Infantojuvenil,

História sem fim

Livro de Mario Vargas Llosa reconta na voz de um velho o trágico episódio da cruzada das crianças

01out2019 - 01h25 | Edição #27 out.2019

A cena é conhecida — está em livros, filmes, na vida real. Pode variar o cenário, mas o ritual persiste: alguém conta uma história, uma criança a ouve. A voz percorre um espaço curto e desvela um mundo longo e paralelo que o adulto e a criança compõem juntos em sua imaginação para nele viverem pelos minutos que a cena dura e pela lembrança que deixa — por dias, meses, pela vida inteira.

Quando vivemos essa lembrança, nos embriagamos com a ternura da situação; quando olhamos a cena de fora, enxergamos a necessidade da ficção, percebemos que nenhuma fabulação é fuga da realidade, e sim estratégia para esboçar nossos caminhos no mundo. Aprendemos que pela imaginação é possível ultrapassar a superfície rígida do real e alcançar compreensões morais e sentimentais, entender a complexidade das relações pessoais, a urgência dos sentimentos, a ambiguidade da razão. Em parte por isso, contar e ler histórias para crianças é também formar leitores: o convívio com livros ensina como é restrita e insuficiente a vida longe deles.

É quase inevitável pensar na beleza do aprendizado da leitura e na tristeza de uma infância afastada dos livros ao percorrer O barco das crianças, segundo livro infantil de Mario Vargas Llosa. O primeiro se chama Fonchito e a Lua, saiu em 2010 — a edição brasileira, pela Objetiva/Grupo Companhia das Letras, é de 2011 — e traz ilustrações de Marta Chicote Juiz. O barco das crianças foi publicado originalmente em 2014 e saiu no Brasil em 2016. Os dois livros foram traduzidos de forma cuidadosa por Paulina Wacht e Ari Roitman e fazem parte de coleções organizadas no exterior por escritores preocupados com a formação de jovens leitores: Fonchito e a Lua compõe uma série dirigida pelo espanhol Arturo Pérez-Reverte e O barco das crianças está na Save the Story, coordenada pelo italiano Alessandro Baricco. 

O real — e isso as crianças sabem melhor que os adultos — é um tecido de secretas afinidades, produzido com fios da verdade e da fantasia

Fonchito — personagem saído de um romance adulto de Vargas Llosa, Os cadernos de dom Rigoberto (Companhia das Letras), de 2009 — é o protagonista de ambas as histórias. Na primeira, ele tenta alcançar a Lua para oferecê-la a uma menina. Em O barco das crianças, senta-se diariamente diante do mar, ao lado de um velho, ouvindo-o contar a história da cruzada das crianças. Logo na abertura do volume, uma epígrafe de Marcel Schwob (autor de A cruzada das crianças, de 1896) introduz o tema para o leitor e antecipa o jogo entre ficção, mito e história que se desenrola nas páginas a seguir.

O velho é algo irreal, fantasmático na descrição do texto e nas ilustrações fortes e delicadas da polonesa Zuzanna Celej. Apresentado quase sempre de costas ou de perfil, ele fala como se houvesse participado da mobilização que, em 1212, teria levado crianças a se dirigirem a Jerusalém para tirar a cidade do domínio muçulmano. Não importa se a cruzada de fato aconteceu ou parece ser uma mistura de lendas e eventos desconectados que a imaginação medieval e a contemporânea transformaram em experiência histórica: o real — e isso as crianças sabem melhor que os adultos — é um tecido de secretas afinidades, produzido com fios da verdade e da fantasia. Também por isso o relato do velho é tão tocante, e as imagens acompanham seu desvario, ora imergindo entre baleias e sereias na profundeza do mar, ora revelando a crueza do destino trágico das crianças.

Vida que segue

O velho espera o retorno de um dos barcos, crédulo qual Peter Pan de que crianças podem evitar a passagem do tempo. A cada dia, sua história ganha um novo capítulo, e Fonchito se enreda na doce armadilha de um conto que, originário da tradição oral, ganha sempre um ponto a mais, desdobra-se em outra história, prossegue na busca de um significado mais amplo, capaz de transcender o banco onde os personagens se encontram e o tempo em que supõem viver; uma história que recorre a crianças do século 13 para falar de todas as crianças, de sua formação e da maneira tortuosa como reconhecem o mundo.

A história recorre a crianças do século 13 para falar de todas as crianças, de sua formação e da maneira tortuosa como reconhecem o mundo

A história do livro uma hora termina. Mas a vida prossegue e o relato continua dentro de nós. Jorge Luis Borges, num de seus poemas mais candentes, lembrou que as leituras são ubíquas e nos acompanham para além da paisagem real ou metafórica em que as escutamos. Não por acaso, o velho do conto de Vargas Llosa alerta Fonchito quando nota o temor do menino de que a história acabasse: “Não se preocupe. A vida e, principalmente, os livros estão cheios de histórias maravilhosas. Você pode lê-las e, se forem bem contadas, é exatamente como se as vivesse” — e é preciso vivê-las tanto naquele instante em que estamos prontos para dormir e, deitados, ouvimos as histórias que nos contam quanto no momento seguinte, ao nos sentarmos na beira da cama para ler para uma criança.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Julio Pimentel Pinto

Professor de história da USP, é autor de A pista & a razão: uma história fragmentária da narrativa policial (Peixe-elétrico Ensaios).

Matéria publicada na edição impressa #27 out.2019 em setembro de 2019.