Literatura, Literatura infantojuvenil,

Uma heroína disfarçada

Clássica história chinesa sobre a jovem que se vestiu de homem para lutar na guerra é atualizada com discussão feminista

01out2022 - 04h51 | Edição #62


Ilustração de Yu Rong [Divulgação]

Uma das personagens mais populares da literatura chinesa, a jovem Mulan disfarçou-se com roupas masculinas e se juntou ao Exército para livrar seu pai do alistamento na guerra. Adaptações da narrativa sobre Mulan para o cinema colaboraram para a disseminação da lenda por aqui. A personagem, que teria vivido durante a dinastia Wei do Norte (386-535), ficou gravada no cânone chinês a partir de uma canção folclórica. Mais tarde, a balada passou a integrar um compilado de poesias organizado por Guo Maoqian durante a dinastia Song (960-1279). Esse registro poético é que serve de base para a história da heroína recontada pela escritora chinesa Qin Wenjun, publicada no Brasil pela editora Cai-Cai, especializada em literatura de infância não ocidental.

Assim, os leitores brasileiros podem entrar em contato com a versão mais próxima da tradição chinesa, com tradução de Verena Veludo. No Brasil, a história chega sob o título Eu sou Hua Mulan (我是花木兰), o nome completo da heroína. O livro, porém, não se destina somente a crianças. Com belíssimas ilustrações da artista chinesa Yu Rong, que mistura métodos como a milenar técnica de recorte de papel de seda, que remonta à dinastia Han (206 a. c.-220 d. c.), o trabalho é um deleite para os olhos de leitoras e leitores de qualquer idade.

Diante do avanço das discussões ligadas aos direitos das mulheres, Eu sou Hua Mulan! não pode escapar de uma leitura feminista. Afinal, trata-se da história de uma jovem chinesa que, contra todas as convenções sociais, usou o disfarce de soldado para lutar em defesa do seu território e também poupar seu pai doente dos riscos da guerra para a qual ele havia sido convocado. Se não estivesse na guerra, Mulan estaria diante do tear com sua mãe. Todavia, não era somente tecelagem que a jovem sabia. O texto de Qin Wenjun dá conta de mostrar que Mulan aprendeu com seu pai habilidades normalmente reservadas aos homens.

Na guerra, Mulan se tornou um exemplo para outros soldados e protegeu sua identidade por doze anos

A lenda é narrada a partir do tempo presente por uma garotinha que sonha com Mulan. Ela revela que tem um livro sobre a heroína e que o releu inúmeras vezes. Sempre que a voz da garotinha interrompe a narração, o estilo de ilustração é modificado, com desenhos a lápis e sem cores, enquanto as cores dominam os acontecimentos do passado.

Graças ao seu pai, a heroína dominava armas como a espada reta (剑) e a lança (枪), usadas em diferentes artes marciais chinesas. Na obra, seu primeiro retrato é com uma espada em uma mão, enquanto a outra faz o gesto de “mão de espada”, com os dedos indicador e médio juntos e retos, enquanto o anelar e o mínimo estão dobrados, seguros pelo polegar. Ela é retratada também cavalgando e segurando uma lança.


Ilustração de Yu Rong [Divulgação]

Além disso, era exímia cavalgadora e estudava guerras. Por esse motivo, quando seu pai foi convocado para a batalha contra um povo nômade que ameaçava as fronteiras do Norte, a filha o desafiou. “Mulan, com seu talento extraordinário e sua inteligência, surpreendentemente venceu o desafio”, conta a narradora. Assim, a personagem foi autorizada pelo pai a usar o disfarce. Tal gesto de Mulan remete ao conceito de piedade filial, amplamente disseminado na China pela popularização dos pensamentos do filósofo Confúcio (孔子) (551 a.C-479 a.C).

Disfarces

Na guerra, ela se tornou um exemplo para outros soldados e protegeu sua identidade ao longo de doze anos. Se a história de Mulan pode, e deve, ser lida sob uma perspectiva feminista, a lenda chega ao mercado editorial brasileiro em um momento em que outras personagens femininas são valorizadas. Cada uma delas, ao seu modo, usou o recurso do disfarce para ultrapassar barreiras impostas ao gênero feminino.

Falemos da repórter estadunidense Nellie Bly, que, em 1887, aos 23 anos, se disfarçou de “louca” para entrar em um manicômio e assim denunciar os maus-tratos aos quais mulheres pobres eram submetidas — seus textos foram publicados recentemente pelas editoras Ímã, Fósforo e Wish. A mesma Bly, em 1890, deu a volta ao mundo sozinha em 72 dias levando apenas uma mala. Para isso, ela encomendou “um vestido que aguentasse o uso constante por três meses”, revelando a importância e a limitação das vestimentas femininas.

Mas talvez o caso que mais se aproxime do de Mulan seja o da viajante Isabelle Eberhardt, que se vestia como um homem muçulmano e também adotava uma identidade masculina para vagar com liberdade. Os escritos de Eberhardt foram recém-publicados no Brasil pela Fósforo com organização e contextualização minuciosa da editora Paula Carvalho. Eberhardt nasceu em 1877, na Suíça, mas muito jovem aventurou-se por Argélia e Tunísia disfarçada de homem. Assim como na lenda de Mulan, foi ensinada pelo tutor (e provável pai biológico), que a incentivava a desbravar a cidade com roupas masculinas.

Como diz a balada de Mulan, traduzida por Verena Veludo:

Ao erguer um coelho pelas orelhas,
os machos sacodem as patas,
as fêmeas nos olham com tristeza.
Quando os dois correm livres, lado a lado, como distinguir
qual é macho ou qual é fêmea?

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paula Sperb

É jornalista e crítica literária.

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.