Infantojuvenil,

Leitores de carteirinha: abril de 2020

Em parceria com o Itaú Social, publicamos resenhas de livros escolhidos por jovens que frequentam bibliotecas comunitárias

01abr2020 - 01h04 | Edição #32 abr.2020

A Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) é um dos projetos mais importantes de articulação entre leitores e bibliotecas no Brasil. Publicamos aqui resenhas de livros escolhidos por jovens que frequentam a Biblioteca Comunitária Cantinho dos Sonhos (MG),  Espaço Cultural Nossa Biblioteca (PA) e Biblioteca Comunitária Sandra Martini (BA). Contamos com eles para manter acesa a chama da leitura! Conheça e saiba como apoiar a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias no site rnbc.org.br

Vitória, 17
Betim, MG

Conceição Evaristo. Becos da memória.
Pallas • 200 pp • R$ 39

“Escrevo como uma homenagem póstuma à vó Rita, que dormia embolada com ela, a ela que nunca consegui ver plenamente, aos bêbados, às putas, aos malandros, às crianças vadias que habitam os becos da minha memória. Homenagem póstuma às lavadeiras, que madrugavam os varais com roupas ao sol. Às pernas cansadas, suadas, negras, aloiradas de poeira do campo aberto onde aconteciam os festivais de bola da favela.”

Maria Nova é quem conta com mais detalhes a história desse livro. São as memórias da sua infância, os relatos da pobreza em que nasceu e de um povo que não conhece nada mais que cansaço, miséria, abandono, morte e sofrimento. Quando comecei a ler esse livro, me joguei de cabeça e passei por tudo que os personagens passaram. Chorei suas lágrimas, senti as dores e a fome que sofreram e sorri os poucos sorrisos que tiveram. Eu era Maria Nova, vó Rita, Bondade, Tio Totó, Mãe Joana, Maria Velha, Negro Alírio, Cidinha Cidoca, a Outra… Eu vivi todas essas vidas só por ler esse livro. Meu coração gritou pelo meu povo e sangrou por ele. E quando tudo acabou, eu soube que “homens, mulheres, crianças, que se amontoaram dentro de mim, como amontoados eram os barracos da minha favela”, sempre existiram no meu coração.

Foi a primeira vez que li Conceição Evaristo e já adicionei seus livros à minha lista de leituras. Essa obra abriu meus olhos para aqueles que estão na luta de cada dia.

Andrey, 15
Belém, PA

Anne Frank. O diário de Anne Frank.
Tradução de Alves Calado
Record • 352 pp • R$ 49,90/22,90

O diário de Anne Frank foi escrito pela própria Anne, uma menina alemã de treze anos que, por ser judia, sofreu nas mãos do nazismo. No livro, ela conta como foi a sua dolorosa trajetória de vida durante a ascensão de Hitler e o crescimento do antissemitismo. Anne começa o diário como toda menina: revela um pouco sobre os amigos e a escola, fala dos garotos — que está começando a olhar de uma forma diferente — e dos seus problemas — que depois consideraria fúteis. 

Nascida na Alemanha, ela se mudou para a Holanda, logo que os nazistas dominaram seu país natal. Mas isso só dura aproximadamente dez páginas do diário, pois a Alemanha invade a Holanda, trazendo problemas. Assim, Anne, sua família e outros judeus, além do dentista Fritz, ficam escondidos em uma sala claustrofóbica atrás de uma prateleira do armazém em que seu pai trabalhava. Ali, ela passa dois anos horríveis, vivendo com medo e em condições precárias. 

Ela relata minuciosamente como era grande a esperança de que um dia aquilo tudo acabaria para poder publicar seu tão sonhado livro. Apesar de viver naquela época e de ser jovem, ela tem uma mentalidade extremamente evoluída e uma cabeça à frente do seu tempo. Ela questiona claramente isso no livro: “Por que se gastam milhões com guerras a cada dia enquanto não existe um centavo para a ciência médica, para os artistas e para os pobres?”.

Após momentos de aflição e angústia, agentes da polícia secreta encontram o esconderijo e levam Anne e sua família para os campos de concentração. O pai dela, Otto Frank, foi o único daquele grupo a sobreviver — Anne morreu em um campo de concentração, em 1945 —, e então fez de tudo para que o diário da filha fosse publicado, realizando assim o sonho dela de ser escritora.

Mailane, 17
Salvador, BA

Lima Barreto. Triste fim
de Policarpo Quaresma.

Ciranda Cultural
160 pp • esgotado

Policarpo era visto como um vagabundo pela vizinhança, pois tocar violão não era um hábito bem-visto pela sociedade. Ele tinha amor pelos livros e um patriotismo exaltado, diferentemente dos outros, que pensavam em viajar para a Europa. O major Quaresma decidiu estudar os costumes tupis-guaranis após descobrir que quase todas as tradições eram estrangeiras. Insistia que o tupi-guarani deveria ser o idioma do país, pois a língua portuguesa foi emprestada aos brasileiros. 

Fiquei extremamente indignada quando Quaresma foi considerado louco e mandado para o hospício só por lutar por aquilo em que acreditava. Ao sair de lá, Quaresma compra um sítio, onde se dedica à agricultura. No entanto, suas plantações são invadidas por formigas, quando recebe a visita do tenente Dutra pedindo apoio nas eleições, o que Policarpo nega. A partir daí, os políticos da regição fazem de tudo para prejudicar o sítio, cobrando taxas e impostos antes inexistentes. Nota-se que tais encargos foram utilizados como instrumento para torturar e oprimir a população. Ao final, Quaresma acaba sendo acusado de traição e condenado ao fuzilamento pelo marechal Floriano. 

Fiquei chateada com o desfecho da história, mas, por outro lado, fiquei feliz por ter lido esse livro. Pensei que seria interessante que o tupi-guarani fosse ensinado nas escolas como forma de resgatar nossa identidade.

Estes textos foram realizados com o apoio do Itaú Social

Matéria publicada na edição impressa #32 abr.2020 em março de 2020.