O jornalista Conrado Corsalette (Divulgação)

Jornalismo,

Morre o jornalista Conrado Corsalette

Fundador do Nexo Jornal e autor de Uma crise chamada Brasil, o editor morreu nesta quinta, aos 47 anos

08jan2026

O jornalista Conrado Corsalette, que passou por alguns dos principais veículos da imprensa brasileira e foi um dos fundadores do Nexo Jornal, morreu em São Paulo nesta quinta-feira (8), aos 47 anos. Especializado na cobertura política, ele atuava como secretário de redação adjunto do Poder360 desde fevereiro de 2025.

A partir da proximidade com a política nacional e da análise de seus impactos na vida social brasileira, Corsalette publicou, em 2023, Uma crise chamada Brasil: a quebra da Nova República e a erupção da extrema direita (Fósforo), no qual elenca e interpreta as pautas que movimentaram o país desde as chamadas Jornadas de Junho, em 2013. No livro, ainda relaciona a ascensão de Jair Bolsonaro à quebra dos consensos que deram origem à Constituição de 1988.

Jornalistas que trabalharam com Corsalette lembraram da sua atuação na cobertura política e da generosidade do jornalista. “Conrado era um dos mais brilhantes jornalistas de sua geração. Admirado e querido por todos. Um profissional que tinha grande perspicácia para entender o que era uma notícia e como fazer bom jornalismo profissional. Uma pessoa de caráter, era generoso com os mais jovens e demonstrava grande paixão pela profissão”, escreveu o jornalista Fernando Rodrigues, diretor de redação do Poder360, em uma rede social.

Paulo Werneck, diretor de redação da Quatro Cinco Um, também lembrou da amizade com Corsalette. “Conrado foi um excelente jornalista. Conviver com ele como amigo e na redação da Folha de S. Paulo me ajudou a entender a política e o jornalismo sem mistificações. Marcou o jornalismo brasileiro como criador e diretor do Nexo, veículo necessário que fica como um legado público. Todos os que conviveram com ele vão sentir uma falta enorme de sua generosidade e sua amizade sempre vibrante”, disse.

Renata Lo Prete, âncora do Jornal da Globo e colega de Corsalette na coluna Painel, da Folha, afirmou que o jornalista era “o mais doce e afetuoso dos paineleiros”, e que com ele aprendeu que o ofício de jornalista “não precisa de mal-querer nem de agressividade para ser bem feito, mas de humildade, humanismo e respeito aos fatos e às pessoas”, escreveu numa rede social.

Também colega de Corsalette dos tempos de Folha, a jornalista Vera Magalhães, colunista de O Globo, destacou que o amigo “deixou por aqui foi só amor e admiração. Que seguirão.”

Corsalette era pai de duas meninas, Dora, de 11 anos, e Antonia, de 13, e deixa ainda a ex-companheira Julia, a mãe e seus dois irmãos. O jornalista era ainda primo do poeta e escritor Fabrício Corsaletti, autor de livros como Engenheiro fantasma (Companhia das Letras), vencedor do prêmio Jabuti em 2023, e Um milhão de ruas: crônicas 2010-2025 (Editora 34).

Trajetória

Nascido no interior paulista, na cidade de Santo Anastácio, em 1978, Corsalette começou a trabalhar no jornalismo profissional como repórter no jornal Agora São Paulo, do Grupo Folha, no fim da década de 90. Pouco tempo depois, passou a trabalhar em O Estado de S. Paulo, cobrindo o noticiário local e político. Em 2004, foi para a Folha de S. Paulo, onde atuou, ao longo de quase dez anos, como repórter e editor e foi responsável pela coluna Painel, dedicada aos bastidores da política nacional.

Depois de um breve retorno ao Estadão, passou a se dedicar à criação do Nexo Jornal, idealizado ao lado da antropóloga Paula Miraglia e da economista Renata Rizzi. A publicação digital, com projeto de veicular notícias e análises altamente contextualizadas, entrou no ar em 2015.

Corsalette permaneceu no Nexo por quase uma década, comandando a redação do veículo como editor chefe. Deixou o veículo para assumir o cargo de secretário de redação adjunto do Poder360, onde completaria um ano em fevereiro.

Colaborações

Colaborador de primeira hora da Quatro Cinco Um, em 2018 Corsalette resenhou o infantojuvenil Eleição dos bichos (Companhia das Letrinhas).

No texto, o jornalista mostra como a narrativa de André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun explora a democracia e as eleições diretas como solução para os bichos de uma selva totalitária. Corsalette ainda traça um paralelo com o clássico de George Orwell, A revolução dos bichos (reeditado em 2020 pela Companhia das Letras com o título A fazenda dos animais), uma alegoria sobre corrupção e traição dos ideais comunistas durante o regime stalinista na União Soviética.

Em 2023, seu livro Uma crise chamada Brasil foi resenhado pelo jornalista Fábio Silvestre Cardoso. “Corsalette se sai muito bem diante da tarefa hercúlea de analisar o fenômeno das Jornadas de Junho de 2013. O autor faz a lição de casa ao resgatar a ebulição de protestos em outras partes do mundo, como a Primavera Árabe (2011) e o Occuppy Wall Street (2011), além de mencionar a Marcha da Maconha, evento que pode parecer pouco importante, mas, para ele, é parte de algo maior, como reforça ao destacar o papel das mídias digitais como elemento aglutinador”, escreveu Cardoso.

No mesmo ano, em junho, Corsalette participou da segunda edição d’A Feira do Livro, discutindo a erosão da política brasileira e da democracia na última década, ao lado de Natalia Viana, diretora executiva da Agência Pública. “Como sociedade, temos que resgatar a importância da política. A alternativa à política é a ditadura ou a guerra”, disse o jornalista na ocasião.

Na mesma edição do festival literário, Corsalette também foi o mediador da mesa “O caminho da autocracia”, com a participação dos pesquisadores do Laut (Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo) Fernando Romani Sales, Mariana Celano de Souza Amaral e Marina Slhessarenko Barreto.