Política,

Retornar é preciso

Autora chilena de origem palestina trata da busca de suas origens e analisa a força da linguagem em conflito no Oriente Médio

01dez2019 - 01h00 | Edição #29 dez.19/jan.20

Lina Meruane está em busca de algo. Da origem de seu nome e de seu sobrenome. Da casa da infância. Do vilarejo dos avós, tanto no Chile quanto na Palestina. De lembranças ditas e não ditas.  De uma identidade. Ou de uma desidentidade. De ser e de se tornar algo, alguém, uma causa, uma posição, uma palavra. E, ao buscar algo, depara-se com muito mais. Retorna e torna-se. Tornar-se ou tornar-nos palestina, tornar-se ou tornar-nos a Palestina, tornar-se ou tornar-nos o outro. É mais que um jogo de palavras ou de pronomes. Trata-se de um jogo de empatia, de compreender o outro, os conflitos, as dissonâncias, as diferenças, as assimetrias.

Seu livro, que saiu no Brasil pela Relicário como parte de uma coleção sugestivamente chamada Nos.otras, foi lançado originalmente em 2014, com o título Volverse Palestina, e reúne textos curtos publicados inicialmente em diferentes lugares. A tradução do título para o português perde a sutileza do verbo espanhol, que pode ser entendido tanto como “voltar a algum lugar” como “tornar-se algo ou alguma coisa”. Já a escolha por Palestina em letra maiúscula nas duas línguas deixa subentender que se trata do lugar, do território Palestina, mas também pode ser lido e compreendido como o gentílico, a identidade palestina. Portanto, é uma volta à Palestina, território ancestral, e é uma volta a uma identidade palestina, escondida, apagada, submersa, subterrânea da autora ítalo-chilena-palestina radicada num bairro judaico na cidade mais cosmopolita do mundo: Nova York, onde dá aulas na New York University.

A escolha gráfica da obra chama a atenção ao apresentar páginas pretas para as partes pré-textuais e as pós-textuais; a mesma cor serve também para dividir a primeira e a segunda partes do livro. A primeira, que tem o mesmo nome do título, organiza-se em três seções: “A agonia das coisas”, “O chamado Palestino” e “Palestina em pedaços”. A segunda parte, sem seções, intitula-se “Tornar-nos outros”. Há outros pontos a destacar: a escolha das epígrafes para cada uma dessas partes. Na primeira, a do intelectual de origem palestina Edward Said; na segunda, a do escritor isralense David Grossman. Não se trata de uma opção pela simetria ou de contentar os dois lados. A epígrafe de Said afirma que o destino dos palestinos é terminar num lugar remoto, longe da terra de origem, impedidos de retornar. A autora enfrenta os percalços desse retorno que começa no aeroporto de Londres, mais especificamente na “El Al (que) Não é apenas uma companhia aérea. É Israel”.

A epígrafe de Grossman afirma que uma sociedade em crise cria novos vocabulários, que não descrevem a realidade, mas antes a ocultam. A autora demonstrará, nas páginas seguintes, que de fato o uso da linguagem oculta a realidade e o sofrimento palestinos. No conflito, há dois lados que sofrem, mas até os sofrimentos são desiguais.

Eterno retorno

A primeira parte foca a busca por identidade e se concretiza com a viagem para a Palestina, realizada em 2012. Só que para a autora não há uma certeza do significado e da dimensão dessa volta: “Não sei se voltei”, afirma ela, no que é confrontada por seu anfitrião: “Nunca diga que não volta, Meruane, porque você volta. Volta logo”. A obra é mais do que o retorno para a Palestina, a começar pelos termos de que a autora faz uso para definir esse movimento: retornar, regressar, retroceder, refrescar, recapitular, remendar, ressuscitar, salvar, movimentar, despertar, visitar ou simplesmente voltar.

A questão central é a possibilidade de voltar para um lugar de onde não se partiu efetivamente, mas que ao mesmo tempo é parte de si mesma. E não é apenas um retorno a um determinado lugar; é um retorno, ou uma “incursão”, como afirma Meruane, a um tempo, a uma lembrança, a uma memória, a uma casa — que não existem mais. E que, paradoxalmente, continuam presentes, como um pano de fundo de uma história familiar surdamente compartilhada.

