, Lena Dunham lança memórias sobre os bastidores problemáticos da fama e sobre outras dores crônicas
15maio2026 • Atualizado em: 18maio2026No final do primeiro episódio da série Girls, exibido em 2012 pela HBO, a protagonista Hannah Horvath invade o quarto de hotel dos pais, após tomar chá de papoula, para fazer o seguinte anúncio: “Acho que sou a voz da minha geração. Ou uma voz de uma geração”. Era a tentativa de convencer os genitores a continuarem sustentando a vida caótica da filha em Nova York. O argumento não os convence e Hannah se vê obrigada a arrumar um emprego.
É assim que Lena Dunham, criadora da série e atriz que interpreta a personagem, se apresenta para o espectador: uma jovem de vinte e poucos anos com muitas ambições, um tiquinho de arrogância e nenhuma ideia de como navegar pelo mundo fora daquele quarto de hotel.
Mas o anúncio feito há catorze anos se materializou: Dunham realmente se tornou uma voz da geração millennial — e isso não significa necessariamente algo bom. É o que fica evidente em Famesick, seu segundo livro de memórias, ainda sem data de publicação no Brasil.
O primeiro livro, Não sou uma dessas (trad. Lourdes Sette, Intríseca, 2014), era um apanhado de piadinhas de redes sociais e relatos soltos das experiências da escritora antes da fama. Em Famesick, Dunham assume uma postura mais sóbria ao detalhar toda a ascensão profissional em Hollywood, os bastidores de Girls, relacionamentos com homens duvidosos, amizades questionáveis nascidas na indústria do entretenimento e, principalmente, a jornada tortuosa que enfrentou lidando com a endometriose, cujas dores crônicas foram responsáveis por um vícío em remédios ansiolíticos à base de clonazepam e uma histerectomia aos 31 anos. Além de tudo isso, Dunham descobriu sofrer da síndrome de Ehlers-Danlos, uma doença hereditária sem cura.
Entre todos os relatos envolvendo colegas de trabalho — como o ator Adam Driver, descrito como um homem instável, imprevisível e propenso a inúmeras crises de raiva durante os ensaios com Dunham —, há um tema constante em Famesick: as mazelas trazidas pela fama a partir do sucesso da série, em uma indústria que não admite fraqueza humana e muito menos perder prazos por motivos de saúde ou até por morte de familiares.
Lena Dunham detalha a ascensão em Hollywood, os bastidores de ‘Girls’ e relacionamentos duvidosos
Apesar do tom sério, o traço mais autêntico de Dunham não ficou para trás: a honestidade quase ingênua, salpicada por um egocentrismo excêntrico, responsável por fazer o leitor mais dessensibilizado morrer de vergonha alheia e, ainda assim, terminar com certa ternura pela autora.
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A própria Dunham, em recente entrevista ao podcast do New York Times, define esse exibicionismo da vida pessoal como uma “necessidade obsessiva de autoexpressão” e analisa que isso foi um dos principais motivos para todo o ódio cultivado contra ela nas redes sociais. Nas memórias, ela vai além e afirma ter sido, desde pequena, considerada irritante aos olhos de outras pessoas.
Irritante ou não, Dunham sempre apresentou um trabalho consistente, voltado para si mesma e para as pessoas ao seu redor. Em Mobília mínima (2010), o primeiro longa dirigido por ela, a mãe e o irmão (na época, ainda uma menina cis) fazem parte do elenco. A série Girls conta não só com a amiga de infância no elenco principal — a magnética Jemima Kirke, no papel de Jessa —, mas retrata aspectos da vida de Dunham e de suas amigas. Até mesmo a última série dirigida e criada para a Netflix, Too Much (2025), foi inspirada no período da vida da escritora em que ela foi morar em Londres e se casou com um músico.
Fama indiscreta
Nessa obsessão por si própria, as linhas da ficção e da realidade obviamente se borraram com facilidade, ainda mais nos anos 2010, quando as redes sociais começavam a invadir cada aspecto das nossas vidas. A sinceridade quase suicida de Dunham serviu como uma luva para ela ser devorada, mastigada e regurgitada por milhares de usuários anônimos, jornalistas com muitos seguidores e blogs engraçadinhos.
Essa onda de ódio só ganhou tamanha proporção por causa da aparência da autora. Havia um sentimento muito claro de indignação contra a sua existência, pois não atendia aos ciborguianos padrões de beleza de Hollywood e não parecia ter intenção alguma de mudar essa condição.
Grande parte dessa raiva, portanto, se concentrava em destrinchar o corpo de Dunham para provar quão deplorável era uma mulher considerada feia se mostrando confortável com o próprio corpo perante milhares de espectadores. Consideravam-na uma pessoa desagradável, tornando-a o arquétipo de mulher detestável em um universo no qual o valor de uma figura feminina é determinado pelos números na balança e pela capacidade de ficar calada até ser requisitada.
Dunham vestia a carapuça. Era muito ativa no Twitter e respondia prontamente a cada texto, matéria e tuíte maldoso direcionado a ela. Na época, foi uma das principais celebridades a defender a igualdade salarial em Hollywood e ainda foi, em 2016, um nome importante na campanha de Hillary Clinton — sim, aquela perdida para Donald Trump.
