Guimarães Rosa, que se formou em medicina antes de se tornar diplomata (Arquivo Público Mineiro/Divulgação)

Literatura brasileira,

Poliglota e troglodita

Primeira biografia de João Guimarães Rosa aposta na relação direta entre vida e obra do escritor mineiro

01ago2026 | Edição #108

Quando em 2024 dei uma aula sobre João Guimarães Rosa na Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste, recebi da turma de húngaros dois comentários curiosos. O primeiro foi diante da pergunta central de Grande sertão: veredas, quanto à existência ou inexistência do Diabo. Reticentes, questionaram: mas não é óbvio…?

O segundo dizia respeito à ausência do autor numa antologia dos cem melhores contos brasileiros do século 20 a que tinham acesso na biblioteca: se esse tal sertanejo é tão bom, por que não consta no livro? Tinham razão em perguntar. Por conta de direitos autorais, de obtenção dificultada pelos herdeiros, Rosa periga sempre — ou pelo menos até 2037, ano em que se torna domínio público — ficar fora de coletâneas de literatura brasileira, livros didáticos etc.

É, portanto, louvável que a primeira biografia do escritor, lançada em março deste ano, não tenha sido desautorizada e, mais que isso, que tenha recebido da família contribuições valiosas para sua composição.

O jornalista e biógrafo capixaba Leonêncio Nossa (Divulgação)

O jornalista Leonencio Nossa — cujo nome caberia fácil num dos personagens de Rosa, por regra batizados excentricamente — colheu, de familiares e outras fontes, depoimentos, cartas, matérias de jornal, discursos públicos, fotografias, vídeos e livros para apresentar, num calhamaço de um quilo, a vida de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

O autor aponta indícios de que a ficção de Rosa foi composta, amplamente, a partir de fatos biográficos

Curiosamente, não há na biografia citações longas da obra literária de Rosa. Seriam proveitosas para o biógrafo, que tem como método apontar indícios de que a ficção do mineiro de Cordisburgo foi composta, em grande medida, a partir de fatos biográficos. Nossa recorre, por opção ou por condição imposta (leis de propriedade intelectual), à paráfrase dos enredos, às vezes acrescida de uma e outra frase da prosa do biografado, para construir o argumento.

No geral, o método funciona. Antes de determinar que a poética de Rosa trabalha acontecimentos da vida do autor, conduz a narrativa pela via da correlação entre invenção literária e fatos. São apresentados ora episódios reais, ora cenas ficcionais dos livros, e assim a biografia avança no tempo — aliás, a linha do tempo no início do volume, contando treze páginas, é por si só entretenimento de tirar o fôlego.

Em alguns casos, no entanto, o livro exagera. Como ao afirmar que Rosa foi “um escritor que fez da biografia uma obra literária”. Além de tentar deslindar toda a ficção apenas com a história pessoal, afirmações como essa reduzem a capacidade inventiva do autor a uma espécie de autoficção. E inventividade não falta na obra, repleta de neologismos, incorporação inédita de gramáticas estrangeiras no português, universalização do sertão e todas as inovações que se leem de Sagarana (1946) a Tutameia: terceiras estórias (1967).

Tom de esquisitice

Rosa dominava muitas línguas, e ser poliglota exerceu grande influência em sua literatura. A biografia resgata histórias como a de quando, aos nove anos, o então apelidado Joãozito gostava de ler uma gramática alemã entre um futebol e outro; ou a do primeiro texto do escritor de que se tem registro, sobre o esperanto, da época em que cursou medicina em Belo Horizonte; ou ainda a do prefácio que escreveu, em 1957, para uma antologia de contos húngaros, organizada por seu amigo Paulo Rónai, na qual Rosa destaca estranhezas do idioma húngaro, como “legeslegmegengedhetetlenebbekkel”, palavra única para dizer “com os mais inadmissíveis de todos”.

O vasto conhecimento de línguas também contribuiu para Rosa se tornar diplomata, função que lhe destinou residência em Hamburgo, na Alemanha, bem quando estourava a Segunda Guerra. Lá, ele e sua segunda mulher, Aracy Moebius de Carvalho, ajudaram judeus que fugiam do nazismo. Rosa assinava vistos para deixarem o país rumo ao Brasil; Aracy, se precisasse, os escondia no porta­-malas do carro, conforme registra Nossa, resgatando uma entrevista concedida por ela ao Jornal do Brasil.

