Literatura israelense,

Do lado de lá

Em ‘Cartas ao meu vizinho palestino’, escritor israelense explora suas ambivalências em relação a Israel e faz um convite ao diálogo

28jul2022 - 18h30 | Edição #60

“Antes que o muro fosse construído, antes de tantas outras coisas que deram errado, eu tentei conhecer você”, escreve Yossi Klein Halevi na primeira correspondência de Cartas ao meu vizinho palestino. Em uma série de cartas, o autor tenta desenredar narrativas e compartilha conflitos pessoais sobre questões políticas, religiosas e cotidianas, compondo um retrato humano de como vive e se sente um judeu vivendo do outro lado do muro.

Escritor israelense de origem americana, Halevi emigrou para Israel no começo da década de 80. Filho de judeus húngaros, cresceu em uma comunidade de sobreviventes no Brooklyn, em Nova York. Ainda nos Estados Unidos, sob o impacto dessa experiência e da convivência com o pai — sobrevivente do Holocausto —, a identidade judaica do autor passou a se expressar a partir de uma noção de segurança, associada a um vínculo político-ideológico de cunho messiânico. Como com qualquer judeu sionista religioso, a relação de Halevi com Jerusalém é ao mesmo tempo absolutamente espiritual e profundamente política. Por um lado, ela se relaciona com o cumprimento de práticas religiosas. Por outro, se estabelece a partir de um projeto de nação.

‘Quis me aproximar do outro lado, encontrar parceiros palestinos dispostos a ter essa divergência respeitosa’‘Quis me aproximar do outro lado, encontrar parceiros palestinos dispostos a ter essa divergência respeitosa’

Nos últimos tempos, entretanto, Halevi, que já foi vinculado a um dos mais radicais braços da direita sionista — o grupo Jewish Defense League, liderado por Meir Kahane —, percebeu que em Jerusalém também existe um outro lado; ou seja, o lado dos seus vizinhos palestinos, que também possuem as suas próprias histórias sobre aquela terra. Halevi então descobre que, ao olhar pela janela, ele já não enxerga inimigos, e, sim, pessoas com as quais precisa conviver e dialogar.

Em entrevista concedida por e-mail à Quatro Cinco Um, Halevi falou sobre a publicação brasileira de Cartas ao meu vizinho palestino, recém-lançado pela editora Contexto, e temas que fizeram parte do processo do livro, entre os quais a relação político-religiosa, o centro como ponto de encontro de contradições e novas relações que se seguiram à publicação.

Como enxerga o papel do ativismo político na sua escrita e quais foram as suas influências nesse sentido?
Eu seria mais feliz ao dedicar o meu tempo à escrita sobre a meditação e sobre a busca do transcendental; ou, melhor ainda, se estivesse imerso em meditação e em questionamentos místicos. No entanto, enquanto escritor israelense, não me resta outra escolha senão, também, me engajar no que os israelenses chamam, eufemisticamente, de “a situação.” Isto é, a nossa aparente condição de permanente conflito. Em Israel a política não é algo abstrato. Ela afeta a sua vida pessoal de modo contínuo, seja através do serviço militar, dos ataques terroristas, da ocupação ou das nossas infindáveis discussões internas. Estamos imersos em situações de vida e morte que exigem que todos que vivem aqui lidem com as circunstâncias da melhor maneira possível. Meus modelos de como escrever sobre Israel foram, entre outros, Amós Oz e David Grossman, excelentes romancistas que também produziram obras contundentes de não ficção, especialmente Na Terra de Israel, de Oz, e O vento amarelo, de Grossman. Também me considero influenciado por Thomas Merton, monge católico que combinou escritos religiosos e políticos (embora a sua obra religiosa seja muito mais forte e duradoura). 

O desafio literário de escrever um livro sobre temas políticos é conseguir encontrar as motivações culturais ou mesmo espirituais que informam a política. Por exemplo, meu livro Like Dreamers (Como sonhadores) é a história de um grupo de paraquedistas que combateram juntos em Jerusalém, durante a Guerra dos Seis Dias (1967), e depois se tornaram ativistas em campos distintos da política israelense, tanto à direita como à esquerda; e cada um desses campos atua a partir de uma profunda e até mesmo utópica visão de Israel. 