No final dos anos 2010, o otimismo millennial, muito bem encarnado em Dunham, entrou em uma ressaca sem fim. A pandemia veio, jovens ficaram mais distantes de políticas progressistas e a escritora se tornou uma caricatura do feminismo branco da década passada: franja acima da sobrancelha e muitas opiniões a respeito de tudo. Para usar uma gíria terrivelmente online, Dunham se tornou uma espécie de lolcow: uma figura excêntrica que se torna alvo de piadas e assédio apenas para gerar mais risadas.
Contudo, é fácil desumanizar alguém como Dunham, não sabendo como as coisas rolavam nos bastidores. Famesick não poupa detalhes do relacionamento esquisito com Adam Driver durante as gravações da série. O namoro de cinco anos com o produtor musical Jack Antonoff (hoje casado com a atriz Margaret Qualley) é descrito como uma sucessão de ausências bem agudas do namorado em momentos complicados. Quando Antonoff não está em turnês intermináveis pelo mundo, quase sempre aparece trancado em um estúdio à prova de som no apartamento deles com alguma cantora pop mais jovem. O relacionamento termina em comum acordo, mas de maneira dolorosa: Dunham se vê viciada em ansiolíticos por causa das dores constantes causadas pela endometriose e não encontra nenhum tipo de compreensão do parceiro.
Essas revelações foram obsessivamente destrinchadas nas redes sociais, com usuários procurando fotos e notícias da época para tentar descobrir se Antonoff traiu a escritora. Dunham não é uma novata e é de se esperar que ela já previsse esse tipo de atenção do público, ávido por fofoca de celebridades. Quando publicou o primeiro livro, aliás, um dos trechos em que Dunham relata ter tocado na genitália do irmão, quando ambos eram crianças, foi repercutido em massa por jornalistas e influenciadores conservadores estadunidenses. Em pouco tempo, a bolha progressista se juntou ao coro e Dunham foi taxada de abusadora.
A autora reconhece a própria incapacidade de, na época, enxergar para além do umbigo, quando expôs o irmão sem pensar nas consequências. Isso causou um afastamento da família e criou uma relação estranha com a mãe — a artista Laurie Simmons — devido à percepção de que todas as décadas dedicadas à arte foram esmagadas pela fama indiscreta da filha.
Sinceridade suicida
Mesmo com toda a sinceridade e os raros momentos em que a autora olha para além do próprio umbigo, o livro começa a ficar irritante depois de um tempo, porque o único espaço ocupado por Dunham parece ser o de vítima — uma mulher que ama demais, com uma necessidade intensa de amar e ser amada. Cada interação da autora soa mais como um relato de autossacrifício do que de questões comuns da vida adulta.
Fica difícil segurar a mão de Dunham sempre que relata não conseguir dizer um não nem assumir as rédeas da própria vida — logo ela, que tem o trabalho celebrado mundialmente. Talvez seja uma tentativa de marcar um traço do gênero feminino, já que somos obrigadas a ser humildes e não demonstrar traços negativos, mas o livro passa a sensação de que a fama da autora foi puramente acidental e que ela apenas seguiu a corrente de maneira passiva.
Essa passividade é questionável, sobretudo por causa dos momentos em que Dunham foi confrontada por atitudes contraditórias. Em 2017, após publicar um texto defendendo o movimento #MeToo, ela e sua sócia e amiga, a produtora Jenni Konner, publicaram uma nota defendendo Murray Miller, um dos roteiristas de Girls. No livro, Dunham se coloca como um agente passivo dessa decisão, pois estava no auge do vício em remédios e a relação com Konner caminhava para um rompimento.
A autora não é uma novata e reconhece a incapacidade de enxergar para além do umbigo
É preciso lembrar, no entanto, de que se trata das memórias de Dunham — e memórias nem sempre são a fonte mais confiável para avaliar nosso papel em situações desagradáveis. A autora deixa isso claro na reta final do livro, reproduzindo uma conversa com Bruce Springsteen sobre a dificuldade de escrever a respeito da própria vida. O astro do rock aconselha: “Você não precisa ser honesta sobre cada pequeno detalhe da sua vida. Você não deve isso a ninguém. Isso não significa que você esteja mentindo, só significa que você pode ter segredos”.
Dunham fecha o livro contando de uma nova fase: decide não compartilhar com ninguém a descoberta sobre si mesma. A constatação fica um pouco cômica, considerando as centenas de páginas anteriores descrevendo detalhes íntimos da vida pessoal, mas esse é o maior charme do livro: um lembrete de que até a pessoa mais odiada da Internet é um ser humano cheio de contradições.
A publicação das memórias também veio em momento oportuno, com novas gerações assistindo Girls e millennials revisitando a série. Ao contrário da série-mãe, Sex and the City, a história das quatro garotas de vinte e poucos anos criada por Dunham envelheceu muito bem ao retratar todas as humilhações que uma mulher nessa idade é obrigada a viver até encontrar o próprio caminho.
Essa fragilidade despertou uma onda completamente nova de simpatia em relação à figura de Lena Dunham. Na década em que influenciadores e celebridades simulam vidas perfeitas no Instagram, a honestidade da escritora parece ter conquistado, mais uma vez, uma geração.
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