Filosofia, Literatura,

Escrita da reconciliação

“Recusa do não-lugar” marca a transição de uma filosofia da recusa para uma aceitação irônica da vida como ela é

15nov2018 - 19h58 | Edição #10 abri.2018

“Eu tinha me tornado uma espécie de mestre Eckhart de shopping center”, escreve Juliano Garcia Pessanha em Recusa do não-lugar. O livro anuncia uma mudança de perspectiva na obra desse escritor único, que transita fora do espaço literário, uma passagem que leva da ruminação do negativo, presente em seus títulos anteriores, para uma relação de aquiescência com o mundo. O que inclui, do ponto de vista estético, o humor e a autoironia estampados na frase citada.

Como ele mesmo diz, Recusa do não-lugar é um “híbrido de filosofia, caso clínico e literatura testemunhal” — com aforismos e ensaios de reflexão teórica mesclados a registros de vivências pessoais. Essa estrutura não difere muito daquela que encontramos na tetralogia Sabedoria do nunca (1999), Ignorância do sempre (2000), Certeza do agora (2002) e Instabilidade perpétua (2009). Nesses livros, Pessanha combinava relatos em que personagens como o Z de Sabedoria do nunca passeavam sua inadequação essencial e meditações críticas sobre escritores (Kafka, Fernando Pessoa e Paul Celan) ou filósofos, como Nietzsche, Lévinas e, sobretudo, Heidegger.

A divisão em gêneros literários é insuficiente para dar conta da escrita de Pessanha, que sempre se recusou a cair nos cacoetes de autoficção: entre a iluminação poética e um tipo de relato testemunhal no qual as leituras fustigam a carne tanto quanto as lembranças, seus textos são atravessados pela voz estuporada daquele que se sente um estrangeiro, um ser “rasgado” que habita a inadequação.

E isso se deve ao modo como Pessanha incorpora leituras — e que constitui uma espécie de profissão de fé ou (para falar como Heidegger) de uma “disposição fundamental” de quem interroga o sentido do ser, de seu estar no mundo, num estranhamento incessante de si e dos outros. Aliás, o primeiro texto de Recusa do não-lugar se intitula “O mundo estranhado: esboço de filosofia fisionômica” e é exemplar desse processo de incorporação filosófico-literária que confere força à escrita de Pessanha. O escritor se coloca na pele de Nietzsche e imagina o filósofo descrevendo sua chegada ao mundo “em estado de atrofia e diminuição”: 

“Meu corpo chegou pulsando vitalidade, já o corpo de minha mãe estava armado pelo espantalho de Cristo. Eu o abraçava, mas ele era imóvel e parecia uma cômoda de mármore. O corpo de minha mãe não ressoava com o meu e, quando me jogaram no berço, um crucifixo gelado esfriou minhas costelas. Fui então recuando e, ao invés de nascer para o mundo e mergulhar para o seu interior, vi um corpo vermelho e úmido de alergia e desconforto — o meu! — recuar e virar uma pergunta: quem são os sequestradores, de onde vêm e como tomam os corpos esses vingadores?”

O encontro com o olhar objetivante do outro, a absorção de si numa identidade protocolar, o terror da nomeação que enclausura numa identidade o mistério do evento em estado puro — são temas não só recorrentes na obra de Pessanha, mas que tratam de uma cena inaugural, de um batismo que congela o sangue e marca o corpo de um sujeito daí por diante lançado numa exterioridade sem retorno.

Num dos fragmentos de Ignorância do sempre, Pessanha escrevera: “Imerso na superstição do calendário e no hábito da cronologia, o homem-mundo tentou me puxar para dentro de medida humana: chegou a forjar até um nome-cela para me apanhar. Então eu percebi que o alívio sentido por Adão ao nomear as coisas é o puro inverso do horror que elas sentem quando são nomeadas pela boca-massacre do homem que conhece”.

Essa imagem candente descreve a desolação glacial do ser que, projetado num exílio existencial, encontra uma nova e precária irmandade no universo de outros alienígenas do espaço literário — Blanchot, Tsvetáieva, Kafka. “Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós”, escreveu o tcheco, e a frase corresponde à concepção de literatura de Pessanha.

