O escritor estadunidense Tony Tulathimutte (Lydia White/Reprodução)

Literatura,

Cronicamente on-line

Tony Tulathimutte diz como sua fluência em diferentes linguagens virtuais para compor o retrato de uma geração

04mar2026 • Atualizado em: 14mar2026

Em abril de 2014, um usuário de 22 anos publicou, no YouTube, mais de vinte vídeos relatando dificuldades para ter encontros com garotas. Em um deles, gravado dentro do carro, o jovem olha para a câmera e dá o ultimato: “Eu não sei por que vocês, garotas, não se atraem por mim, mas vou punir todas vocês”. Uma semana depois da postagem, esse usuário (depois identificado como o universitário estadunidense Elliot Rodger) executou seis pessoas e feriu catorze no atentado conhecido hoje como o Massacre de Isla Vista.

Apesar de ser mais um dos crimes cometidos nos Estados Unidos por atiradores solitários como Rodger, o atentado da Califórnia acabou entrando na história por causa da motivação assumidamente misógina, supostamente originada nas rejeições amorosas ao longo da (curta) vida do atirador — que cometeu suicídio horas depois do ataque, antes de ser capturado pela polícia. 

Na internet, o atirador de Isla Vista se tornou ícone incel (abreviação de involuntary celibate ou celibatário involuntário), numa subcultura misógina estabalecida a partir da segunda metade dos anos 2010. Em fóruns digitais e publicações nas redes sociais, usuários anônimos relatam frustrações parecidas ao ser dispensados não só nos relacionamentos, mas em outras situações. E a solução oferecida, nesses espaços, é seguir o caminho dos mártires da rejeição.

Ser rejeitado, no entanto, está longe de ser exclusividade de garotos ressentidos com muito tempo de tela. É uma experiência universal, mesmo que pessoal e intransferível. De um jeito ou de outro, todo mundo vai ser rejeitado na vida. É possível explorar, no campo da ficção, algo tão mundano e, muitas vezes, mesquinho? 

O arquétipo do incel é usado como ‘terapia social’ pela cultura dominante e pelas pessoas vulneráveis

O escritor estadunidense Tony Tulathimutte passou anos obcecado pela rejeição — ou ao menos pelo impacto dela. Após publicar, em 2016, seu primeiro romance, Private Citizens (sem tradução no Brasil), mergulhou em artigos científicos, manifestos de atiradores como Elliot Rodger e obras de ficção abordando o tema. Anos depois, voltou das profundezas com Rejeição, seu primeiro título lançado no Brasil, com sete contos, em que personagens lidam com o tema em situações diferentes.

“O feminista”, o primeiro e talvez mais conhecido dos contos, publicado em alguns veículos — incluindo a Quatro Cinco Um —, conta justamente a história de um homem que se torna um incel raivoso por não aguentar mais ser rejeitado pelas mulheres ao seu redor. Apesar de o personagem ser detestável, Tulathimutte consegue envolver o leitor sem apelar a artifícios melodramáticos ou caricaturas simplesmente odiosas.

“O arquétipo do incel é usado como forma de ‘terapia social’ por ambos os lados: a cultura dominante adora criar bodes expiatórios para se sentir superior, e as pessoas vulneráveis aceitam esses rótulos porque querem saber como se situam no mundo, mesmo que isso signifique aceitar que são ‘inferiores’ ou ‘sem esperança’”, diz.

Com domínio de diferentes dialetos virtuais, Tulathimutte pintou um retrato fidedigno não só das relações mediadas pela internet, mas da própria condição humana frente à repulsão do outro. Em entrevista por videochamada à Quatro Cinco Um, o autor discutiu o processo de pesquisa sobre o tema, formas de se tornar fluente em diferentes linguagens virtuais e os prós e contras de ser um escritor cronicamente on-line, um mundo onde muita gente se leva a sério demais.

Em Rejeição, as histórias são acessíveis a qualquer leitor, mas, ao mesmo tempo, você dá “piscadelas” às pessoas imersas na cultura on-line e que conhecem memes. Alguém já disse ter se reconhecido ao ler?
Algumas pessoas comentaram sobre isso. Mas, quando você escreve sobre qualquer subcultura e tenta obter efeito apenas por meio de reconhecimento e referências, o texto não se torna divertido de ler, mesmo para quem faz parte daquela comunidade. Além disso, o livro fica inacessível para quem está de fora. Gosto de incluir coisas que não são óbvias para o leigo, como referências literárias e um jogo formal complexo, que acho que ninguém percebeu ainda no livro.