Like Dreamers é meu único livro que não é pessoal, embora, ao escrever sobre a divisão israelense entre esquerda e direita, eu também estivesse descrevendo o meu próprio conflito interior com relação ao Estado palestino. Meu lado “de esquerda” teme as consequências morais da continuada ocupação israelense. Já meu lado “de direita” teme as consequências à segurança representadas pela criação de um Estado palestino, literalmente, na colina vizinha à minha casa, em Jerusalém; um Estado que pode facilmente se tornar uma base para intensificação de ataques terroristas contra Israel. Assim, a minha profunda ambivalência também está expressa nos debates das personagens. Ao somar os argumentos e contra-argumentos de cada um deles, ouço a minha voz israelense. Nesse sentido, Like Dreamers é um percurso que eu segui a partir da vida de outras pessoas, em busca da minha própria identidade israelense. 

O discurso religioso pode se tornar politicamente perigoso, alimentando, por exemplo, abordagens messiânicas. Enquanto sionista religioso, como lida com isso?
A religião é uma força elementar que pode tanto curar como destruir; e, no Oriente Médio, quase sempre prevalece a segunda alternativa. Um motivo para a violência de inspiração religiosa — e eu temo que isso esteja se agravando seja entre muçulmanos, seja entre judeus — é a escatologia apocalíptica. O messianismo é um dos grandes presentes da religião para a humanidade. Ele nos empresta um senso de propósito, de rumo ao futuro, a partir da crença de que este mundo de sofrimento e injustiça não pode ser a palavra final. Na experiência judaica, a esperança messiânica nos sustentou durante os 2 mil anos de exílio. O messianismo se torna perigoso quando ele deixa de ser sobre o futuro e passa a nos tentar com a promessa da iminência.

Ao longo do exílio judeu, existiram erupções periódicas de antecipação messiânica iminente; algumas dessas erupções terminaram inocentemente, outras em tragédia. A genialidade do sionismo esteve em transformar o anseio messiânico de retorno à terra de Israel em algo prático; em um movimento político secular. O sionismo secular neutralizou o perigoso elemento apocalíptico do messianismo, ou seja, a noção de que o mundo deve ser “limpo”, com algum tipo de terrível purificação final que, a partir de então, abriria o caminho para a redenção. Nós estamos testemunhando o retorno do messianismo apocalíptico em todas as religiões monoteístas. Entre os palestinos, fantasias apocalípticas oferecem uma saída imaginária da ocupação. Já entre os israelenses, essas fantasias oferecem uma maneira de imaginar a libertação do aparentemente infinito ciclo de guerras e de terrorismo em que nos encontramos; de imaginar que os obstáculos da história judaica foram superados e que agora nós chegamos ao nosso final feliz. O messianismo apocalíptico pode nos arrastar para uma guerra santa. 

Estou especialmente preocupado com os pequenos grupos de judeus extremistas que podem vir a se sentir tentados a alterar radicalmente o status quo no Monte do Templo, ao explodir a mesquita de Al Aqsa, deixando o caminho livre para a construção do Terceiro Templo. Após 2 mil anos, o Monte do Templo está sob controle judeu; hoje, a tentação do messianismo da iminência é uma expressão da irresistível proximidade do nosso lugar mais sagrado. Minha missão enquanto israelense é a de manter sob controle os seguidores do messianismo apocalíptico que existem dentro do meu próprio povo. E, especialmente, tentar manter a paz no Monte do Templo: o lugar sagrado mais volátil do mundo.

Você diz que Cartas ao meu vizinho palestino é “um convite para uma conversa”. Surgiram conversas marcantes com leitores palestinos?
O livro foi traduzido para o árabe e disponibilizado on-line para download gratuito, e milhares de falantes de árabe, não apenas palestinos, mas árabes de todas as partes do Oriente Médio, responderam ao meu convite [para um diálogo]. Muitos também me escreveram — alguns com raiva, outros curiosos e agradecidos. Um respondente, um palestino que cresceu em um campo de refugiados em Beirute, inicialmente me escreveu uma nota irônica, algo como: “Então, você vai contar ao seu vizinho palestino o porquê de a ocupação ser algo positivo?”. Respondi que minha esperança era que a gente pudesse ter outro tipo de diálogo. Ele me escreveu imediatamente — isso no Facebook — pedindo desculpas pelo tom da mensagem. Entendi aquilo como uma abertura inesperada, e começamos a nos corresponder. Ele agora vive na Austrália, onde é ativo no movimento de boicote ao Estado de Israel. Desnecessário dizer que não partilho desse posicionamento. Nós nos falamos por Skype e desenvolvemos uma espécie de amizade.

