Literatura,

Justa causa

Romance bem-humorado sobre demissão se perde nas armadilhas da literatura do eu

15nov2018 - 18h13 | Edição #9 mar.2018

J., a narradora do segundo romance da carioca Julia Wähmann, enfrenta duas rejeições simultâneas: o desemprego repentino e o fim de namoro. De cara, o tom bem-humorado de Manual da demissão é cativante. Mas o livro não se sustenta.

Diversas páginas são gastas na descrição irônica do mundo do trabalho e de seu avesso, o desemprego. A aposta no lado burocrático é forte — e muita coisa é arbitrária, supérflua ou irrelevante nessa exploração exaustiva. Acompanhamos a narradora em idas à Caixa, ao Ministério do Trabalho, ao sindicato. Um capítulo inteiro é composto por um inventário do que há na mesa e nas gavetas do escritório.

A combinação com o drama amoroso contribui para empurrar o livro para uma zona cinzenta que não chega a ser a do texto literário. Pouco ou nada salva Manual da demissão de se tornar uma narrativa comercial ou pós-adolescente. J., de 35 anos, se refere ao ex como “o bunda do meu ex-namorado”, expressão estranha para uma narradora adulta de um livro adulto, ainda que cômico.

Coerência interna

Dos clichês às escolhas duvidosas, o vocabulário soa gratuito: não procura estabelecer uma lógica e não consolida um perfil convincente para J. O melhor que se pode dizer, em termos de coerência interna da trama, é que a imaturidade da narradora espelha a da narrativa. Falta critério, ganchos, sustentação. O resultado é um texto duro, incompatível com o registro leve que a autora pretende adotar. “Saia daí imediatamente, entre num táxi e venha para cá”, diz J., de modo artificial, em um dos raros diálogos assinalados por aspas.

Em um livro curto, narrado por uma mulher que chama o ex de “o bunda”, o verbo adentrar é usado três vezes. Também o emprego de palavras nada formais é admitido, como pisantes para designar sapatos. A mistura incongruente da gíria e da frase engessada poderia ser explicada por uma narradora idiossincrática. Não é o caso. O que se tem não é uma escrita original, mas amorfa, como se o emprego do humor dispensasse o compromisso com a estrutura e o estilo. Já as manobras para tentar evitar repetições de palavras resultam quase sempre mais prejudiciais para o texto que a própria repetição. Uma delas é o uso constante de “tal”, de modo que “emprego” vira um inábil “tal artefato”.

J. passa o livro tentando superar as duas rejeições e associa a própria situação à de quem enfrentou a crise de 1929. Como ela recebeu o FGTS e passou vários dias bebendo cerveja artesanal na praia, seria fácil justificar a comparação desproporcional evocando uma função básica do humor — suavizar a condição da narradora pelo contraste com o drama social da Depressão. Não é possível inferir nada disso do texto, e o recurso cai, como outras analogias, na gratuidade.

Quando não se dá à banalidade o devido tratamento, a mesma banalidade é duplicada

“Como César Aira terminaria essa história?”, pergunta J. a certa altura. Nem toda narrativa breve vale um paralelo com o autor argentino. Mesmo retórica ou sarcástica, a pergunta soa deslocada. Basta lembrar daquilo que Aira disse em entrevista ao jornal Zero Hora em agosto de 2017, quando criticou a “literatura do eu” dessa “classe média urbana uniformizada em todo o mundo, de vidas convencionais, sem maiores acidentes que os de suas medíocres psicologias”.

Talvez seja injusto falar aqui em “medíocres psicologias”. Manual da demissão não tenta oferecer um mergulho profundo na subjetividade das personagens, tampouco quer transcender as convenções que Aira critica. A “classe média urbana uniformizada” é, no que tem de mais prosaico, a matéria-prima do romance. 

Quando não se dá à banalidade o devido tratamento — um trabalho sólido com o vocabulário, escolhas justificadas, uma voz consistente —, essa mesma banalidade é duplicada. Para manipular o clichê é preciso subverter o clichê. É pena que este Manual da demissão se mostre fraco em pontos fundamentais. Boas tiradas e encadeamentos interessantes de ideias se perdem, infelizmente, na areia movediça da indefinição. 

Quem escreveu esse texto

Camila von Holdefer

Crítica literária, é colaboradora do IMS e da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #9 mar.2018 em junho de 2018.