Identidades, Literatura infantojuvenil,

Em busca do corpo perfeito: o seu

Livros sobre autoimagem e autoestima reforçam que o mundo precisa mudar para se adaptar às diferenças, e não o contrário

01out2022 - 04h51 | Edição #62


Ilustrações de Li Liu [Divulgação]

Há uma cena já clássica do cinema contemporâneo em que uma garotinha, cabelos longos e loiros, maiô vermelho, olha-se no espelho, encarando a própria silhueta enquanto encolhe a barriga. Aos sete anos, veja só, ela sonha ser miss. Momentos antes, em uma lanchonete, ouvira do pai, cheio de boas intenções, uma advertência sobre pedir um delicioso prato de waffles com sorvete. O homem brada qualquer coisa sobre creme, leite de vaca, gordura do sorvete que se transforma em gordura no corpo, e como as candidatas a Miss América não têm gordura corporal. Ele não é um cara mau, mas acredita piamente que o mundo é mais fácil para as mulheres magras e, bem, quer o melhor para sua filha.

  

O diálogo assustadoramente atual está no filme Pequena Miss Sunshine, de 2006. Anos depois, algo mudou, mas a ideia de que você precisa mudar para se adaptar ao mundo — e não o contrário — permanece. Quem viveu a internet da última década sabe que termos como body positive (a ideia de olhar-se com otimismo), body neutrality (a sugestão de se acolher, independentemente de amar ou odiar o próprio corpo) e body shaming (julgar a aparência alheia, como fez o pai da Miss Sunshine) vêm, vão, ficam, passam. E tentam desesperadamente se embrenhar em mentes e corações de mulheres adultas — aquelas mesmas que cresceram ouvindo que sorvete tem gordura, que gordura não representa beleza e que, de uma hora para outra, precisam esquecer de tudo isso e, plim!, se amar como num passe de mágica.

O folhear de páginas emociona quem se formou a partir de uma narrativa opressora de pressão estética

Katie Crenshaw e Ady Meschke, criadoras de conteúdo resididas em Atlanta, nos Estados Unidos, são fruto dessa internet e escrevem há tempos utilizando as ditas expressões. Também mães, elas sacaram que a conversão de crenças é muito mais difícil do que a educação. Juntas, então, lançaram em 2020 o lindo Meu corpo pode, em que a protagonista, uma menina brilhante, desfila orgulhosamente sua barriga “normal” por aí, mostrando todas as maravilhosas possibilidades de seu corpo.

Correr, pular, girar, dançar.
Ser lindo, forte, gentil e sábio.
Vestir o que quiser, nadar, mergulhar.
Não deixar-se afetar por palavras ruins que pessoas escolhem usar.
Olhar-se no espelho e perceber que é perfeito do jeitinho que é.

O folhear de páginas emociona quem, como as autoras, formou-se em meio a uma narrativa opressora de pressão estética que, no fim das contas, é mais um dos elementos de domínio patriarcal e silenciamento feminino (mas isso é assunto para um outro momento). Em seu perfil no Instagram, Katie compartilhou o processo de criação do texto: “Trabalhamos ao lado de nossa editora na escolha de cada palavra, cada mensagem, cada sílaba”, escreveu. O cuidado com leitores tão importantes, em fase de formação, foi mantido na tradução para o português feita pela jornalista Alexandra Gurgel, escritora, criadora de conteúdo e ativista do Movimento Corpo Livre.

Empatia

Livre. Liberdade. Família de palavrinhas danadas, tão desejadas, tão afogadas. Esta que vos escreve afirma, como filha e como mãe: somos tolhidos e tolhemos assim, sem perceber, para, de novo, tentar caber no ideal que o mundo espera de nós, dos nossos adolescentes, das nossas crianças, dos nossos bebês. Quão tarde entendemos que a única saída é ser exatamente o que somos? Se depender dos autores Pedroca Monteiro e Daniel Kondo, essa percepção, amém, pode chegar mais cedo. Eles lançam o título Ser o que se é, que redesenha rótulos e constrói a autoestima sem egoísmo ao sugerir um olhar empático sobre o outro.


Ilustrações de Daniel Kondo [Divulgação]

A partir de ilustrações coloridíssimas, o livro traça um percurso que começa com o questionamento do que é ser “bom” em algo. Um craque no futebol, por exemplo? É quem sente o corpo flutuar ao entrar em campo, oras! Um melhor amigo? É aquele com quem você não quer parar de conversar até o sol raiar. Depois, o trajeto segue para uma parte interativa, em que o jovem leitor pode, ele mesmo, definir o que cada personagem sonha/ama/adora fazer — lembrando que tudo pode mudar a qualquer momento.

Por fim, a narrativa apresenta pequenos perfis de gente que curte uma coisa e é amigo de quem curte outra. Como o Ivan, que gosta de cozinhar e também de ouvir as histórias do Miguel, um narrador de primeira, que é apaixonado por descobrir mais sobre a fixação de Ana Paula por ciência. Uma espécie de “Carlos que amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha”, agora em versão amor próprio e respeito às diferenças, aos corpos, aos espelhos, aos sorvetes.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Giovana Romani

É jornalista

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.