Infantojuvenil,

Leitores de carteirinha: maio de 2020

Frequentadores da bibliotecas Caminhos da Leitura (SP), Ponto de Leitura Sol e Lua (RS) e Biblioteca Comunitária Quilombo e Campinho (RJ) escolhem e resenham livros

01maio2020 - 01h00 | Edição #33 mai.2020

João, 17
Paraty (RJ)

Tomi Adeyemi. Filhos de sangue e osso.
Tradução de Petê Rissati
Fantástica Rocco • 560 pp • R$ 59,90

Filhos de sangue e osso é um livro que fala sobre mitologia iorubá pela estória de Zélie Adebola. A narrativa se passa em um vilarejo fictício na África, e tudo começa quando o rei Saran manda matar todos os “maji” (pessoas com poderes mágicos dados pelos deuses), que mesmo possuindo o àse (energia vital responsável pela ligação de seres humanos e deuses) foram massacrados pelos soldados do rei. Uma das vítimas foi a mãe de Zélie. Onze anos depois, a magia sumiu do mundo. O àse já não existia mais, a ligação que os maji possuíam com os deuses foi destruída, os que sobreviveram foram escravizados. Os maji eram descobertos por seus cabelos brancos. Esse livro mostra, pela fantasia, como foi a colonização.

Achei bem interessante que ele mostra uma deusa criadora e não um deus como na maioria das mitologias em que o patriarcado é tão forte. Poder ler um livro que se passa na África, protagonizado e escrito por mulheres negras, é muito forte, diz muito sobre aquilo em que eu acredito. A obra é um ganho para a sociedade, principalmente para a brasileira, que carrega em si não somente o racismo, mas o preconceito como um todo. É uma história que fala sobre lutas e superações, sobre vencer seus próprios medos e lutar não apenas por si, mas pelo coletivo. A obra nos ensina que, mesmo quando nos tiram tudo, não podem destruir nossa força para lutar e recuperar o que nos foi tirado.

Hyago, 18
Porto Alegre (RS)

Atena Beauvoir Roveda.
Contos transantropológicos.

Taverna • 176 pp • R$ 49,90

Por ser a primeira resenha de minha autoria, é um grande desafio escrever sobre Contos transantropológicos. Trata-se de uma obra com extrema importância pela abundância de sabedoria que transmite ao leitor. Nascida em Porto Alegre, Atena Beauvoir Roveda é escritora, poeta, professora e filósofa, além de integrante da Rede Nacional de Pessoas Trans (Rede Trans Brasil). No decorrer da leitura, vivenciei um misto de sentimentos. Sem dúvida, é das obras mais instigantes que já li. Atena traz, em seus contos, relatos do cotidiano de transexuais e travestis em meio à sociedade machista, homofóbica e transfóbica do Brasil.

Ler literatura abre caminhos de conhecimento e possibilita sentir empatia. Sendo ou não biográficos, os contos nos permitem praticar essa empatia através dos relatos de existência, resistência, dor e sofrimento de seus personagens.

Um dos pontos que me deixaram inquieto é que costumamos romantizar a ideia de lar como o lugar mais seguro. Com base nos contos, consigo supor que essa não é uma realidade na vida de indivíduos lgbtq+. O conto “Maria Cicatrizada” traz a narrativa de uma garota travesti de quinze anos que foi rejeitada por sua família ao existir como Maria. Violentada fisicamente pelo pai, abusada sexualmente por primos e moralmente por sua tia, Maria vai para a rua. Ela só queria ser Maria, queria existir, mas não resistiu: não está mais aqui.

Composto de 31 contos, o livro se define como uma relíquia para a literatura. Gostaria de ressaltar que esses contos não são destinados a um grupo específico da sociedade, e sim para todos, principalmente para cisgêneros. Que todos consigam ler e visualizar esses relatos com olhos de amor para que possamos nos permitir ser pessoas melhores. João Anzanello Carrascoza &

Vanessa, 18
São Paulo (SP)

João Anzanello Carrascoza & Juliana Monteiro Carrascoza.
Catálogo de perdas.

Sesi-sp • 176 pp • R$ 55

Catálogo de perdas é um livro composto de contos de João Anzanello Carrascoza e fotografias de Juliana Monteiro Carrascoza. Na “Exposição de motivos”, que abre o livro, os autores informam que a obra “reúne relatos de perda simbolizada sempre por um objeto e também representada em fotografia — registro visual da relação partida. Nossa pequena contribuição para o imenso museu de dores que é a história da humanidade”.

Os contos foram organizados em ordem alfabética e apresentam descrições e dados de indivíduos, objetos ou outras coisas que têm algum tipo de vínculo entre si, formando um catálogo. Inspirados no acervo do Museu de Relacionamentos Perdidos (Zagreb, Cróacia), que reúne em exposições temporárias relatos e objetos enviados por pessoas do mundo inteiro, os autores realizaram uma elaboração literária de histórias e objetos de memórias que tratam das muitas e diferentes perdas que a vida nos obriga a ter. As imagens e os textos fazem uma ligação entre a ficção e a fotografia. Afinal, como nos lembra Ana Maria Gonçalves: “A memória é o mais generoso dos retratistas’’.

Os leitores que se abrirem para o livro vão se emocionar, porque os contos acabam se encontrando com algum acontecimento ou história de nossas vidas e das vidas de tantas pessoas conhecidas.

Estes textos foram realizados com o apoio do Itaú Social

Matéria publicada na edição impressa #33 mai.2020 em abril de 2020.