Muitas das histórias acontecem na internet. Esse tipo de comunicação parece simples, porque estamos sempre on-line, mas não é fácil de dominar. Como foi internalizar essas vozes com tanta fluência?
As pessoas subestimam a complexidade de adotar uma voz on-line porque pensam nela como algo monolítico, mas na verdade há vários dialetos. Uma mulher de vinte anos em um grupo virtual de amigos soa diferente de um anônimo postando merda em um fórum. Para mim, acessibilidade não é apenas garantir que as pessoas entendam a piada ou repetir o que já sabem, mas trazer algo completamente novo. Se eu não consigo contar uma história em termos que qualquer um possa entender pelo contexto, sinto que não fiz um bom trabalho.

Os três contos iniciais são muito engraçados. Os personagens são desagradáveis, mas sentimos uma profunda empatia por eles. Esse tipo de sentimento é necessário para explorar o tema da rejeição?
Existem diferentes tipos de empatia. Há aquela que parece “caridade” e há a que me interessa mais, que é quase como uma “maldição”: quando você não quer se ver em alguém, mas se vê mesmo assim. Como escritor cômico, acho isso muito mais engraçado. No entanto, acho a empatia como fim último da literatura algo superestimado. Na sátira, é fácil criar uma pessoa estúpida e rir dela, mas você quer sentir que o autor deu uma chance de fato ao personagem, tratando-o como pessoa real e não apenas demonizando de forma barata.

A rejeição é um sentimento universal, mas existem pessoas (talvez psicopatas ou aquelas muito bonitas) que nunca foram rejeitadas. Como vê essa universalidade?
É curioso. Recebi mensagens de pessoas famosas e muito bonitas dizendo que nunca haviam sido rejeitadas, mas que gostaram do livro. Acho que é uma questão de graus: alguns são mais rejeitados socialmente do que romanticamente. A rejeição é uma experiência muito íntima e egocêntrica — você acredita que a sua dor é a única que importa. Do lado de fora, parece que nada mudou na sua vida, mas, internamente, parece que o mundo acabou porque você perdeu uma fantasia na qual investiu suas esperanças.

No ensaio “The Rejection Plot”, publicado na The Paris Review, você escreve sobre a rejeição como uma “antitrama”: uma história de um lado só. Como foi escrever histórias dessa situação que não avança de forma convencional?
Foi muito difícil. Temas como vingança ou casamento geram boas tramas naturalmente, porque têm começo, meio e fim. A rejeição simplesmente acaba. Eu sabia que seria algo muito psicológico, com personagens solitários remoendo o que aconteceu. Para criar uma sensação de progressão e resolução, usei um jogo formal em que os pontos de vista e os formatos mudam ao longo do livro.

Acompanhando a assimilação do discurso incel na sociedade, sinto que a rejeição se tornou uma arma política. Você também sente isso?
Quando você está vulnerável, é fácil ser manipulado e explorado, seja por ser um pária social, seja por ser pobre ou abusado. O arquétipo do incel é usado como forma de terapia social por ambos os lados: a cultura dominante adora criar bodes expiatórios para se sentir superior, e as pessoas vulneráveis aceitam esses rótulos porque querem saber como se situam no mundo, mesmo que isso signifique aceitar que são “inferiores” ou “sem esperança”. A ficção é muito boa para reduzir pessoas a estereótipos e para desconstruí-los.

No ensaio da Paris Review, você cita Elliot Rodger e outros atiradores em massa supostamente motivados por rejeição amorosa. Muita gente já foi tão rejeitada quanto esses caras, mas não recorreu à violência. Como quebrar esse ciclo da rejeição associada a casos extremos? 
Acredito que a vingança é apenas parte do motivo. Esses atos de violência são também uma performance para uma comunidade imaginada ou real. Lembra daquele cara que atirou na mesquita em Christchurch, na Nova Zelândia? Durante o atentado, ele chegou a dizer aos espectadores: “Inscrevam-se no PewDiePie”. [A frase faz referência a um youtuber que se tornou popular entre simpatizantes da extrema direita.] Ele estava conscientemente se apresentando para um público que ele imaginava como seus pares. 

Todos nós vivemos hoje na cabeça desses homens ricos, né? É só olhar os arquivos do Jeffrey Epstein

Uma solução parcial seria remover os incentivos sociais. Além disso, o isolamento on-line torna as pessoas menos habilidosas nas interações sociais. Estar em contextos sociais variados torna as pessoas responsáveis umas pelas outras, o que diminui a probabilidade de comportamentos radicais. Eu não sou sociólogo, mas talvez as pessoas apenas devessem sair mais de casa (risos), ser obrigadas a pisar numa grama.

