Identidades, Literatura infantojuvenil,

Realidade descortinada

Livro recusa o desconforto puritano em falar sobre sexualidade com crianças e as orienta a exercer autonomia sobre o corpo

01out2022 - 04h51 | Edição #62

  
Ilustrações de Veridiana Scarpelli [Divulgação]

Como aceitar o fato de que, todos os dias, quase cem crianças e adolescentes de até catorze anos são abusados sexualmente no Brasil? E que, em 86% dos casos, o agressor é conhecido da vítima? A resposta é simples: não tem como. Não tem como engolir uma realidade tão abominável e amarga; um nó espinhoso fecha a garganta. Não tem como imaginar as dores sentidas por 179.277 jovens brasileiros, de até dezenove anos, que registraram os crimes de estupro que sofreram entre 2017 e 2020. Destes, 80% eram meninas, em sua maioria entre dez e catorze anos.

Os números escancaram a urgência de lidar com o tema. Mas reconhecer sua gravidade é apenas um passo, e há o risco de tamanho pesar e desconsolo nos paralisarem. Assoberbados pelo horror, como agir? Como traduzir o assombro em ações concretas e combativas? A jornalista e editora Denise Natale recusou o conformismo e decidiu criar a partir de sua perplexidade. Ela acionou duas companheiras: a ilustradora Veridiana Scarpelli e a juíza Tatiane Moreira Lima, do Tribunal de Justiça de São Paulo, com larga experiência em casos de violências contra mulheres, crianças e adolescentes. O objetivo era contribuir, por meio de um livro infantil, para a conversa indispensável sobre abuso sexual.

O corpo é meu, ninguém põe a mão mostra a que vem desde o título. Firme em seu propósito, enfrenta o tabu e comprova que desviar a atenção de um problema difícil não é um caminho viável. Abordar o abuso com as crianças é tarefa fundamental para combater a violência e, embora possa soar intimidadora para pais, responsáveis e educadores, é algo que pode ser cumprido com delicadeza e seriedade.

O livro conta a história de Estrela, uma gatinha falante que vive com a família na floresta, ama saltar e deseja vencer os Jogos Olímpicos. Até que conhece Lupi Lantra, raposa que alega ser amigo de seu pai. Sedutor, ele enche a gata de presentes, elogios e atenção e a convence de que quer ser seu amigo. Quando é convidada para ir à sua casa jogar video game em segredo, Estrela fica desconfiada, mas aceita. Que mal o amigo de seu pai poderia fazer? O ritual da sedução a envolve na mais perigosa trama. O passo a passo encenado por Lupi Lantra no abuso da jovem gata é narrado de forma direta pelo texto e pelas ilustrações. Não há meias palavras ou sutilezas que possam gerar incompreensão — a finalidade é educar, eliminando dúvidas e nomeando os sinais de perigo. Por mais angustiante que seja, acompanhamos o primeiro toque repulsivo e indesejado, as ameaças à segurança da família de Estrela e a sequência de visitas cada vez mais aterrorizantes à casa da raposa. É assim que leitores ficarão atentos a semelhanças na vida real.

Cientes da importância de fornecer vocabulário para que as crianças reconheçam situações de abuso, as autoras identificam os sentimentos de Estrela e narram a evolução de seu trauma. O texto é claro ao descrever como a gatinha tem medo, está assustada e envergonhada, quer pedir socorro; e como, em decorrência das violências sofridas, fecha-se em si mesma e para de saltar. Scarpelli traduz visualmente as marcas do abuso em raposas fantasmagóricas, sempre à espreita, que se enrolam ao redor do pescoço e do peito de Estrela. A sincronia de texto e ilustrações mostra como o abuso sexual cria redemoinhos furiosos, capazes de consumir a própria existência da vítima.

Expulsar os fantasmas

Em uma cena poderosa, Estrela expulsa as raposas-fantasma de si ao contar o ocorrido a suas professoras. Desvencilhar-se da relação abusiva e quebrar o ciclo de violência requer coragem, sobretudo em uma sociedade que não aprendeu a escutar sobreviventes e insiste em mecanismos de culpabilização. Crianças nem sempre compreendem o que as incomoda em supostos carinhos. Mas Estrela, graças à atuação de educadores, liberta-se das amarras do segredo e compartilha sua dor. Ela rompe o silêncio forjado pelo abusador que tanto a feria. A denúncia é a ação mais valente: expostos, os fantasmas perdem o domínio sobre ela e a brutalidade da violência sexual pode ser nomeada e revertida.

As armadilhas do agressor criam a ilusão de segurança, instituem um pacto que o protege e manipulam a criança para impedi-la de perceber as transgressões brutais. Toda expectativa de segurança e respeito é estilhaçada pela violação do corpo, pela imposição de uma sexualidade adulta e pelo exercício de um poder ilegítimo que nega, desde o princípio, a sua integridade como um sujeito de direitos. Por isso é imprescindível escutar atenta e abertamente a voz de quem denuncia: ela já foi invalidada pelo agressor. A voz de Estrela é destacada constantemente, e com razão. O trauma não a diminui e tampouco a define — ela é a gata campeã dos jogos da floresta —, mas lhe ensina que pode e deve manifestar o que entende ser errado.

  
Ilustrações de Veridiana Scarpelli [Divulgação]

O livro se abre para duas leituras igualmente importantes: a das crianças, que aprendem a identificar situações de abuso e se munem de ferramentas para se proteger; e a dos adultos, cujo papel para desmantelar as estruturas da violência sexual é inadiável. Não há desconforto puritano em falar sobre sexualidade que justifique a recusa em orientá-las a exercer autonomia sobre o corpo e entender que ninguém pode tocá-las sem consentimento. São lições que valem para toda a vida e combatem a cultura do estupro, num país onde ainda é necessário reiterar que abuso sexual é instrumento da violência de gênero.

Por meio do empenho em falar sobre a realidade da violência, vencendo os tabus que a ocultam, iniciativas como este livro fornecem um material valioso a quem deseja (re)agir, por iniciar e fundamentar um diálogo. E, de quebra, iluminam a ausência de políticas públicas eficazes e a resistência da sociedade em reconhecer como facilita e viabiliza relações abusivas.

As autoras plantam suas sementes em um campo ainda sedento por mais trabalhos que eduquem, exponham, combatam. Há muito a ser ensinado a crianças, adolescentes e adultos sobre consentimento, responsabilização de agressores, redes de proteção e acolhimento, perspectivas de gênero fundadas em olhares antirracistas e antidesigualdades. Mas a esperança é de que, com cada vez mais pessoas dispostas a encarar a realidade, possamos cultivar aquelas sementes para toda criança crescer sem medo. E sabendo que é dona de seu próprio corpo.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Virginia Siqueira Starling

Prepara uma biografia de Zuzu Angel para a Todavia.

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.