A escritora e ensaísta norte-americana Sigrid Nunez (Marion Ettlinger/Divulgação)

Literatura,

Inocência perdida

História da sagui adotada pelo casal Leonard e Virginia Woolf, ‘livrinho divertido’ de Sigrid Nunez mostra que é possível melhorar com o tempo

24set2025

Mitz foi lançado em 1998, o terceiro dos dez livros já publicados por Sigrid Nunez. Os mais recentes são melhores. Então, a moral da história — vamos começar por ela — é que é possível melhorar com o tempo. Em 2018, com O amigo, Nunez ganhou uma chuvarada de prêmios, inclusive o National Book Award; em 2024, teve dois de seus livros adaptados para o cinema — um deles é esse mesmo O amigo, e o outro, O que você está enfrentando (2020), foi transformado por Pedro Almodóvar no longa O quarto ao lado.

O sucesso tem muitas indecências e uma delas é a permissão para escarafunchar o passado da artista, trazendo a público os momentos de ensaio, mostrando como ela aqueceu os músculos para a escrita. Nunez quis ser bailarina por algum tempo, antes de optar pelo mestrado em escrita criativa, considerando que a profissão de escritora tende a envelhecer melhor. Nem sempre é verdade, mas foi o caso.

Com as aulas de balé, conta ter aprendido a ser disciplinada e a levar desaforo para casa; na pós-graduação, aprendeu exatamente as mesmas lições. Nunez fez parte da primeira leva a se formar em escrita criativa nos Estados Unidos, quando os professores achavam ter feito algo errado para terminar ali. Na Universidade Columbia, foi aluna da implacável Elizabeth Hardwick, que dizia que os romances da turma eram tão entediantes que não dava para ler até o fim. 

Nunez estava no momento e lugar certos para que sua ambição e vocação pudessem andar juntas

A vida de Nunez parece ser um exemplo perfeito de sua geração. Nascida em Nova York em 1951, filha de imigrantes (a mãe alemã, o pai chinês com passagem pelo Panamá antes de se estabelecer nos Estados Unidos), estava no momento e lugar certos para que sua ambição e vocação pudessem andar juntas — e para que uma vida dedicada à escrita pudesse ser funcional, algo mais parecido com uma carreira e menos com uma deliberação dos astros. Funcional não quer dizer melhor, só que funciona, e rima com convencional.

Ela então concluiu o mestrado e foi trabalhar como assistente editorial na New York Review of Books, revista de ensaios críticos dos Estados Unidos com melhor reputação e, à época, com as mais altas taxas de tabagismo. De lá, foi indicada para ser assistente pessoal de Susan Sontag. Publicou contos em revistas, superou rejeições, começou a escrever romances, virou resenhista da revista onde havia sido assistente, foi dar aulas de escrita em instituições cada vez mais renomadas e, já perto dos setenta anos, ganhou a fama.

Contraplano

Onde localizar Mitz nesse percurso? Embora a autora estivesse perto de completar cinquenta anos quando o lançou, o romance parece ainda encolhido sob o olhar crítico de Sontag e da professora Hardwick, também ela uma das maiores ensaístas do século 20. Duas mulheres que incutem na mente de quem as lê a palavra “inteligência”. O livro adquire sentidos com esse contraplano: diante do gosto das mentoras pelo moderno, o urbano e o chique das ideias complicadas, Nunez encontrou a saída possível. Um macaco. Um macaquinho. Ela apostou na inocência. 

O problema é que inocência não se aprende ou se ensina, e não é uma opção aos que a buscam pelo esforço. Ela se esconde e, no lugar, aparecem suas versões da Shopee: a meiguice, a leviandade, a infantilização. É assim que, no romance, tropeçamos no personagem do marinheiro que trafica animais silvestres — ele tem mesmo “Mãe” tatuado no braço. E Hitler e Mussolini são descritos como dois grandes “valentões” (bullies, no original).

Mas a premissa de Mitz é perfeita para quem quer tirar um dez: trata-se da história real da minúscula Mitz, uma sagui brasileira que o casal Leonard e Virginia Woolf adotou em 1934 e de que cuidou até sua morte em dezembro de 1938 (há duas fotos de Mitz na internet; só numa dá para ver nitidamente a pequena sagui, cabendo inteira na palma da mão de Leonard, abraçada à base de seu dedão). No pano de fundo, algo que não é bullying corre pela Europa, com certo exército se preparando para invadir a Tchecoslováquia em março de 1939.

Foto do noivado de Virginia e Leonard Woolf em 23 de julho de 1912, em Sussex, um mês antes do casamento (Reprodução)

O foco no macaco é engenhoso: dá um recorte preciso no tempo e reenquadra a história tantas vezes contada sobre esse período e sobre o casal de escritores que viveu de maneira experimental, com a escrita no centro de suas decisões. Mitz se baseia em uma quantidade obnubilante de pesquisa bibliográfica, nos moldes de Flush (1933), biografia romanceada que Virginia Woolf, por sua vez, escreveu do cachorro da poeta Elizabeth Barrett Browning. O momento da escrita de Flush é narrado nestes termos em Mitz

O livro começou como um descanso […]. Mas os deuses da literatura punem os escritores que começam a escrever com esse espírito. Embora no início [Virginia Woolf] o tenha levado de maneira leve, chamando-o de brincadeira […], ele logo se transformou naquilo que toda escrita de livros sempre se transforma: trabalho, trabalho, trabalho. 

Espertas essas escritoras que apontam para uma autora anterior só para fazer piada da própria situação.