Em 2019, quando publicou “O feminista”, você postou um aviso no X (na época Twitter) dizendo que o personagem não é bom, mas o feminismo é — apesar de estar bem claro na história. Por que sentiu que esse disclaimer era importante?
Porque eu fui covarde (risos). Fiz algo que escritores não deveriam fazer, que é tentar influenciar a recepção antes mesmo de as pessoas lerem. Hoje vemos esse desejo de controle na literatura, através de avisos de gatilho e outros rótulos, para exercer controle sobre o efeito que a história terá no leitor. Não estou interessado em escrever assim — prefiro que a literatura deixe o sentimento de inquietação ou ambivalência.

No conto “Fotinhas”, há uma descrição visceral da situação de derrota da personagem, que “não se dá mais ao trabalho de afastar a cordinha do absorvente interno quando faz xixi, então só passa o dia todo andando por aí com uma cordinha úmida”. De onde veio essa imagem?
É algo que uma amiga minha, Alice, comentou um dia. Então perguntei: “Posso usar isso?”. Esse é o tipo de coisa que estou sempre procurando, porque não é algo que eu possa experimentar diretamente. Valorizo muito quando encontro esse tipo de relato do nada. Para mim, é quase uma forma necessária de pesquisa para escrever sobre diferentes tipos de pessoa. 

Gosto de pensar que consigo construir bem meus personagens, mas estou sempre inseguro dos meus palpites. Se sou um homem escrevendo uma personagem feminina, tudo o que posso fazer é dar um palpite fundamentado e depois pedir a opinião de outras pessoas para ver se estou no caminho certo. Muita gente torce o nariz para esse processo porque parece “escrita em grupo”. Mas não é — é simplesmente outra forma de pesquisa.

Ao ler o conto “Nosso futuro irado”, senti como se estivesse assistindo ao meu cérebro apodrecendo após consumir quantidades indecentes de conteúdo horrível no celular. O brain rot pode ser usado como artifício na ficção?
Com certeza. Não atribuo peso negativo à linguagem que surgiu na internet. Acho que, na maior parte, é uma brincadeira. As pessoas entendem que qualquer gíria pode ser deturpada ou esvaziada de sentido pelo uso excessivo. O que tentei abordar é que isso representa uma degradação maior do pensamento — a maneira como o personagem [um tech bro ou farialimer, numa versão brasileira] abusa da linguagem. Da mesma maneira que todos nós meio que vivemos na cabeça desses homens muito ricos hoje em dia, né? É só olhar os arquivos do Jeffrey Epstein. Estamos aprendendo que, por exemplo, existirem microtransações em videogames tem a ver com Epstein. 

Odeio o fato de existirem esses caras, vazios e míopes, que se consideram superiores, cuja mente acaba moldando a realidade em que vivemos. Me diverti bastante tentando fazer a linguagem mais irritante possível sair da boca desse cara. Acho que há poucas coisas mais irritantes do que alguém excessivamente confiante sobre o quanto está se conectando com você — ou o quanto você está impressionado com ele. 

Bem no final do ensaio, você cita O livro do desassossego, de Fernando Pessoa, em que o semi-heterônimo Bernardo Soares encontra uma forma de “estetizar” a rejeição. É bonito ver a rejeição como uma maneira de apreciar o que já temos…
Pois é, usei isso para tentar responder ao último conto. Bernardo Soares é um exemplo de alguém com perspectivas muito limitadas. Ele sabe que a vida dele não está indo a lugar nenhum. Sabe que não vai encontrar o amor verdadeiro. E, ainda assim, ele não se ressente por isso. Na verdade, a própria integridade e a beleza do livro são uma prova de que uma vida assim pode ter valor. De modo análogo, essa era a piada por trás de escrever uma carta de rejeição sobre um livro que obviamente foi publicado. É algo meio autodepreciativo, mas sabemos que isso não aconteceu de fato porque o livro existe — afinal, você está lendo. Acho que foi uma ótima maneira de encerrar e amarrar o tema.

Você tem uma persona on-line engraçada e relaxada. Acha que as pessoas se levam muito a sério nas redes sociais?
O problema é que a internet se tornou um compactador de lixo para nossa vida pessoal, profissional e social. As pessoas planejam estrategicamente o conteúdo para conseguir empregos ou encontros. Sou de uma geração que fazia isso apenas por achar legal. Confio nas minhas intuições e posto o que sinto vontade. Metade é medíocre e ganha poucos likes — e está tudo bem.

Quem escreveu esse texto

Marie Declercq

Jornalista com passagem pelo UOL e Vice, escreve quinzenalmente na newsletter Não Prometo Nada.