Literatura israelense,

Leque mundial de cenários

Poeta que recria em hebraico paisagens emocionais, intelectuais e políticas ganhará antologia brasileira

01fev2023 - 04h51 | Edição #66

Depois de ter traduzido para o hebraico dezenas de obras do albanês, do catalão, do estoniano, do finlandês, do grego, do húngaro, do castelhano, do turco e do português — de Fernando Pessoa e seus heterônimos até Herberto Helder e Sophia de Mello Breyner Andresen, de Eça de Queiroz aos brasileiros Jorge Amado, Ronaldo Correia de Brito, Andréa del Fuego e, mais recentemente, Luiz Ruffato (Flores Artificiais) —, o poeta Rami Saari, nascido em 1963 em Petah Tikvá, cidade próxima a Tel Aviv, terá uma antologia lançada no Brasil pela editora paulista Laranja Original: Por baixo dos pés da chuva. A grafia e algumas expressões foram adaptadas ao português brasileiro na edição, sem descaracterizar a estrutura da tradução lusitana, feita por Francisco da Costa Reis, com exceção, aqui, do poema “Grande sertão: veredas”, que verti ao português brasileiro.

Saari, que vive a maior parte do tempo entre os fusos horários de Helsinque e Atenas, é doutor em linguística pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Recebeu em Israel o prêmio Tchernikhovski e o prêmio Primeiro Ministro para Obras Literárias. Sua poesia, rigorosamente escrita em hebraico, e que toca na temática homoerótica, abre um leque mundial de cenários. Ou seja, essa poesia acontece dentro do idioma dos profetas no qual são recriadas paisagens emocionais, intelectuais, artísticas, políticas, bélicas, memorialistas, de um ponto linguístico no Oriente Médio para vivenciar a amplitude do enigma rosiano chamado Grande sertão: veredas.

Poemas de Rami Saari

Tradução de Francisco da Costa Reis

A única democracia (no próximo oriente)
Do livro Quanta, quanta guerra, 2002

Este não vai ser um poema político, companheiros,
porque já não tenho paciência para vos aturar.
Não tenho paciência para caubóis e índios,
para agressores de polícias e para arrancadores de escalpes.
É aqui que temos os mancebos que deveriam
jogar diante de nós? Jogar?! Força 17
com uma carícia de morteiro, e o meu filho querido
brandindo cassetetes e balas?
Que posso eu dizer? O filme é mesmo fascinante,
embora a maioria de nós tenha papéis secundários,
mas ainda não perdemos a esperança de o interpretar
como homens, em cenário grandioso:
comer, tragar e devorar tudo como um fogo vivo,
como um antropomorfismo de Deus, como idólatras
adorando uma meretriz bíblica, uma prostituta de um templo,
um rego na terra, uma cidade de loucos,
e aqui o faroeste instala-se no túmulo dos patriarcas,
no Oriente.

Dinastia
Do livro Homens na encruzilhada, 1991

O meu avô deixou a Polônia em 1937,
ao fugir dos cavaleiros do Mal.
O meu pai deixou a Romênia em 1946,
ao escapar de guerra e frio.
A minha mãe deixou a Argentina em 1961,
ao fugir do grande amor.

E em 1982, deixou-me Petah Tikvá
para viver a Finlândia, a Grécia e a Hungria:
calar-me nas neves, estremecer com os terremotos
e ser arrastado pelo Danúbio até às portas do inferno.
Algo antecedeu tudo isso, mas agora
é tarde demais para clarificar os acontecimentos.
Não obstante o conhecimento das causas
e a compreensão dos motivos –
prosseguirá a frenética viagem. Tal é a sentença:
Ser fugitivo do confronto com os efeitos da negação,
saber que alguma vez vão mudar os exércitos e os regimes,
mas a palavra ficará para sempre –
ficará no anseio pela beleza,
diluir-se-á na recordação do caminho.

E não terei um filho, não nascerá um filho a Caim.
O sêmen de Sem vagueia pelo mundo sem nome,
e o seu corpo é o seu lar.

Albânia
Do livro O livro da vida, 2001

E os mais pobres entre eles
eram mais miseráveis do que os mais pobres,
e nas poucas vezes em que trabalhavam –
sempre ocasionalmente – nunca conseguiam
nem sequer manter-se a si mesmos,
mas levavam a miséria com orgulho,
como uma coroa, como um resplendor
nas cabeças dos santos das igrejas orientais.

Entretanto os seus anos passaram
de uma cama para a outra
numa realidade que parecia
insuportavelmente penosa,
mas agora o tempo aproxima
o arco-íris do extremo do horizonte.

Destino meu, bendizer a todos que uma vez amei.
Tirana, Julho de 1996

Identidade
Do livro Homens na encruzilhada, 1991

Porque quando todos me deixaram,
a língua hebraica ficou comigo.
A grande alucinação das palavras não desistiu,
a perseguição das frases continuou.
E assim não deixo de pisar
os lugares perdidos que a vida me dita:
oscilação de todos os lados, raízes dispersas
em existência vagabunda. O meu único passaporte
persegue-me entre os ouvidos: sou para sempre
cidadão da minha língua.

