Literatura estrangeira,

Criar um novo mundo

Coleção de ensaios de Toni Morrison mostra que sua capacidade de tornar-se global e atemporal transcende sua ficção

01jun2020 - 01h00 | Edição #34 jun.2020

“Nem eu nem vocês jamais vivemos em um mundo onde a raça não tivesse importância”, afirma Toni Morrison em um dos ensaios que fazem parte do livro A fonte da autoestima, volume publicado nos Estados Unidos poucos meses antes de sua morte, em 2019, e que chega ao Brasil agora pela Companhia das Letras.

A escritora norte-americana, primeira e única mulher negra a ganhar o prêmio Nobel de literatura (1993), passou a vida justificando e reafirmando a necessidade de uma linguagem e de uma literatura a partir de seu ponto de vista: o da mulher negra norte-americana.

Os discursos e artigos, realizados ou publicados entre 1976 e 2011, poderiam correr o risco de ficar datados se não fosse de autoria de Morrison. Sua capacidade de tornar-se global e atemporal transcende sua ficção. 

Responsável por editar a autobiografias de Angela Davis e a de Muhammad Ali em pleno período da luta pelos direitos civis nos anos 1970, Morrison sempre soube como seria sua participação no mundo das letras. Na Random House, onde trabalhou por quase vinte anos, tinha uma missão autoimposta: trazer para o mercado editorial mais vozes negras. 

“Comecei a escrever como leitora”, repetiu inúmeras vezes em entrevistas. Seu primeiro livro, O olho mais azul (1970), demorou cinco anos para ser produzido, porque ela tinha o único compromisso de escrever a obra que nunca encontrou nas livrarias de seu país. Ela estava compondo a narrativa que faltava. Esse livro conta a história de uma jovem comum do centro-leste norte-americano que vivia sob o ataque racista cotidiano. Morrison desenvolveu o romance a partir de uma memória de infância: com dez ou onze anos, sua melhor amiga na escola confessou a razão de sua descrença na existência de Deus. “Faz mais de dois anos que rezo todas as noites para Ele me dar olhos azuis e Ele não me atendeu.”

Seu primeiro romance não fez sucesso, mas não importava. Ela lançou mais dois títulos, entre eles A canção de Solomon (1975), que ganhou seu primeiro prêmio literário. Foi a partir daí que passou a se ver como escritora.

“Não posso dizer como me senti quando meu pai morreu. Mas pude escrever A canção de Solomon e imaginar, não ele, não sua vida interior específica, mas o mundo que ele habitou e a vida privada ou interior das pessoas neste mundo. E não posso dizer como me senti lendo para minha avó enquanto ela se revirava na cama (porque estava morrendo e não se sentia confortável), mas pude tentar reconstruir o mundo no qual ela viveu”, escreve Morrison em um dos artigos de A fonte da autoestima.

Ganhadora do Nobel de Literatura, Toni Morrison toca na questão da identidade negra que se dá por meio da cor

Esse “novo mundo” que ela descrevia e que não dependia do que a autora chamava de “white gaze” (olhar branco) é seu maior triunfo: esse olhar possibilitou um universo literário que não existia antes dela. Pelo menos não na literatura afro-americana. E tudo na literatura de Morrison, desde o início, é pensado e planejado para alcançar esse objetivo.

O lançamento de Amada (1987) lhe trouxe a popularidade devida e um dos maiores prêmios de seu país, o Pulitzer de ficção. Chloe Ardelia Wofford (seu nome de registro) já tinha deixado a editora em 1983 e dedicava-se integralmente a seus livros.

Amada é a narrativa criada por Morrison a partir de uma notícia que leu em jornais do século 19 quando organizava o volume The Black Book (1974): Margareth Garner, uma mulher escravizada, preferiu matar sua filha a vê-la cair na escravidão, a viver sem liberdade. No volume de ensaios, o único texto “inédito” (de seu arquivo pessoal) mostra como a escritora refletia sobre cada palavra, construção, motivação.

Amada teve origem como uma questão geral e foi encetado por um recorte de jornal. A questão geral (lembrem-se, isso remonta ao começo dos anos 1980) indagava de que maneira — que não direitos iguais, representatividade, salários etc. — o movimento das mulheres definia a tão buscada liberdade”, escreve ela, para depois destacar o debate em torno do controle do próprio corpo e do poder de escolher ser mãe.

Sem desperdício

Apesar de as questões do racismo, de gênero e de contar a história por um olhar diferente serem a base do seu pensamento, A fonte da autoestima reúne reflexões sobre outros assuntos. Há discursos e ensaios sobre a literatura de sua autoria e de autores como James Baldwin, William Faulkner, Gertrude Stein e Chinua Achebe. Ela também fala de feminismo e sororidade, do fascismo e seus horrores, de censura, de migrações e fronteiras, do papel do escritor e da imprensa, da arte e da memória. 

Em 2019, quando o volume foi publicado no Reino Unido, a crítica foi contundente em dizer que suas páginas “não foram escritas para ser devoradas, mas degustadas”. Elas trazem a preciosidade, o cuidado e a profundidade com que estamos acostumados quando lemos uma obra de Morrison. Nenhuma palavra ou frase sobra. Não há desperdício.

Em 2010, a escritora foi agraciada com a medalha da Légion d’Honneur do governo francês, a mais alta condecoração da França. Em 2012, recebeu a Presidential Medal of Freedom das mãos de Barack Obama, em nome do governo dos Estados Unidos. Foi o mais perto que chegou dos debates contemporâneos em torno da política, no exercício da liberdade de ser e escrever o que pensa. 

Ao longo da carreira, sua voz nunca se desviou de sua missão, sem perder o humor por vezes sarcástico. Em um jantar após receber o prêmio Nobel, a apresentadora Oprah Winfrey perguntou se ela tinha sido sempre tão “confiante”, e ela respondeu que não era confiante, mas “galante”.

Todos esses ensaios e discursos concentram um agradecimento a Martin Luther King Jr.: “Ele tornou comum, habitual e irresistível o gesto de assumir responsabilidade pessoal pela redução dos males sociais. Meu tributo a ele é a gratidão profunda que sinto pela dádiva que sua vida verdadeiramente foi”. Devemos nos sentir assim também em relação a Morrison.

Quem escreveu esse texto

Izabela Moi

É diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

Matéria publicada na edição impressa #34 jun.2020 em maio de 2020.