Enviei o livro a ele e recebi de volta uma longa avaliação, boa parte dela profundamente crítica. Perguntei a ele se poderia incluir sua resposta na próxima edição do livro, que contém um longo epílogo com as reações de palestinos. Ele se surpreendeu com o convite porque sua carta era bastante crítica. Expliquei que minha intenção era abrir espaço para um desentendimento respeitoso entre israelenses e palestinos com relação às nossas narrativas opostas sobre o conflito, e ele aceitou.

‘Optei pelo centro porque considero que Israel seja um ponto de encontro das contradições do mundo’

Mais uma história: recebi um e-mail de oito páginas de um leitor em Ramallah, na Cisjordânia. Ele começava a mensagem me parabenizando… por uma bem-sucedida obra de propaganda. Ele então continuou a me explicar — ao longo das oito páginas — o porquê de tudo o que eu havia escrito no livro sobre história judaica e sobre a conexão ancestral dos judeus com a terra ser um mito sionista. No entanto, concluiu essa mensagem profundamente deprimente dizendo que gostaria de se encontrar comigo e continuar discutindo esses temas. Então o convidei para almoçar e nos encontramos em um restaurante em Jerusalém. Gostamos um do outro imediatamente. Ao fim de duas horas, ele disse: “Quando olho nos seus olhos, enxergo uma pessoa verdadeira”. Aquilo foi profundamente comovente para mim. Acho que o que ele estava dizendo era: “O seu livro nega tudo o que foi ensinado pelo meu lado sobre o conflito. Mas agora percebo que você não estava mentindo intencionalmente, e, sim, expressando aquilo em que os judeus realmente acreditam sobre a sua história e identidade”.

O meu objetivo ao escrever esse livro não era alterar o curso do conflito. Sou apenas um escritor, não sou um político ou um diplomata. Mas o que posso fazer é ajudar na criação de uma linguagem que permita o diálogo entre as perspectivas que palestinos e israelenses trazem para a história do conflito. Quem começou? De quem é a culpa pelo fracasso do processo de paz? Como seguimos adiante? O livro foi uma tentativa de me aproximar do outro lado, de encontrar, ainda que alguns poucos, parceiros palestinos dispostos a moldar esse tipo de divergência respeitosa. E eu os encontrei. Então, olhando por esse lado, o livro foi um sucesso. 

Para você, como israelense e judeu, o que significa ser de centro?
Optei pelo centro porque considero que Israel seja um ponto de encontro das contradições do mundo, e o centro representa um posicionamento político que está empenhado em sustentar essas contradições. Somos ao mesmo tempo um Estado laico e uma terra sagrada, uma nação ocidental e do Oriente Médio, um Estado judeu e uma democracia, uma sociedade sempre tendo que equilibrar os seus ideais democráticos com as ameaças à sua segurança. Se você aplicar uma abordagem ideológica muito rígida aos problemas de Israel, corre-se o risco de desmantelar o país.

Veja o que está acontecendo nos Estados Unidos, onde democratas e republicanos — que antigamente discordavam com relação a nuances e eram capazes de conduzir um debate equilibrado sobre essas diferenças — agora cada vez mais se enxergam como inimigos, e cada lado percebe o outro como uma ameaça à existência da nação. Se adotarmos esse modelo para nossos debates — e já houve ocasiões em que fizemos isso —, as consequências para Israel serão mais imediatas e devastadoras do que para um país tão grande e poderoso como os Estados Unidos, que aguenta receber várias pancadas. Israel é muito íntimo e talvez muito frágil para suportar esse tipo de abuso autoinfligido.

Precisamos adotar políticas com o maior índice possível de consenso. É claro que o consenso nem sempre é possível ou ideal. Há momentos em que uma nação precisa tomar decisões difíceis, mesmo correndo o risco de criar desavenças internas. Mas estas devem ser tomadas a partir do que poderíamos chamar de sensibilidade centrista: mesmo quando você precisa tomar uma decisão que arrisca alienar o campo adversário, deve fazê-lo de uma posição de entendimento do pensamento do outro, levando em consideração que somos todos parte de um mesmo esforço nacional.

Essa editoria tem o apoio do Instituto Brasil-Israel.

Quem escreveu esse texto

Juliana de Albuquerque

Colunista do jornal Folha de S.Paulo. Doutora em Filosofia e Literatura Alemã pela University College Cork (Irlanda) e Mestre em filosofia pela Universidade de Tel Aviv (Israel). Ela coeditou o volume Anti/Idealism: Re-interpreting a German Discourse (De Gruyter, 2019)

Michel Gherman

É historiador e colaborador do Instituto Brasil-Israel.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.