Transição 

No entanto, Recusa do não-lugar se apresenta como obra de transição para uma nova forma de pensar os encontros. Pessanha celebra seu próprio percurso, indissociável dos companheiros dos quais afirma ter se emancipado. Numa palavra, Heidegger vai para as coxias sob aplausos, levando consigo a trupe da “filosofia da diferença” (Bataille, Blanchot, Lacan, Lévinas); entra em cena Peter Sloterdijk, autor da trilogia Esferas, trazendo pela mão o psicanalista Donald Winnicott.

Simplificando brutalmente, Heidegger identificou na história da civilização ocidental um progressivo “esquecimento do ser”, que teria sido tragado pelas abstrações da metafísica ou pela redução do ser à condição de ente pelo aparato técnico-científico. Essa percepção só é possível graças à “diferença ontológica” que distingue as esferas das coisas e do pensamento que interroga a relação entre fenômenos e conceitos sem se tornar, ele mesmo, coisa entre coisas. No caso do autor de Ser e tempo, surge aí a figura do poeta ou do filósofo que se coloca como “pastor do ser”, retirando-se do mundo mundano para pensar a autenticidade perdida.

O encontro com o olhar do outro e a absorção de si numa identidade protocolar tratam de uma cena inaugural, um batismo que marca o corpo do sujeito

Sloterdijk também embarca na questão da angústia em relação ao encobrimento do ser, mas acaba por virar a balsa heideggeriana ao localizar em termos muito mais concretos essa percepção, não mais vista como irrupção solitária, mas como construção consubjetiva. Para ele, a percepção do ser no mundo se dá sempre numa situação de contato humano, desde a gestação até as diferentes formas de “imunização” que encontramos para nos protegermos da hostilidade do mundo. E descreve o processo no qual a “bolha” protetora representada pela simbiose da criança com a mãe terá como sucedâneos esferas amplificadas de relações intersubjetivas (Estado, religião, tecnologia), até o ponto em que tais escudos imunológicos explodem num mar de “espumas” no qual “tudo se tornou centro”.

Ou seja, as agressões do real não desaparecem, e até mesmo proliferam em tempos de globalização e apocalipse ambiental, mas nossos céus e cúpulas artificiais podem iluminar agora as relações interssubjetivas que nos constituem, a antropogênese de nosso ser, as várias formas que a civilização fornece para que nos tornemos imunes às contingências e aos desastres implicados na aventura humana.

Essa “analítica do estar acompanhado” permite que Pessanha se reconcilie com a vida como ela é, seus desamparos e precariedades, e olhe com ironia para si mesmo, seu enredo pessoal e seu “messianismo heideggeriano” que “beirava os cumes do narcisismo transcendental”. O ensaio “Para humanizar Heidegger” denota de fato o consentimento com o mundo intramundano da tecnologia — antes demonizado — e uma guinada, por assim dizer, “naturalista”.

A mutação de Pessanha lembra a vivida por Montaigne, quando uma queda de cavalo fez o autor dos Ensaios perceber o quanto eram postiças suas reflexões inspiradas pelos estoicos sobre a indiferença à morte e às vicissitudes. A partir do incidente, o medo reconciliou Montaigne com seu corpo e fez com que ele percebesse que as afecções da alma dependem menos de altivas meditações filosóficas do que de humores e temores.

O abandono por Pessanha do altissonante ser-para-a-morte heideggeriano e sua substituição pela acolhedora e vital esferologia de Sloterdijk também traz um prosaico elemento corpóreo com ressonâncias no modo de pensar. No caso, um problema cardíaco que Pessanha teve ao sair de uma conferência do filósofo alemão em 2016: “Acreditei que a angústia me concederia o olhar da lâmina, o fulgor do recém-nascido e o dizer do alheio sem nenhuma névoa, mas isso era a parte inocente do poema, pois a angústia me deu também a artéria enrijecida, o entupimento da carótida e o risco de morte súbita na calçada”.

Em Recusa do não-lugar, enfim, Pessanha elabora uma “ontotopologia” que divide pensadores do Dentro — o homem “preenchido”, instalado numa existência sem abismos — e do Fora — o ser “rasgado” que “canta porque vive na espera do acontecimento que não aconteceu”. Mas há também um Entre, que consiste em transitar da negatividade para uma aquiescência do mundano, conservando a memória de suas recusas e postulando uma forma pragmática de vivê-las que começa apenas a se esboçar.

Quem escreveu esse texto

Manuel da Costa Pinto

É autor de Paisagens interiores e outros ensaios (B4 Editores).

Matéria publicada na edição impressa #10 abri.2018 em junho de 2018.