Esta nossa realidade
Do livro O itinerário da dor valente, 1997

A cintilação da estrela sonha profundamente
consigo mesma dentro da água.
O rosto do mar está agora tranquilo, o rosto do mar é a cara dela.
A ponta da minha tristeza toca as rugas das horas defumadas
da grande poetisa, e a sua dor aguda confia em mim.
Esta nossa realidade consiste em aprender a viver com o presente,
compreender os contrastes do caráter do amor absoluto.
Chega de velhos bosques e os seus olhos de lobo dizem-me:
o silêncio devolver-te-á os teus queridos
nos momentos mais inesperados.
Tu sabes o que fazes e fazes o que queres.
Depois, não te queixes. Todas as tuas palavras escuras
são só lágrimas: um amor de um homem noites a fio,
uma após outra – lágrimas, poemas sobre estrelas ou água,
e profundamente dentro da água o silêncio começa a aclarar-se.

O amuleto da tristeza
Do livro O livro da vida, 2001

Para Ahuva

Recorda-me na tua prece ou refere-te a mim,
enquanto me prendes os dedos e tocas na madeira.
E que Deus, seja Louvado, nos conceda a cura e o remédio
para os aflitos e como elixir de longevidade,
nos dê um menor anelo pela morte.

Pede uma bênção em meu nome,
faz desabar um aguaceiro pegajoso:
o meu corpo se pega à terra,
o meu espírito sopra pelos caminhos.

Tantas vezes
Do livro Quanta, quanta guerra, 2002

Voltei à casa árabe de que gostava
para mergulhar de novo na paisagem da estranheza,
para conhecer a qualidade das consoantes
dessa língua quente que geme.
Vim pelo caminho da lua e da areia
para ficar sozinho como uma nuvem
no céu azul do idioma.

Na casa árabe isolada de que gostava,
assaltou-me o kitsch vindo de todos os cantos
em altos berros, amargos e doces,
que embotaram os meus sentidos como uma droga.

Disseste que não estávamos sós,
que a solidão estava sempre conosco,
e por baixo da imagem da Mãe de Deus,
mostraste, com hesitação, a fotografia da tua noiva:

bela, também com pudor, abrindo-se,
jovial e colorida como uma rubéola.

Descansamos tomando café e sonhos,
voamos em anéis de fumo e boda
e por tanta tristeza em cada lugar,
por tanta riqueza em cada idioma,
a minha própria felicidade, ó língua,
ainda não a encontrei em parte nenhuma.

Konstandinos parte
Do livro Introdução à linguística sexual, 2013

Um pouco antes de partires –
e não és meu filho, nem irmão
nem amigo, nem meu amante,
porém, sendo um pouco mais do que todos eles –
vou prender na minha mão dura a tua mão,
vou prender a tua mão boa que conheceu prazeres
e amarguras e noites de ventania,
porque, mais do que tudo, quero
(ainda, mas não de novo) abraçar-te fortemente,
de tal modo que, pelo menos, por um momento,
nos convertamos na mesma carne e no mesmo sangue
e no mesmo sêmen e na mesma fala.
Mas, contudo, sim, contudo,
vou pegar na tua boa mão
e conduzir-te até à porta,
soltar-te como a uma pomba, Konstandinos,
para o largo mundo:
porque em todos os ventos fortes que te atinjam,
na amargura e no gozo que leves no teu regaço,
meu irmão e meu filho, meu amado e meu amigo,
acompanhar-te-á sempre o meu amor,
talvez preocupado, por vezes impuro,
mas alegre com todas as alegrias que encontrares.
Que os céus por cima de ti, homem, sejam propícios
até ao fim do teu caminho.

Madrugada em Helsinque
Do livro Olha, encontrei a minha casa, 1988

Madrugada nos jardins, nas rochas graníticas,
madrugada nas ilhas, vapor nos bondes.
O bafo das bocas desfaz-se nas ruas despertas.
A lua doente domina as entradas do céu frio
já disposta a desvanecer-se para lá dos bancos encerrados.
Uns amores doridos escorrem para o golfo finlandês
e de lá navegam em direção ao Báltico.
Com um sorriso melancólico apagado pelo sorvete aveludado,
cujo preço, nas bancas da estação ferroviária, confirma
o absurdo das coisas:
a manhã saúda um bêbado que mija na parede.

Grande sertão: veredas
Tradução de Moacir Amâncio

Fundo adentro do livro brasileiro
entre as bravias paisagens do coração
e o árido espaço
que é a vida,
tu és sempre a montanha
sempre atraída e levada pela corrente do rio,
e o sonho flui: onda sobre onda
avante, prossegue no amor poderoso
por alguém cuja própria existência é duvidosa.
Enquanto isso, livre e lúcida,
a voz de todos os mundos
clama no teu mundo.

Essa editoria tem apoio do Instituto Brasil-Israel.

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Quem escreveu esse texto

Moacir Amâncio

Professor titular da USP, é autor de Câmara escuro (Hedra).

Matéria publicada na edição impressa #66 em dezembro de 2022.