Sob a superfície calma da prosa fluida de Nunez, imaginamos o oceano de diários, cartas e livros que foi necessário para conferir realidade à história. A autora confessa numa nota (na edição original) ter aprendido sobre o comportamento de saguis em enciclopédias. Infelizmente, dá para notar. 

O fato de a sagui se parecer mais com um esquilo ou gato-bonsai não é o que gera maior incômodo. É, sim, o romance ter embarcado numa tendência da literatura contemporânea de acreditar que um personagem só é verossímil se for chato (será que os autores imaginam que, com isso, o leitor vai poder se identificar?). Em narrativas como essas, são as neuroses e os ranços cotidianos que confirmam que uma pessoa é uma pessoa. Virginia Woolf é “uma mente frágil em um corpo frágil”, insuportavelmente autocentrada. Onde foram parar o brilho e o humor que transparecem em seus livros? Em Mitz, ela e Leonard são um casal que não optou a tempo pelo divórcio: “‘Mulher estúpida’, murmurou Leonard enquanto voltava para seu quarto. ‘Bruto’, murmurou Virginia pelas costas dele”.

Sodomia oral

É para isso que queremos ficção? Para nos convencer de que a vida é desinteressante — a menos que tenha um animalzinho engraçado? Para isso, já temos o TikTok. Sem contar que, se a não ficção fornece outra versão dos fatos, basta pegar qualquer ensaio ou biografia com a história do círculo de que os Woolf faziam parte, o grupo de Bloomsbury. Aqui está uma cena típica, cujo teor Mitz não abarcou: Vanessa Bell, irmã de Virginia, aparece numa das muitas festas que elas davam quando moravam juntas. Um amigo aponta para uma mancha em seu vestido e pergunta: “Sêmen?”. O grupo morre de rir. 

Fugindo da criação vitoriana claustrofóbica, as irmãs Virginia e Vanessa fizeram o possível para “erradicar a polidez”, como diziam. Viveram casamentos tão inventivos e originais quanto suas criações artísticas. Numa carta ao amigo e economista Maynard Keynes, Vanessa perguntou: 

Foi boa a sua tarde de veadagem com um ou mais dos rapazes que escolhemos para você? […] Aposto que foi uma delícia. Imagino vocês […] nus, entrelaçados e entregues aos êxtases preliminares da Sodomia Oral — parece o nome de uma estação de trem. 

Em Mitz, Keynes é um economista que aparece de vez em quando com a esposa para o chá da tarde. Vanessa fica em casa e cuida dos filhos.

Queremos a ficção para nos convencer de que a vida é desinteressante? Para isso, já temos o TikTok

Faz sentido? Faz — algum. É que a presença da sagui dá ao livro um tom de fábula e leva a excluir interesses mais adultos. (Antes que me interrompam: o fato de tantas crianças brincarem de soldado deixa claro, se for preciso deixar claro, que a guerra não é um interesse plenamente adulto.) Enfim, esse poderia ter sido um livro infantil — como era o projeto original da autora, recusado pela editora. Teria sido um lindo livro infantil, original e estranho: alguns trechos parecem guardar essa memória de terem sido escritos com outra intenção.  

Em uma noite de agosto […]. Mitz descobriu que alguém havia deixado a porta dos fundos aberta. Sentou na soleira da porta, o coração livre. O mundo acenou. Ela saiu, movendo-se rapidamente no chão, onde não se sentia segura, até chegar à grande figueira. Em um piscar de olhos, ela a escalou. Uma brisa agitou o topo da árvore […]. Uma raposa se banhou no lago de nenúfares. O ar noturno úmido, as árvores farfalhando, o vento soprando seus pelos, a raposa, a lua… ah, quem poderia dizer quais medos ou deleites, quais memórias ou anseios tudo aquilo despertou na pequena Mitz?

Numa entrevista recente, Nunez se referiu a Mitz como “my fun little book”. De fato, é fun — e não teria como ser diferente, com um macaco no meio. Mas o little, ou melhor, a combinação fun e little, “meu livrinho divertido”, revela mais. Ainda é comum que as mulheres façam pouco caso do próprio esforço, se protegendo numa despretensão estudada, escondendo a quantidade de trabalho (inclusive físico) em passar tantas horas concentradas, às voltas com um texto. 

É comum que mulheres ainda façam pouco caso do próprio esforço, numa despretensão estudada

Depois de Mitz, mais duas décadas se passaram até Nunez chegar na trama sutil de Sempre Susan (2020), livro-ensaio sobre sua mentora — e sogra, quase esqueci de dizer — Susan Sontag. Ali, a personagem é viva, a narradora também, e a inteligência não desfaz o nó de inocência em nenhuma delas. 

Comecei pelo fim — a moral da história, de que é possível melhorar com o tempo. Estava me referindo à trajetória da autora, mas algo parecido pode ser dito em relação à sequência que começa com Virginia Woolf, passa por Elizabeth Hardwick e Susan Sontag e vem dar em Sigrid Nunez. Não é que, quanto mais recente a autora, melhor ela é. 

A arte não tem progresso, nem precisa ter. Mas, em 1929, Virginia Woolf se perguntou se em cem anos as mulheres poderiam viver da escrita e escrever o que bem entendessem. A moral da história diz respeito, então, à história — com macacos ou não — do que é ser mulher e inventar, a cada vez, uma maneira nova de centrar a vida na escrita, reconhecendo suas antecessoras, torcendo as inseguranças, tentando dobrar o senso comum.

Quem escreveu esse texto

Sofia Nestrovski

É mestre em teoria literária pela USP.

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