Literatura Negra,

Narrar vidas fora de mim

Primeiro romance de Luciany Aparecida traz como protagonista uma matadora de bois que escreve cartas ditadas pelos habitantes do vilarejo de Mata Doce

23out2023 - 11h58 | Edição #75

Localiza-se no interior baiano o casarão habitado pela preta Maria Teresa da Vazante e de tantas outras parentas e antepassadas que se confundem com ela. Mapa nenhum, contudo, dá conta de fixar o que nesse endereço rodeado de rosas brancas foi alicerçado nas emboscadas de um calendário não linear, onde mais uma vez é maio, sempre domingo, dia de vestir-se de noiva para casar-se com Zezito. Espaço-tempo fundem-se, pois a festa de casamento é assaltada por uma tragédia que marca a vida da protagonista de Mata Doce. Ao recordar esses eventos, ela rejuvenesce e presentifica as histórias de outros tantos viventes (e mortos), humanos e não humanos, que estão de passagem pelo vilarejo rural homônimo do primeiro romance assinado pela autora baiana Luciany Aparecida.

“Comecei esta história em terceira pessoa pensando que os casos ganhariam mais valia. Aos poucos vou me perdendo nesse narrar vidas fora de mim, mas que não deixam de ser eu mesma”, conclui Maria Teresa, a narradora e personagem de si, que busca as rédeas de sua história sob a sina desse presente que não sucumbe, transfigurado por uma atmosfera mágica — em verdade, a realidade de quem torna palpável a dimensão de seus símbolos. 

O casarão de Mata Doce é em si um quilombo, embora o substantivo não faça parte do léxico do romance 

“Agora sou Filinha Mata-Boi.” A partir desse rebatismo, Maria Teresa, filha da professora Mariinha e da travesti Tuninha, empunha o machado e a faca para seguir viva, em uma atividade que até então era só dos homens, fica ensopada de sangue dia a dia e, à primeira vista, contrasta com a formação que, com muito esforço, as duas mães proporcionaram. Afinal, a matadora de boi é também uma exímia datilógrafa, e as cartas que são ditadas por aqueles que não sabem escrever dão ao livro de Aparecida, mais do que o traço epistolar evidente, um caráter polifônico e confessional, cujos destinatários, a despeito dos remetentes anunciados, somos nós, leitores. Essa correspondência é redigida por letras que, antes de ser batidas à máquina, fincaram-se na carne. 

No matadouro, que é um território em disputa, Filinha crava-se como presença em um abatedouro não metafórico, uma afronta à ausência imposta pela violência dos donos das cercas e dos currais, nos domínios de quem represa água, viola e mata descendências.

O casarão, para onde sempre se retorna em Mata Doce, foi habitado por mulheres há mais de um século. Quem chegou primeiro ao local, dando início ao povoado, foi Eustáquia da Vazante, avó da professora Mariinha, mãe da protagonista, convertendo as ruínas do lajedo de pedra em ponto de “alívio”, “sede de amparo”, destino de quem “escapava para a liberdade”, conforme lemos no romance. Ou seja, a morada é em si um quilombo, embora o substantivo nem o adjetivo “quilombola” façam parte do léxico do romance. Não há nenhuma menção sequer à palavra “escravizado” nessas páginas — ainda que Aparecida inúmeras vezes lance mão de descrições físicas que não dão margem para qualquer dúvida sobre a cor da pele e a textura dos cabelos das personagens, assim como suas origens étnicas, sociais e históricas.

Histórias não contadas

Ao evitar determinadas nomeações, a escritora contribui para a construção de um olhar calcado em uma perspectiva de dentro para fora. Até porque o excesso de caracterização se confunde com a busca, por meio desses mesmos traços físicos, da genealogia que foi negada a essas personagens. Como exemplo, o caso de uma bibliotecária que, a certa altura da trama, pergunta: “Meu pai era de qual cor?”, e estende-se o seguinte diálogo:

— Era assim mestiço, a cor da pele mais clara, mas se via que não era homem branco.
— Assim como eu?
— Assim como você.
— E o cabelo de Belisária é assim como o meu?

Nesse sentido, há paradoxalmente nas histórias que insistimos em dizer que não foram contadas um eco que já encontra precedentes em nossa literatura contemporânea recentíssima, de Torto arado, de Itamar Vieira Junior, a Caminhando com os mortos, de Micheliny Verunschk, entre outros. Refiro-me ao ambiente rural ou de pequenos povoados onde irrompem incontornáveis lutos e lutas; à migração para a cidade grande; e à exuberância provocada nessas narrativas pelo tempo espiralar e por uma lógica que tem como base crenças e mitos de religiões de matriz africana, estabelecendo outros sentidos para as relações com plantas e bichos. 

Nada mais é mera paisagem porque tudo vive. E como estamos nos domínios da literatura, penso, sobretudo, na centralidade dada à escrita e à leitura nesses espaços tão associados aos iletrados: uma das temáticas de uma geração que, formada por autores bastante próximos dos personagens a que dão vida, enfim tem seus livros publicados. 

Mata Doce, sem escapar desse mote, traz uma protagonista que não só é filha de uma professora, como a educação que a distingue não faz com que ela rompa com seu lugar de origem, e sim adentre cada vez mais fundo nele. Desse modo, a leitura que diferenciava Maria Teresa, única negra da zona rural a estudar em ambiente de brancos, faz com que ela busque um dos primeiros romances brasileiros de autoria feminina negra, Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis, não como indicação de leitura na escola, e sim por recomendação de um poeta vaqueiro. 

Maria Teresa, ou Filinha, não é apenas de uma segunda geração que sabe ler e escrever, ela é também filha de uma travesti, além de afilhada da ex-prostituta Lai. Trata-se de uma linhagem que, por mais matriarcal que seja, aponta para relações mais horizontais dentro da família. Portanto, parece significativo, em Mata Doce, que certa masculinidade definhe, ainda que não sem causar estragos, e o amor romântico entre homem e mulher reste no horizonte como promessa de felicidade apenas em sua impossibilidade traumática de um eterno domingo.

Quem escreveu esse texto

Luciana Araujo Marques

É doutoranda em teoria e história literária na Unicamp.

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.