Literatura brasileira,
Tempo de assombrações
Milton Hatoum encerra trilogia O lugar mais sombrio com a história de uma mãe e seu filho em um país ditatorial
15out2025 • Atualizado em: 14out2025 | Edição #99Milton Hatoum lançou Relato de um certo Oriente em 1989. Celebrado pela crítica e pelo público, o romance de estreia do escritor amazonense ganharia o Jabuti no ano seguinte. Dois irmãos, seu segundo romance, só viria a público onze anos mais tarde, em 2000, com repercussão ainda maior que a do livro anterior. Seria Hatoum um romancista de grandes intervalos? Bem, o elogiado Cinzas do Norte saiu em 2005, dessa vez o tempo de espera não foi tão longo. Mas o primeiro romance da trilogia O lugar mais sombrio, A noite da espera, só chegaria doze anos depois. Hatoum se mostrava aqui e ali um romancista de tempo largo.
Entre A noite da espera e Pontos de fuga, passaram-se apenas dois anos. Desde 2019, portanto, era aguardado o volume que encerraria a trilogia da história de Martim e sua mãe.
Pois valeu a espera. Em Dança de enganos, o escritor alcança o ponto máximo de sua ficção, e estamos falando de alguém cuja obra — que também inclui um livro de contos (A cidade ilhada, de 2006), um de crônicas (Um solitário à espreita, de 2013) e uma novela (Órfãos do Eldorado, de 2008) — vem sendo lida e reconhecida desde sua estreia.
Martim é o narrador dos dois primeiros volumes da trilogia. Seus pais se separam no fim de 1967: a mãe vai viver com um pintor e o pai deixa São Paulo para se instalar com o filho em Brasília. Com a mãe, Lina, Martim sempre havia tido uma relação muito estreita, cúmplice e amorosa, enquanto com Rodolfo, o pai, violento e religioso, o trato era distante e difícil. Por isso, no momento em que a mãe desiste de levar o filho consigo e o deixa aos cuidados daquele pai com quem Martim não tinha intimidade alguma, o mundo do adolescente começa a desmoronar, sobretudo quando o afastamento da mãe, que seria breve, mostra-se definitivo.
Em A noite da espera o leitor é apresentado a Martim e seu desamparo. Se antes mãe e filho se correspondiam e chegaram a marcar um encontro, ao qual Lina não compareceu, à medida que o tempo transcorre, as cartas rareiam até que cessam. Estamos no Brasil dos piores anos da ditadura militar, em que os desaparecimentos, longe de ser voluntários, eram obra da repressão estatal.
Valeu a espera. Em ‘Dança de enganos’, o escritor alcança o ponto máximo de sua ficção
A ausência da mãe fantasmática marca a passagem de Martim da adolescência para a vida adulta, com a entrada na universidade, o afastamento inescapável do pai severo e violento, a descoberta do amor, as novas amizades, o enfrentamento da atmosfera política brasileira do início da década de 70.
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O primeiro volume de O lugar mais sombrio se passa em Brasília, o segundo se desenrola quase inteiramente em São Paulo. Paris, de onde fala o narrador desde o início da trilogia, já em 1977, enquanto relembra a juventude, é também cenário de algumas passagens que ajudam na construção do suspense narrativo.
Os dois primeiros livros são narrados por Martim, com acréscimos de diários e cartas de seus amigos no segundo. Esse recurso contribui para pontuar o estado de ânimo do protagonista e ampliar a sensação, sugerida no primeiro volume, de que aquele é também um romance polifônico sobre a geração de Martim, profundamente marcada pela repressão ditatorial.
Tudo muda no terceiro livro. Aqui, a narradora é Lina, em vão procurada e perscrutada nos romances anteriores, que traziam o ponto de vista de Martim, que ignorava as motivações da mãe e se equilibrava entre a dúvida do filho “abandonado” (quanto ao amor materno, quanto à versão de que dispõe) e as certezas (e aventuras) próprias à idade. Assim, nos dois primeiros livros, a vida na escola, na universidade, o teatro, o trabalho, alguma militância política, amores e amigos, tudo isso é também parte da narrativa. Os silêncios e as ausências, bem como a violência paterna e do Estado, costuram os enredos.
Terreno movediço
Em Dança de enganos, Lina conta a sua história. Dividido em duas partes, o romance começa de onde terminara a correspondência entre ela e o filho, dezembro de 1972, recua para a juventude de Lina e depois avança até o início dos anos 80. Para Lina, fora Martim que, ao parar de dar notícias, sumira. Ela também ignorava o que acontecia. O terreno movediço da história persiste neste terceiro volume, mas com diferenças.
