Literatura estrangeira,

Conrad e a origem do mal

Em nova tradução, "Coração das trevas" mostra a terrível atualidade da obra clássica

01set2019 - 01h15 | Edição #26 set.2019

Em 1890, Joseph Conrad, então com 32 anos, empregado em uma firma belga de extração de marfim, capitaneou uma embarcação pelo rio Congo — uma experiência que deixou marcas definitivas em sua vida, tendo inspirado, quase dez anos depois, a redação de Coração das trevas. O romance está agora disponível com nova tradução de Paulo Schiller, em uma belíssima edição que inclui imagens da artista plástica Rosângela Rennó.

Conrad nasceu em 1857, em uma família polonesa na atual Ucrânia, à época anexada ao Império Russo. O escritor acompanhou, ao longo da vida, o movimento independentista na Polônia, que só teve sucesso no final da Primeira Guerra Mundial. O contato com uma forma europeia de imperialismo, o pan-eslavismo, deve ter aguçado sua sensibilidade para identificar os males da experiência colonial em um sentido bem mais amplo.

Tornou-se muito cedo órfão de pai e mãe, sendo entregue aos cuidados de um tio materno, e, já adolescente, ansiava por ir trabalhar no mar, a bordo de algum navio. Em Coração das trevas, Charles Marlow, o narrador, que navega rio acima em busca do enigmático Kurtz, relembra seu fascínio infantil pelos mapas, especialmente o da África, em que aparecia o grande rio Congo, descrito como “uma cobra imensa desenrolada, com a cabeça no mar, o corpo em repouso curvando-se para longe sobre um país vasto e a cauda perdida nas profundezas do território”.

Conrad foi, primeiro, para Marselha, na França, e, em seguida, alistou-se na Marinha mercante inglesa, onde serviu por quinze anos. Ao todo, passou no mar dezenove anos de sua vida. Com certeza, ele só pôde escrever sua obra tendo vivido esse longo período nos mares do Oriente e da África, durante o qual amadureceu uma visão crítica do empreendimento colonial europeu.

Impossível não se impressionar com algumas cenas do livro, como a de uma longa fila de negros portando coleiras de ferro e unidos por correntes que tilintavam ritmicamente, ou a de uma praia do rio Congo para onde iam morrer os infelizes trabalhadores da construção de uma ferrovia, que “não eram inimigos, não eram criminosos, não eram nada de terreno àquela hora — nada a não ser sombras negras de doença e de fome”, ou com a descrição da casa do monstruoso Kurtz, que tinha à sua volta estacas com cabeças de locais espetadas. É difícil não se indignar com a exclamação de um empregado branco da Sociedade Internacional para a Supressão de Costumes Selvagens, ao ver um homem negro depois de surrado: “Que barulheira faz o bruto!”.


Imagem de Rosângela Rennó para a edição da Ubu

Marcas da maldade

Coração das trevas contém muito mais que o relato e a condenação sumária da ocupação belga da região chamada pelo rei Leopoldo 2º de Estado Independente do Congo — que hoje corresponde à República Democrática do Congo —, oficializada em 1885 com a Conferência de Berlim.

A interrogação formulada no livro sobre o que é o mal está presente em todas as culturas e em todos os tempos. Os filósofos não foram os únicos a se perguntarem se o mal teria uma natureza própria, podendo ser encarnado em certas entidades. Nesse caso, compreende-se que Kurtz pudesse ser adorado pela população nativa e presidisse “certas danças da meia-noite que terminavam em ritos indizíveis”. Na mesma linha, também caberia perguntar se o mal poderia ser exorcizado por meio de sacrifícios, inclusive pelo canibalismo praticado pela população nativa, como indica o romance.

Já em outra direção, Conrad indaga se o mal teria uma dimensão profunda, algo da ordem das paixões primitivas, como seu contemporâneo Freud também sugeriu. Assim, a crueldade seria um dado da vida humana em geral, e Marlow tem que reconhecer, afinal, com alguma perplexidade, que os supostos “civilizados” e os ditos “selvagens” podem não ser idênticos, mas guardam parentesco entre si. O coração das trevas seria o de cada um de nós. A ideia de que o mal está potencialmente presente em todo homem explica que se possa avançar ou recuar em sua prática. A diferença entre Marlow e Kurtz é que o primeiro teve a chance de recuar, ao passo que o segundo transpôs o abismo.

