A obra-prima de uma quarentena

Literatura estrangeira,

A obra-prima de uma quarentena

Escrita em 1794, nos desdobramentos da Revolução Francesa, pequena joia de Xavier de Maistre tem nova e oportuna tradução

01out2020 - 01h00 • 23jul2023 - 22h03 | Edição #38 out.2020

Ao envolver-se numa confusão que resultou em duelo, um tenente da região da Saboia é condenado a 42 dias de confinamento no seu quarto em Turim, durante o período do Carnaval. Nesse breve intervalo, escreve em francês um livrinho de 42 capítulos que, nas suas palavras jocosamente imodestas, introduziria no mundo uma nova maneira de viajar.

A viagem se dá num retângulo com perímetro de 36 passos (algo como 30 metros, compondo uma área de 50 metros quadrados), mobiliado com seis cadeiras, duas mesas, uma escrivaninha e um espelho, alguns quadros na parede e uma biblioteca.
No quarto, além do viajante, há a ocasional presença do criado Joannetti, espécie de consciência externa do protagonista, e de Rosine, fiel cadela que trava diálogo silencioso com o senhor.

Com esses poucos elementos, Xavier de Maistre se lança à prometida nova maneira de viajar, que consiste em extrair o máximo de sentido do mínimo, do banal e do escondido. O resultado dessa narrativa semiautobiográfica é o comentário paródico das grandes ideias que chacoalhavam o mundo.

O que havia do lado de fora do quarto era uma Europa convulsionada pela Revolução Francesa e pela emergência das ideias que redefiniriam a sensibilidade e o pensamento do Ocidente. Na Alemanha, os irmãos Schlegel publicavam seus primeiros escritos, Goethe e Schiller travavam amizade profícua, assim como Wordsworth e Coleridge na Inglaterra. Na França, Chateaubriand preparava sua estreia literária.

Enquanto muitos de seus contemporâneos iam a campo para relatar percursos a céu aberto em paisagens grandiosas e paragens exóticas, De Maistre fez da introversão sua matéria. Em vez das excursões a Roma, Paris, Jerusalém ou lugares remotos, viajou com a imaginação, que tem a vantagem de não custar nada, poupar o viajante das intempéries do clima e das estações e protegê-lo das chateações.

Assim, o leitor acompanha num capítulo as divagações do narrador sobre a poltrona, o móvel por excelência da meditação. Noutro, a exaltação da cama como a peça do mobiliário que nos acompanha por toda a vida (“A cama é um berço enfeitado de flores;  é o trono do amor; é um sepulcro”). Há um capítulo dirigido aos metafísicos, no qual expõe sua teoria de que o homem é duplo, composto de uma alma e de um animal. Esse animal, também chamado de o outro, responderia pelos gostos, inclinações, vontades e instintos, ao passo que a alma comandaria as faculdades mais elevadas.

O viajante põe-se a examinar os quadros que o circundam. Destacará o espelho. Se reflete igual e imparcialmente qualidades e imperfeições, o espelho é menos eficaz na revelação dos traços morais: “No momento em que os raios estão para penetrar nossos olhos e nos pintar assim como somos, o amor-próprio desliza seu prisma enganador entre nós e nossa imagem, e nos apresenta uma divindade”.

O apreço de Machado pelo livro é compartilhado por leitores ilustres como Sainte–Beuve, Proust e Borges

Como se nota, o quarto imortalizado por De Maistre está assombrado pelos desvãos entre os impulsos e a reflexão e por fenômenos psíquicos que nas décadas seguintes seriam dissecados pela filosofia de Schopenhauer, pelos estudos sobre o inconsciente de Hartmann e pela psicanálise de Freud.

Também na sua composição o livro é ousadamente sui generis. Há um capítulo todo composto de reticências e apenas duas palavras (“a colina”), e outro que trata de uma rosa seca. A dedicatória só aparece na metade do volume, no capítulo em que as frequentes provocações ao leitor põem em risco a própria integridade do livro: “Espero que o leitor sensível me perdoe por lhe ter solicitado algumas lágrimas; e se alguém pensar que, em verdade, eu teria podido cortar esse capítulo, pois então arranque-o logo de seu exemplar ou mesmo jogue o livro no fogo”.

A prosa fragmentária e ziguezagueante, marcada pela interlocução constante com o leitor, intensamente paródica, especulativa e autorreflexiva, lembra a de outro grande viajante que mal saiu do seu Rio de Janeiro natal. Com efeito, esse é um dos livros que servem de inspiração a Machado de Assis na composição do Brás Cubas, conforme se lê em prólogo célebre: “Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo”.

Sobre Machado e De Maistre, Antonio Candido escreveu um ensaio certeiro, “À roda do quarto e da vida”. No entanto, as afinidades não se restringem ao romance e são notáveis em contos como “O espelho” e “Uma visita de Alcibíades”. O apreço pelo livro era tal que Machado o definiu como “obra-prima”, entusiasmo compartilhado por outros leitores ilustres, como Sainte-Beuve, Proust e Borges.

Ideias sombrias

Em meio à jocosidade e leveza, ideias sombrias e quadros dilacerantes também entram pela janela do quarto. Num sonho, o narrador imagina “um urso branco, um filósofo, um tigre ou qualquer outro animal dessa espécie” irrompendo numa festa e conclamando os homens que cantam e dançam: “A partir de agora, não pensem mais em divertimentos, tampouco em festas; subam aos camarotes, degolem todos; e que também as mulheres mergulhem suas mãos tímidas no sangue! Saiam, vocês são livres; arranquem seu rei do trono e seu Deus do santuário!”. Também nas palavras do narrador, a verdade, “caindo entre nós como uma bomba, destruiu para sempre o palácio encantado da ilusão”.

Além de captar de forma impressionante as grandes questões do seu tempo, Viagem ao redor do meu quarto é também um grande elogio aos livros, que permitem ao confinado percorrer desde “as profundezas dos infernos à última estrela fixa para lá da Via Láctea, aos confins do universo, às portas do caos”. Para isso basta seguir as trilhas de Homero, Milton, Virgílio, Ossian, disponíveis em sua biblioteca. A leitura e a escrita tornam-se meios para a vingança perfeita do escritor: “Proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo inteiro: a imensidão e a eternidade estão às minhas ordens”.

Assim foi com Viagem ao redor do meu quarto. Escrito em 1794 e publicado no ano seguinte, fez um enorme e inesperado sucesso, tornou-se um clássico do romance moderno e garantiu a imortalidade de seu autor. Lançado no Brasil em edições esgotadas, a tradução de Veresa Moraes chega neste momento de confinamentos. E faz torcer para que em algum quarto do mundo um novo De Maistre prepare em silêncio outro livrinho tão cheio de encanto e perspicácia como esse. 

Quem escreveu esse texto

Hélio de Seixas Guimarães

É professor livre-docente na Universidade de São Paulo e pesquisador do CNPq.

 

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.