Literatura,

A ânsia do pertencimento

Em romance sobre identidade, Juan Pablo Villalobos refuta a noção estanque que alimenta o “nós contra eles”

17jul2023 - 15h07 | Edição #72

Gastón é um solteirão de cinquenta e tantos anos que até recentemente dividia seu tempo entre o restaurante do amigo Max e a própria horta. Para o seu azar, porém, uma rotina tão previsível não teria lugar na literatura divertida e algo caótica de Juan Pablo Villalobos. É um sentimento de desorientação generalizado, portanto, que põe em marcha os acontecimentos no livro, com o anúncio, ainda nas primeiras páginas, do fechamento do restaurante. Se Gastón vê aí uma ameaça a suas conexões e memórias afetivas, seus vizinhos tendem a enxergar, na compra do ponto por um imigrante vindo do leste, a confirmação de uma conspiração de estrangeiros para dominar e corromper seus negócios, seus modos de vida, seu bairro.

Logo no início, compreendemos que “o lugar, a cidade onde a história se passa, está aqui, nesta página” — ou seja, pouco importa que a relacionemos a um lugar real no globo. Toda e qualquer referência geográfica, bem como os marcadores que as acompanham, são intencionalmente vagos. Gastón, ele mesmo um imigrante, é cone-sulino; o outro, visto como ameaça, é extremo-oriental; a língua utilizada é quase sempre a nativa ou a colonizadora. No fundo, embora esteja no centro das preocupações de alguns personagens, e portanto do próprio enredo, a questão das origens e traços culturais é de menor importância — e a aparente contradição também é, aqui, perfeitamente intencional.

O que Villalobos põe em xeque é justamente a ânsia do pertencimento a grupos e categorias imutáveis, que admite uma ideia de identidade tão inescapável quanto extrema. As próprias escolhas narrativas estabelecem uma ambiguidade que rejeita de antemão qualquer aliança exclusiva ou definitiva. Há, de um lado, a preocupação declarada com a verossimilhança e a coerência interna da trama, com seu encadeamento e andamento, com a proposta de manter os leitores atentos e interessados nas andanças de Gastón. De outro, há a disposição de assinalar boa parte dos procedimentos em operação nesse universo ficcional. A duplicidade fica clara quando lemos que, se os acontecimentos se revelassem incomuns demais, Gastón “não romperia com o realismo, como nós, ele romperia com a realidade”.

Um estranho “nós”

A narração em terceira pessoa é levada a cabo por esse nós impreciso que, em tese, admite pelo menos um narrador e um leitor. Somos informados de que “sempre acompanharemos Gastón, como se pairássemos atrás dele e tivéssemos acesso a seus sentimentos, a suas sensações, ao fluxo do seu pensamento”. Mas o que chega não é o que se passa pela cabeça de Gastón, como em um autêntico fluxo de consciência, e sim o conteúdo mediado por esse estranho nós que seleciona e filtra aquilo que, segundo critérios misteriosos, teria relevância — que o contextualiza e ordena, que o resume e oferece as próprias conclusões. Os leitores só compõem o nós até certo ponto. É Gastón, porém, o maior excluído, uma vez que sua integração ao coletivo ou a fusão total de sua identidade nesse nós nem sequer podem se realizar: embora siga no encalço do protagonista, o nós fugidio tem autonomia para se aproximar ou afastar, ver o que ele vê ou desviar o olhar, prestar atenção a seus pensamentos ou a determinados detalhes da paisagem externa.

Em outra ambivalência narrativa, Villalobos parece começar pelo fim — já que o período mais importante da história do protagonista está para se encerrar. Pol, o filho de Max que Gastón ajudou a criar, atinge um ponto de ruptura depois de uma temporada como pesquisador sob condições extremas na Tundra. Além disso, a ambiguidade da relação de Gastón e Max — que pode ser de camaradagem ou algo mais — parece emergir de súbito, quando, porém, já não é possível explorar suas possibilidades. Gato, o cachorro de Gastón — que carrega a contradição no nome —, está com um câncer terminal e, com a contratação de uma “adormecedora”, é só questão de tempo, ou de páginas, até virar apenas um registro do passado. (Vale notar que o nós que acompanha Gastón não deixa de sublinhar, por meio da evocação do que se passou e da antecipação do que ainda pode ou vai acontecer, o artifício da marcação temporal na narrativa literária.)

O livro se dedica a acabar com a fantasia de que é preciso conservar a essência e as tradições

Queremos crer que é nesse encerramento, quando a antiga vida já parece fora de alcance e novas relações se apresentam e justificam, que o carismático Gastón encontra o recomeço. É plausível: o livro critica abertamente, e sem qualquer didatismo que diminua a força da literatura, a incapacidade de se deixar afetar e transformar pelo outro. Gastón é a prova de que a adesão também se dá por simpatias e afinidades, por puro e simples afeto, em oposição a uma noção estanque de identidade que justifica o nós contra eles e alimenta uma paranoia — explicada em diferentes escalas, das sinapses que propagam o medo à crise econômica — que vê apenas conspirações. “A paranoia sempre tem uma lógica avassaladora, sem fissuras, que nega o acaso ou as coincidências e pretende revelar uma ordem oculta, a identidade do autor da trama, suas intenções secretas; tudo falso, um erro de superinterpretação”, escreve Villalobos.

O paranoico Pol é, aliás, outra figura ambígua. Seu discurso caótico, depois dos maus bocados que passou na Tundra, pode fazer sentido ou ser puro e simples delírio — e escolher um lado depende do que os leitores estão dispostos a enxergar na ficção de Villalobos, se um realismo estrito (aqui, empobrecedor) ou algo mais próximo da ficção científica (mais emocionante). De acordo com Pol, a Terra foi colonizada por panspermia dirigida, hipótese em que extraterrestres teriam dispersado vida pelo universo de forma deliberada. Agora seria a hora de levar a cabo a colonização do universo pelos terráqueos, de “entrar na guerra da colonização espacial, no imperialismo universal”. Quem entraria nessa guerra? Bem, “nós, todos os terráqueos”.

A invasão do povo do espírito se dedica, em resumo, a acabar com a “fantasia de que é preciso preservar uma suposta pureza, uma ordem original, primitiva, conservar a essência, as tradições, um passado melhor”. No final, quando o título finalmente fizer sentido, compreendemos que até a amada horta de Gastón — na qual nem mesmo os vegetais são locais — vai se modificar. De um jeito ou de outro.

Quem escreveu esse texto

Camila von Holdefer

Crítica literária, é colaboradora do IMS e da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #72 em julho de 2023.