Literatura em língua francesa,

A solidão da escrita

A inclassificável coletânea de Marguerite Duras mostra o valor imensurável do ato de escrever na vida da autora

01out2021 - 08h18 | Edição #50

Qualquer definição categórica de gênero soaria artificial para classificar os cinco textos que compõem Escrever, o primeiro lançamento da coleção da editora Relicário dedicada à obra de Marguerite Duras. A autora parece investida sobretudo do registro dos absurdos da existência que convocam uma escrita “selvagem”. Recorrendo à narradora de A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, a coletânea oferece diferentes formas para “contornar o caos”, animadas pela voracidade presente no modo de Duras sentir a vida.

O eixo comum seria um olhar dialético. Assim, o amor é apresentado como a síntese do encanto e da violência, a solidão é “ou a morte ou o livro”, e o corpo é atravessado por “emoções que são difíceis de dizer, tão estranhas e que, no entanto, de súbito se apoderam de nós”. A toada dos textos de Escrever é ritmada pela descontinuidade e encadeada por uma fluência misteriosa, como se um enigmático ímã ligasse os fragmentos. A sensação é de ser tragado por uma onda, ao mesmo tempo sutil e agressiva.

Escrever é aberto com o ensaio homônimo, uma expressão do valor imensurável da escrita na vida da autora, espécie de arrimo para manter-se viva. Outros textos da coletânea sinalizam o trânsito de Duras por diferentes linguagens, sobretudo a cinematográfica no caráter visual de “A exposição de pintura” e na oralidade de “Roma”, cuja conformação em diálogo remete às estruturas de Olhos azuis, cabelos negros e Emily L., que também vão compor a coleção da Relicário, que terá um total de dez títulos. Sendo uma obra vasta e pouco disponível em português, o lançamento da coleção é muito oportuno.

Tateando o vazio    

“Se eu não tivesse escrito, teria me tornado uma alcoólatra incurável”, afirma Marguerite Duras no ensaio “Escrever”. A entrega profunda envolvida no ofício ganha os ares de um estado de embriaguez por provocar uma imersão e um alheamento do redor e da medida comum do tempo, fazendo do medo e do desespero matrizes criadoras.

A recorrência da conjunção “e” e a escansão das breves frases com ponto-final levam a crer que as formas para contornar o caos não funcionam pelo sentido de oposição. Angústia e escrita coexistem, e o preço a ser pago é altíssimo: “Há uma loucura da escrita que existe em si mesma, uma furiosa loucura da escrita, mas não é por isso que ficamos loucos. Ao contrário”. Um paradoxo que faz do escrever aproximação da loucura enquanto é uma barragem que evita embarcar em uma viagem sem volta no trem do desatino.

Outro recurso de linguagem frequente é o uso de demonstrativos: “Acredito nisto: acredito que a pessoa entregue a si mesma já esteja tocada pela loucura”; “É só isso, triste. Nem com o tempo nos habituamos a isso”; “Sim. É isso, a morte daquela mosca se tornou esse deslocamento da literatura”. A todo tempo Duras cria correspondências, faz o “isso” comprimir o absurdo da vida para depois estendê-lo em imagens ou sentenças de uma simplicidade tão cristalina quanto complexa.

Uma das maneiras de expressar a solidão se dá pelos contornos de uma casa, aproximando da escrita uma noção de habitar. A apresentação do espaço é bastante tocante: a casa foi comprada com o dinheiro da venda dos direitos para o cinema do romance Uma barragem contra o Pacífico, de 1950 (o filme saiu em 1957 com o título Terra cruel) — um lar adquirido pela escrita e que gera escrita.

O ambiente é delineado como um elemento transformador. Por um lado, a casa servia como consolo “por todas as dores da infância”, em parte conhecidas pelos leitores de Duras em O amante ou O amante da China do Norte, entre outros livros que tematizam as tragédias familiares da escritora e a vida na Indochina. Por outro, a compra “antecedeu a loucura da escrita. Essa espécie de vulcão”, indicando que poder ter esse lugar alterou o desenrolar do ofício.

‘Se eu não tivesse escrito, teria me tornado uma alcoólatra incurável’, afirma Duras em ‘Escrever’

A solidão nesse ambiente é contada através de uma agência também paradoxal. Duras afirma que produz a solidão, em outros momentos a solidão é que “se faz”. A alternância de comando leva a pensar sobre uma alteridade subjetiva e constituinte, sugerida pela oscilação dos pronomes e dos sujeitos que conjugam os verbos — por vezes “eu”, em outras “o escritor”, ou ainda “nós”.

Esse estado solitário ultrapassa a quietude ou o isolamento físico. Os pontos de partida da escrita são o vazio e a dúvida, a sustentação é na urgência do desejo e não na firmeza de um sentido. Para a vida pulsar num livro, é preciso começá-lo sem saber para onde ir, descobrir no decorrer do processo, suportar o desconhecido e percorrer uma trilha sem nenhum tipo de mapa, mas sim com a condução de uma força imperiosa que esgarça os limites da vigília.

Sozinha com Elizabeth Bishop, por Gabrielle Bellot

Sentir a vida

No ensaio “As pequenas virtudes”, Natalia Ginzburg diz que “uma vocação é a mais alta expressão de amor à vida”, o que parece ir ao encontro do estatuto da escrita para Duras, sendo que a concepção de amor seria como uma fusão contraditória de destruição e criação, desprovida de qualquer brandura. Junto ao custo tão alto da entrega e do flerte com a loucura, há um ganho enorme. Quando a solidão é colocada como “ou a morte ou o livro”, a escrita é expressa pela potência de proliferar vida, um recurso para tecer um laço que se prenda ao curso dos dias.

É por causa desse ganho que “Escrever” envereda para o senso de justiça. Gera revolta olhar para fora e notar que a noção mais comum de trabalho passa pela exploração e pelo caráter mecânico. Em “A morte do jovem aviador inglês” e “O número puro”, o absurdo é codificado em um sentido análogo. Duras sente intensamente uma incredulidade pela redução de vidas a massas indistintas. Resta “uma vontade de gritar” que soa como um esforço de reverter pela escrita o apagamento do que tão costumeiramente é tratado como efeito colateral do funcionamento das engrenagens.

Duras começou a publicar na década de 40 e escreveu até o fim da vida — Escrever, aliás, é de 1993. Como a força arrebatadora é característica da escritora, vale destacar a inclusão do prefácio assinado por Julie Beaulieu, professora da Universidade Laval, nesse primeiro título da coleção a ser publicada pela Relicário. Assim é oferecida uma contextualização antes do mergulho profundo exigido por textos tão impactantes. 

Este texto foi feito com o apoio da Embaixada da França no Brasil.

Quem escreveu esse texto

Iara Machado Pinheiro

É crítica literária, doutoranda em letras pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #50 em agosto de 2021.