Por outro viés, o romance associa o mal à loucura. Uma passagem muito comentada é a da leitura por Marlow de um relatório feito por Kurtz para orientar a política da empresa exploradora para a qual trabalhava. Dezessete páginas, ainda que excessivamente emotivas, trazem instruções relevantes para a vida dos europeus na África. A elas foi acrescentado um espantoso adendo: “Exterminem todos os brutos”. O pós-escrito teria sido incorporado tempos depois da redação do relatório, quando os nervos de Kurtz já tinham se deteriorado e ele perdera a razão.

Coração das trevas traz ainda a discussão sobre o caráter social do mal, tanto o que era praticado pelos exploradores europeus quanto pelos nativos. Uma sociologia implícita no livro sugere que aqueles considerados selvagens seriam cruéis porque ainda se encontravam em um estágio primitivo de civilização. Já a maldade dos brancos viria do fato de estarem envolvidos no empreendimento colonial.

A tese relativa à dimensão social do mal tem, primeiramente, um alcance curto, ao levar em conta apenas o ambiente presente vivido pelos personagens no coração das trevas. Mas ela tem também um alcance longo, ao questionar o próprio padrão civilizador europeu. Esse é, com efeito, o propósito do livro.

O horror

No debate recente sobre o pós-colonialismo, Coração das trevas foi acusado de ser racista e preconceituoso no tratamento dos negros. No entanto, a acusação não compromete o núcleo argumentativo do livro. Sim, é possível encontrar passagens chamando os personagens negros de “selvagens” e “canibais”. Era o vocabulário da época. Mas Conrad, de fato, é um crítico do imperialismo. Coração das trevas põe em questão o processo civilizador europeu em seu todo. Como explicar que as crenças, os valores e as realizações que os europeus pretendiam exportar para suas colônias tenham se esfacelado apenas com uma mudança de lugar? Só mesmo a superficialidade da empreitada, o fato de ser apenas um verniz a recobrir um fundo de violência, explica o enorme fracasso.

Algumas passagens manifestam pontualmente essa posição. Uma primeira aproxima a colonização da África pelos belgas e a invasão do território que hoje forma a Grã-Bretanha pelos romanos, na Antiguidade. Nos dois casos, isto é, no início e no ponto de chegada da história do Ocidente, não se veem civilizadores, mas conquistadores que usam apenas a força bruta. Nos dois casos trata-se de simples roubo violento, de homicídio qualificado em grande escala, com o propósito de tirar a terra daqueles que têm a pele diferente ou o nariz um pouco mais achatado. Em outra passagem, o cenário de Londres é estranhamente qualificado. Ao pôr do sol, descortina-se o lugar da cidade monstruosa que se delineava ameaçador no céu. E Marlow observa: este também tem sido um dos lugares tenebrosos da Terra.

Conrad é um escritor pessimista. Para ele, a vida é uma coisa engraçada, apenas “o arranjo misterioso de uma lógica impiedosa por um propósito fútil.” O máximo que podemos esperar dela é um conhecimento acerca de nós mesmos, que pode chegar tarde, ou, pior ainda, se resumir às palavras de Kurtz ao morrer: “O horror, o horror!”. Mas esse conhecimento pode também se traduzir em um livro brilhante como Coração das trevas.

O autor faz parte de um conjunto de pensadores que inclui Nietzsche e Freud, entre outros, que, na virada do século 19 para o 20, levou a cabo o processo da civilização ocidental. Lidos hoje, seus livros mostram uma terrível atualidade.

Quem escreveu esse texto

Eduardo Jardim

Professor de filosofia, é autor de A doença e o tempo: aids, uma história de todos nós (Bazar do Tempo) e de Eu sou trezentos: Mário de Andrade, vida e obra (Edições de Janeiro).

Matéria publicada na edição impressa #26 set.2019 em agosto de 2019.