Literatura em língua francesa,

Amigas geniais

Publicado trinta anos após sua morte, romance inédito de Simone de Beauvoir é uma ode a amizade de infância da autora

01mar2021 - 00h00 | Edição #43

A história de duas amigas de infância que se conhecem na escola é narrada sob a perspectiva de uma delas, quando a outra já não está presente para contar a sua versão. É essa ausência, aliás, que motiva a narrativa de As inseparáveis, de Simone de Beauvoir, que permaneceu inédito até 2020, quando foi publicado na França por Sylvie Le Bon de Beauvoir, e chega agora ao Brasil. Le Bon, que teve uma relação afetiva com a escritora, foi adotada por ela para que pudesse ser sua herdeira e também escolhida como depositária de sua herança literária.

Talvez a premissa do livro soe familiar, principalmente para quem leu os quatro volumes de A amiga genial, a tetralogia napolitana de Elena Ferrante. Essa coincidência — e são tantas na história da literatura — pode ser uma boa amostra de que o enredo resumido não basta para identificar ou singularizar uma obra literária. A literatura não é apenas uma questão de o que se conta, mas também de como se conta.

Nesse caso, em ambos os aspectos, as semelhanças podem impressionar. Como nos romances de Ferrante, publicados na Itália entre 2011 e 2014, As inseparáveis também é narrada em primeira pessoa e soa como uma espécie de elegia. “Para abolir o nada e o esquecimento, só um recurso: o sortilégio da literatura”, escreve Le Bon no rico texto de abertura, que poderia funcionar melhor como posfácio. A narradora de Beauvoir escreve sobre a vida da amiga, personificando, na ficção, algo de sua própria biografia: o livro é dedicado a Elizabeth Lacoin, chamada de Zazá, amiga de infância da autora, que morreu antes de completar 22 anos e em quem se inspirou para criar Andrée, personagem que ocupa posição central na obra.

“Se esta noite tenho lágrimas nos olhos, será porque você está morta ou porque estou viva? Eu deveria lhe dedicar esta história: mas sei que você já não está em lugar nenhum, e é por artifício literário que lhe falo aqui. Aliás, isto não é realmente a sua história, mas apenas uma história inspirada em nós. Você não era Andrée, eu não sou esta Sylvie que fala em meu nome.” Assim Beauvoir dedica o livro à amiga. O trecho pode despertar mais uma camada interessante de confusão: além da relação de afirmação e de negação estabelecida entre Zazá e Andrée, também há uma relação entre a narradora e a autora do prefácio — ambas chamadas Sylvie —, esta responsável pela publicação da obra mais de trinta anos depois da morte de Beauvoir. O título, aliás, foi dado por ela.

É possível que Ferrante tenha se inspirado em Beauvoir para criar suas personagens

“Quatro vezes, em diferentes transposições — em romances inéditos da juventude, na coletânea Quando o espiritual domina, num trecho suprimido de Os mandarins, romance que lhe valeu o prêmio Goncourt em 1954 —, a escritora tentou em vão ressuscitar Zazá”, diz Le Bon na abertura. Nesse mesmo ano, Beauvoir teria repetido a tentativa nesse texto, que ficou sem título. “Esta derradeira transposição ficcional a deixa insatisfeita, mas, por um atalho essencial, leva-a à conversão literária decisiva. Em 1958, ela integra ao texto autobiográfico a história da vida e da morte de Zazá. São as Memórias de uma moça bem-comportada”, conta a herdeira, reafirmando a importância da amiga para a vida e para a obra de Beauvoir. 

As inseparáveis teria sido escrito muitos anos antes da tetralogia napolitana, mas, pela ordem invertida de publicação, e diante do fenômeno de recepção de Ferrante, podemos nos sentir convocados a fazer uma leitura comparada. A amiga genial ficou conhecido como o primeiro romance a explorar com fôlego e complexidade a ambivalência que pode existir em uma relação de amizade entre duas mulheres. Agora, temos acesso a uma outra obra que já sondava literariamente o mesmo tema. Em Beauvoir, o que motiva a narrativa é a morte da amiga, enquanto, em Ferrante, a ausência que desencadeia a escrita se dá pelo desaparecimento. 

Aproximações e diferenças

Seria apenas uma coincidência ou Ferrante estaria fazendo uma referência a Beauvoir? Quem leu o romance Dias de abandono sabe que não seria a primeira vez. É possível que ela tenha se inspirado, parcialmente, na história de Beauvoir, narrada em outras ocasiões, para criar as personagens de Lenu e Lila, na tetralogia napolitana, bem como em outras obras. Mas, se vamos jogar luz nas possíveis aproximações, também é importante ressaltar diferenças. A principal delas é a extensão: As inseparáveis é um romance curto — ou uma novela longa, como classifica Le Bon —, com pouco mais de cem páginas, ao passo que a tetralogia de Ferrante tem cerca de 1.700. Enquanto Beauvoir se concentra na história da infância, adolescência e juventude das amigas, Ferrante percorre seis décadas e acrescenta muitas outras personagens e tensões. Beauvoir sonda, ao fundo, questões socioculturais e políticas da França de seu tempo a partir de personagens que pertencem a uma classe média alta de Paris, enquanto Ferrante faz o mesmo com a Itália, mas a partir de personagens pobres, que nascem e crescem em um bairro operário de Nápoles. 

Paralelos e curiosidades à parte, o livro de Beauvoir merece uma análise por seus próprios méritos. Espanta que As inseparáveis tenha demorado tantos anos para ser publicado porque a autora não havia ficado contente com o resultado, mantendo uma opinião crítica sobre os escritos, como nos conta Le Bon no prefácio. De todo modo, a ambiguidade se desdobra: ainda assim, teria decidido manter o original, o que poderia sugerir o desejo de publicação póstuma — por se tratar de um livro muito íntimo, talvez o mais íntimo que escreveu, para publicar em vida. Há quem aposte nessa hipótese.

As especulações são tentadoras, mas o que temos são os fatos e, melhor ainda, o texto. Simone de Beauvoir entrou para a história sobretudo pelo seu trabalho como filósofa — O segundo sexo é um marco do pensamento feminista. Também ficou conhecida pela relação com o filósofo Jean-Paul Sartre, com quem viveu uma longa história, que rendeu algumas biografias e muitos rumores. Seu trabalho como escritora literária, ainda que premiado em vida, permaneceu à sombra, embora seja também uma talentosa ficcionista. 
Que presente é ter acesso a um texto seu depois de tantos anos, em especial um tão denso e bem escrito, com trechos lindos, que recupera a importância de Zazá para a formação de Beauvoir, e talvez reforce a importância de Beauvoir para Ferrante. Bonito ver esse elo entre amigas geniais.

Este texto foi feito com o apoio da Embaixada da França.

Quem escreveu esse texto

Fabiane Secches

É psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.