Foi a diplomacia que possibilitou a Rosa ter tempo para escrever. O biógrafo reitera que o escritor fazia de tudo para não se envolver em jogos políticos dentro e fora do Itamaraty, dedicando-se à escrita o mais que pudesse. A medicina, em que se formou tendo como veterano o futuro presidente Juscelino Kubitschek — quem o chamava de “Homero de Minas” — e que exerceu no sertão, não vingou. Nem poderia vingar. Parece piada, mas Rosa era um médico que se apavorava ao ver sangue. O pavor talvez viesse do trauma de ter sido, ainda bebê, banhado a sangue de tatu, na crença de que o banho fortalecesse a criança, fraca e amarela ao nascimento.

Escritor cuja qualidade passa pela extravagância da linguagem, Rosa parecia fadado a ser esquisito desde a juventude. Na formatura da faculdade, foi eleito orador e “preparou um texto empolado”, conta Nossa, que cita um trecho e arremata: “Foi um discurso rebuscado, com muitas citações em francês e até um provérbio eslovaco, dando um tom de esquisitice”.

O português de Rosa, importante salientar, além de se valer dos idiomas que o autor dominava em maior ou menor grau, buscava inspiração na fala do povo, sobretudo o sertanejo, e também no português além-mar, de Portugal, contemporâneo a ele ou arcaico. Nossa relata que o escritor ouviu pronta de um vaqueiro a famosa formulação do primeiro parágrafo de Grande sertão: “o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”. O biógrafo levanta também a informação de que Rosa, antes de ser publicado, se encontrou em Lisboa com Aquilino Ribeiro, português que escreveu romances de linguagem difícil e temática que inclui a terra alentejana, o povo campesino e o Diabo. Em entrevista a um jornalista português, Rosa não deu o braço a torcer e negou que Ribeiro o influenciasse.

Misticismo

A extensão da biografia pode assustar os mais preguiçosos. Mas as 736 páginas, mais os dois cadernos de imagens, passam voando. Fácil de ler, o texto de Nossa tem o melhor do estilo jornalístico. E a vida do biografado ajuda um bocado, com inúmeras anedotas espirituosas, como o caso da prova oral para o Itamaraty, em que Rosa, perguntado sobre o que conhecia de literatura francesa, respondeu simplesmente que conhecia tudo. Como assim, tudo? Tudo.

Ajuda também o misticismo de Rosa — por exemplo, a convicção de que morreria em momento de grande celebração, profecia de uma cigana cartomante. Cumpriu-se: morreu de infarto, aos 59 anos, em 19 de novembro de 1957, três dias após tomar posse como imortal da Academia Brasileira de Letras (abl).

Guimarães Rosa em seu apartamento no Arpoador, no Rio de Janeiro (Divulgação/Arquivo Público Mineiro)

O lado metafísico, espiritual e supersticioso, que o escritor fazia questão de alimentar, é equilibrado com o lado social e mundano, do qual ninguém escapa, mesmo que se tranque no escritório, nu, em companhia do Diabo, para escrever, escrever, escrever, como Rosa garantiu que fazia.

A carreira diplomática o levou a morar em Bogotá, lugar que lhe traria tranquilidade para a escrita, ele acreditava. Porém, assim como teve de enfrentar uma guerra na Alemanha, na capital colombiana sua tranquilidade foi perturbada. Em 1948, assassinaram um candidato à presidência e uma série de protestos, conhecida como Bogotazo, irrompeu na cidade. A maneira como Nossa narra os atos de violência e insere seu protagonista no caos proporciona ao menos duas compreensões: a de um evento histórico próximo, mas desconhecido de nós, brasileiros; e a do senso de humor do biografado, mesmo em situações drásticas.