Trata-se, portanto, de muitos retornos. O primeiro deles é o retorno ao Chile, na companhia de seu pai e no amparo de lembranças de uma tia memoriosa, para retomar os passos do avô, voltando ao vilarejo da infância. É também um retorno a um Chile do final do século 19, para onde se dirigiu a “maior comunidade de palestinos fora do mundo árabe”. Há referências aos motivos da partida: a culpabilização dos turcos (quando a Palestina fazia parte do Império Otomano), a perseguição muçulmana aos cristãos e a fuga da prestação do serviço militar.

Há uma descrição do percurso: das aldeias da Cisjordânia para os pés dos Andes, do navio para o trem. De uma imigração espontânea, não subsidiada, pela própria conta e risco. É um périplo, uma aventura, um drama. Também é possível entrever a perda gradativa da língua árabe entre os descendentes, mantida como um código entre os mais velhos, e dos projetos de integração para se tornar “um chileno comum e corrente”, além dos vínculos com a aldeia de origem.

Um retorno emprestado. É assim que Meruane define a sua ida para a Palestina, tomada de empréstimo de seus familiares, que foi instigada por um taxista palestino de Nova York e por um aluno que se assume palestino refugiado. São sinais que a empurram para a “sua terra” e a “de seus ancestrais”, para uma Palestina “alheia e própria”. Retornar e tornar-se Palestina para evitar seu desaparecimento definitivo, não na memória familiar apenas.

O retorno é uma agonia. Uma agonia de compreender o passado e encontrar as duas tias como o frágil elo que une a família com aquela terra e com aquela história; das casas que permanecem fechadas e são a presença de uma ausência; da casa sem chave e da chave sem casa; das oliveiras que teimosamente crescerão e continuarão a dar frutos que ninguém colherá. Símbolos que são a herança do exílio, do qual não é possível retornar. É um retorno em pedaços. Ou um “tipo estranho de turismo: o da dor alheia”, que começa em Jafa, ou Yalo, na casa de seus anfitriões; passa para a Cisjordânia, na casa das tias; continua por Jerusalém, “uma cidade que não é uma, mas muitas”; segue por Gaza, “uma grande prisão ao ar livre”, e por Hebron, “outra cidade dividida”; e pelo checkpoint, que é um “muro móvel”, a marca indistinta da segregação, do assédio, do aprisionamento, do confinamento, da guetização, da impossibilidade de ver o mar e da lembrança contínua de que ali “é Israel”. Há também as escolas alternativas, os ativistas, os intelectuais, os dissidentes, os discursos de integração e de convivência. Há partes, mas não um todo.

Quem é palestino?

É um retorno a uma identidade. Mas qual? Quem é palestino? Os que em 1948 partiram acreditando na possibilidade de um breve retorno; ou os que ficaram para lembrar aos israelenses uma identidade constantemente negada? Os que vivem desde 1967 confinados em Gaza e na Cisjordânia ou os que se refugiaram na vizinhança ou pelo mundo? Como se chamam aqueles que partiram antes, como o avô de Meruane e tantos outros palestinos?

Para a anfitriã da autora, são refugiados, não porque estejam sofrendo essa condição, mas porque devem reivindicar e ter o direito de decidir retornar e ficar. Para o taxista de Nova York, ser palestino é ser refugiado. Para o seu aluno, refugiado é uma condição que reivindica uma identidade. A identidade palestina é uma herança, uma reivindicação, uma nostalgia do regresso, uma forma de identificação: ser de algum vilarejo que já nem existe. A autora não chega a uma conclusão sobre isso, pois, mesmo no final da segunda parte, afirma que “não é verdadeiramente palestina, só um pouco árabe… e outro pouco chilena” e, apesar disso, ela reconhece em suas últimas reflexões que retorno é sinônimo de compromisso, de comprometimento.

A segunda parte do livro também trata do retorno. Em outras quase cem páginas, o ensaio — pois já não se trata mais de memórias ou de relatos da viagem — começa com uma viagem à Palestina feita um ano depois da primeira, mas na qual ela não volta ao vilarejo ancestral. Não é exatamente disso que a autora quer tratar. Há outro retorno: a livros e escritores, a documentários e diretores, a entrevistas e conferências para, a partir das escritas (e das palavras) dos outros, “voltar às questões do passado e às vicissitudes da linguagem que serviu para construir esta história”, de Israel e da Palestina.

No retorno ao passado, que é tão presente, a autora problematiza questões como imperialismo e colonialismo, conquista territorial, o mito da terra desabitada e dos terrenos estéreis que florescerão pelas mãos dos colonos judeus, os velhos discursos de civilização e barbárie, progresso e atraso, sionismo civilizador e nativismo retrógrado, para concluir que Israel é um “empreendimento nacionalista de cunho colonial”, e também uma forma de guetificar os judeus, mas dessa vez longe da Europa.