A história familiar de Lina ganha maior espaço. A vida em Santos, o trato difícil com a mãe, Ondina, e amoroso com o pai, Mariano, a relação com o irmão, Dácio, e com Jonas, o primeiro amor, brutalmente interrompido. O casamento sem amor com Rodolfo, o reencontro com Leonardo (que só aqui é passível de nomeação; nos dois primeiros volumes, era apenas “o pintor”, “o artista”) e a decisão de ir viver com ele. Os dilemas de levar ou não Martim, mas sobretudo o medo de Rodolfo.
Numa história em que muita gente inspira temor, em que o perigo está à espreita o tempo todo, o pai de Martim é o personagem que interdita (o encontro de mãe e filho) e atemoriza, funcionando a um só tempo como o ex-marido ciumento e violento e, simbolicamente, até por suas relações com os militares, como um Estado que tudo pode. É pai e pátria, emblema de interdição e repressão. Nesse sentido, Rodolfo é o grande fantasma do terceiro volume, o fantasma que pode reaparecer, e Lina vive aterrorizada com essa perspectiva.
A sensação de que a qualquer momento um evento trágico pode acontecer atravessa o romance e confere tormento à história e à narradora. Alguma coisa de terrível há de se passar, só não se sabe quando.
Ao deixar São Paulo, no fim dos anos 60, Lina vai viver com Leonardo em um sítio em Campinas. Ele pinta; ela dá aulas de francês. Aos poucos, o cenário bucólico se torna ameaçador, a casa é vandalizada, e a razão para isso pode ser a pressão imobiliária, Rodolfo ou os militares. Um grande outro ignoto que paira e assombra.
Enquanto as cartas de Martim chegam a Lina, são as perguntas do filho que pontuam o avançar da história, porque é a elas que Lina responde. Episódios narrados nos primeiros volumes são recontados através dessa correspondência. A certa altura, porém, a comunicação é interrompida e Lina também cai no escuro.
Se em A noite da espera e Pontos de fuga a narrativa se assenta em terreno pedregoso, em Dança de enganos pode-se dizer que o solo é lodoso. Tudo é mais assustador e instável, e isso se deve ao ponto de vista a partir do qual se narra. Não é mais o jovem estudante, ainda que melancólico ou deprimido, quem conta a história, mas uma mulher madura, que se separa do marido uma década antes da legalização do divórcio no país, precisando abrir mão de viver com o filho e tendo de se esconder e se calar. O enredo ganha contornos mais densos e dramáticos quando se ocupa de Lina.
Lina e Leonardo se mudam para Ouro Preto, onde transcorre boa parte desse terceiro volume. A vida em outro cenário, contudo, não alivia nela a sensação de que tudo é movediço, e acentua-se o mal-estar com a mãe, que vive em Santos; com o irmão, que diz viver em Boston; com o marido, que vive a seu lado. Não causam menos desconforto a incompreensão diante do silêncio do filho e o medo de ser encontrada pelo ex-marido.
Os tempos sombrios, a “galeria dos homens da morte” (nome do painel com sete pinturas de Leonardo), aparecem subterraneamente, num medo que é tão constante quanto difuso. Lina se põe a fazer muitas perguntas sobre o rumo de sua vida, mas, ao contrário do que imaginava Martim, tem poucas respostas. Ela também não sabe se sua fuga é apenas de Rodolfo. Afinal, do que ela foge?
Nada é o que parece ou apenas o que parece em Dança de enganos. Leonardo não é o que aparenta ser. Tampouco o é Dácio, o irmão fotógrafo, ou Irma, sua companheira. Isso vale para Lina e Martim. “Uma parte da nossa vida é engano”, diz Leonardo a Lina.
Fantasmas
A segunda parte do livro se inicia em 1981, quando, a convite de uma pianista alemã que conhece em Ouro Preto e de quem se torna amiga, Lina vai a São Paulo e encontra alguns amigos de Martim, os mesmos que circularam pelas páginas dos dois primeiros romances. Lina consegue, com algum esforço, reconstituir os passos perdidos do filho.
É quando, tentando lidar com seus fantasmas, tão sólidos quanto insepultos, ela começa a se interrogar sobre a própria surdez no momento em que Martim pediu para partir com ela. Nada é o que parece ser.
A crueza do mundo adulto se impõe pelo terror subterrâneo, contra o qual é impossível lutar
Dança de enganos conta a história de uma mãe e seu filho em um país ditatorial. Se nos dois primeiros volumes a presença de jovens deixava entrever algum fio de esperança, certa ilusão utópica, neste a crueza do mundo adulto se impõe pelo terror subterrâneo, insinuado, desconhecido e contra o qual é impossível lutar. E o resultado é um livro assombroso.
Romance de se ler num fôlego só, o livro de Hatoum dá a ver, com discrição, as inúmeras referências literárias, da tragédia grega à poesia mineira modernista e contemporânea. O solo pantanoso em que se move a história de Lina é sedimentado em erudita filiação literária. Coisa de quem precisa de tempo para escrever, mas sobretudo um verdadeiro feito de mestre.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Tempo de assombrações”
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