Século 20

Numa narrativa repleta de contextualizações, acompanhar a vida do escritor é assistir ao desenvolvimento do século 20, com rastro, claro, dos séculos anteriores. Para compreensão das origens de Rosa, Nossa passa pelo Segundo Reinado, as fazendas escravocratas, as oligarquias, e depois Getúlio Vargas, a criação de Brasília. Oferece, assim, panorama político essencial para o entendimento do que estava em jogo na hora de, por exemplo, o escritor ser ou não agraciado com um prêmio literário importante à época; ou de ser aceito ou rejeitado para ocupar uma cadeira na ABL.

O lado espiritual e supersticioso, que o escritor fazia questão de alimentar, é equilibrado pelo mundano

Na mesma viagem que fiz para dar a aula sobre Rosa em Budapeste, fui a Portugal e visitei a Fundação José Saramago, onde fica a porção lisboeta da biblioteca do escritor português — a outra porção fica em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Foi lá que pude folhear uma primeira edição de Corpo de baile, autografada por Rosa em 27 de fevereiro de 1956, exata uma semana após o lançamento do livro. “A Elmano Cardim, grande e querido Amigo com a sincera admiração e afetuoso abraço do Guimaråes Rosa.” Por que o exemplar foi parar nas mãos do português é um enigma que ninguém consegue decifrar. Fato é que Cardim presidiu a ABL e era peça importante nas articulações da Academia.

Ao mesmo tempo que Nossa relata certo alheamento de Rosa em relação a diversas picuinhas, exibe-o cortejando acadêmicos para convencê-los a votar a favor de sua candidatura a imortal. Rosa chegava a viajar do Rio de Janeiro a São Paulo para fazer esse tipo de adulação — e adorava o dispêndio, porque, na longa viagem de ônibus, “tinha tempo para a imaginação” e porque, por mais artificiais que pudessem ser os encontros, dizia ele: “Cada visita que eu faço é um novo amigo que ganho”.

Cordisburgo

Em Cordisburgo, há uma gruta chamada Maquiné, hoje ponto turístico, pela qual Rosa tinha fascínio. Em entrevista citada na biografia, disse: “A última vez que nela entrei, me embriaguei tanto de estalactites e de mistério que, na passagem do terceiro para o quarto salão, tive medo de esbarrar com um Ursus spelaeus ou com um tigre-dentes-de-sabre. Dá vontade à gente de virar troglodita”.

Rosa teve a vontade que teve, de ser habitante de caverna, e quem sabe, se atingisse tal condição, iria expressar-se com desenhos rupestres ou algo parecido. Seus livros, que no início da carreira são calhamaços, posteriormente tornam-se mais curtos, como os últimos dois que publicou. Em entrevista ao crítico alemão Walter Höllerer, gravada em vídeo, a propósito do lançamento de Primeiras estórias (1962), ele fecha a conversa brincando que pretende chegar ao hieroglifo.

Não chegou; não foi morar nas cavernas, mas encerrou sua atividade literária com Tutameia, cujos contos têm apenas quatro páginas cada, na maioria das edições, em oposição aos textos de Sagarana, o primeiro, que têm dezenas de páginas. E a última palavra que escreveu, palavra bem rosiana, incomum, engraçada e grave, polissêmica, gostosa de ler e de pronunciar, de acordo com Leonencio Nossa foi… Bem, não direi qual foi. Está registrada na biografia.

Maiorais

No dia 27 de junho de 1908, nasceu João Guimarães Rosa, filho de Francisca Lima Guimarães e Florduardo Pinto Rosa — que nome! Três meses depois, em 29 de setembro, morria Machado de Assis, sobre quem Rosa anotou em seu diário, depois de ler Memórias póstumas de Brás Cubas:

Não pretendo mais lê-lo, por vários motivos: acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para ‘embasbacar o indígena’; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura.

A decisão não era categórica, pois, na mesma entrada, admitiu que talvez ainda lesse “seus afamados contos” e “o começo do Dom Casmurro”. Noutra ocasião, incluiu-o num rol de “grandes homens” que melhor representassem o Brasil num almanaque. Para Rosa, Machado era o escritor brasileiro por excelência, o escritor a ser superado. Ele tinha o desejo de ser considerado o maior escritor do país. Para muitos, conseguiu.   

Quem escreveu esse texto

Luis Campagnoli

Luis Campagnoli, revisor da Quatro Cinco Um, é mestre em teoria literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Poliglota e troglodita”

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.