Silêncio

Inevitável, então, é retornar ao tema do antissemitismo, do Holocausto e da Shoah. Se escrever e testemunhar sobre o horror foi a forma que os sobreviventes judeus encontraram para denunciar a cumplicidade e o silêncio, como também evitar o esquecimento das atrocidades, também é por ele que Israel justifica seus abusos contra os palestinos, fazendo compreender qualquer crítica à sua política como antissemitismo. Seria possível compreender por essa premissa frases como “você já matou um árabe?” ou “árabes na câmara de gás” em Israel?

Se quebrar o silêncio das atrocidades permitiu aos judeus conviver com um tenebroso passado, é pela mordaça do silêncio que Israel proíbe palavras como Nakba, como os palestinos chamam o processo de expulsão das suas terras em 1948 com a criação do Estado de Israel, que significa despejo, sofrimento, represália, retorno impossível. Negar a Nakba, e por consequência o sofrimento palestino, é negar que possa haver duas vítimas, duas dores, dois sofrimentos, ambos legítimos. Mas não simétricos e proporcionais, como querem fazer crer autores como Amós Oz e David Grossman.

São, na verdade, assimétricos e desproporcionais, como denunciam autores israelenses, novos historiadores, objetores de consciência, ex-soldados, movimentos de esquerda, advogados, intelectuais, jornalistas e outras personalidades renomadas, como Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Mario Vargas Llosa, Eric Hobsbawm, Norman Finkelstein, Noah Chomsky (“que não se deixa intimidar”), Ilan Pappé (“um anti-historiador, um dos mais inconformados”) e, claro, Said (“a voz mais resplandecente da diáspora palestina”).

Há também uma discussão sobre o significado e o papel das palavras. Meruane afirma que é preciso chamar “as coisas pelo nome”, “transformar a linguagem” para enfrentar os “malabarismos linguísticos” e reconhecer, como afirma Susan Sontag, que as palavras têm múltiplos significados: paz para Israel é vitória, para a Palestina é derrota; a independência de Israel é a catástrofe dos palestinos; a libertação israelense é a opressão palestina; a ocupação dos “colonos” é a expulsão dos “nativos”. E há mais: o vencedor diz a verdade, o vencido faz propaganda; os israelenses são independentistas, os palestinos são terroristas; os judeus foram perseverantes no desejo do retorno, os palestinos são teimosos em querer voltar; os judeus venceram e os palestinos não aceitam a derrota e o que Israel oferece.

Ainda há a não nomeação, o não uso das palavras. Do lado de Israel, não dizer povo “palestino” e sim “árabe”, para usar um termo genérico e impreciso para dissociar identidade de território e para negar sua existência. Do lado da Palestina, não dizer Israel e sim entidade sionista, para afirmar a intrusão e a artificialidade, o não pertencimento ao lugar. Também é preciso “desnomear” e “renomear” para afirmar e ao mesmo tempo negar a propriedade e o pertencimento: Judeia e Samaria, a terra prometida, em vez do romano Palestina; a Cisjordânia ou West Bank; os territórios ocupados, ou simplesmente territórios. Não tolerar e não dizer a palavra Palestina é parte de um processo de extinção: “Quando a Palestina desaparece como palavra também desaparece como Estado, como país e como pátria”, como afirma o político palestino Marwan Barghouti.

Por fim, deve-se avaliar o que propõe Grossman: tornar-nos outros, num exercício de empatia, carregando o paradoxo de que é possível ser empático com ambos os lados. Cada um terá sua dor, sua história e sua legitimidade, mesmo que assimétricas, e um estará intrinsecamente ligado ao outro. Meruane afirma que Israel é prisioneiro de sua história; mas a Palestina também é. A afirmação de Ami Ayalon, diretor de Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel, de que “a vitória dos palestinos é ver os israelenses sofrerem” encontra eco nas palavras de Mahmoud, um dos meninos palestinos entrevistados pelo diretor B. Z. Goldenberg em Promessas de um novo mundo (2002). Mahmoud afirma com convicção: “Quando explodimos seus ônibus, eles [os israelenses] ficam furiosos”. Essa é a vitória palestina: o fato de Israel e Palestina estarem condenados a sofrer juntos.

Quem escreveu esse texto

Samira Osman

Professora de história da Ásia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), escreveu Imigração árabe 
no Brasil
(Xamã).

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.