Infantojuvenil,

Frágil, feio, aflito — e fascinante

História da cor solitária e triste nos ensina sobre a integração e a diferença, a subjetividade e a melancolia

01set2019 - 01h05 | Edição #26 set.2019

Flicts é um fluido e fascinante herói da literatura infantil brasileira que chega aos cinquenta anos com uma bem cuidada edição comemorativa. Fundamente ancorado no tempo histórico em que foi concebido — a chegada do homem à Lua —, o clássico de Ziraldo é quase um livro de circunstância, nascido de improviso, num pacote contratual para viabilizar a publicação de outro livro, Jeremias, o bom

Lendo Flicts aprendemos sobre forma e cor, na arte e na ciência; sobre subjetividade e melancolia, sobre integração e diferença, sobre a política da época e a de sempre; sobre ciência e tecnologia; sobre poesia visual e poesia verbal, e também algo que poderíamos chamar de prosa visual.

Espaço narrativo

O espaço narrativo é quadrado e se estrutura com poucos elementos, repetidos com pequenas variações que ao mesmo tempo estrututram a página e conferem tensão à narrativa. As massas de cores se deslocam e ora dão forma ao horizonte, ora ao mar, ora ao espaço arquitetônico; oscilando para a diagonal, criam bandeiras, sugerem ação, mistério, suspense; quando se curvam, evocam formas da cidade, ou dos planetas, ou do disco das sete cores de Goethe.

Ziraldo desenha e narra com a cor pura, praticamente prescindindo de linhas. Não se vê o gesto da mão. Feito Matisse em suas colagens, ele desenha com tesoura e estilete. O preto só está presente na tipografia, igualmente econômica (a limpa e funcional Helvetica), que é usada de modo esperto, valendo-se de discretas variações de alinhamento, de corpo e de quebras de linha para criar formas, tensões e deslocamentos. O branco, ao invés do que aprendemos e ensinamos na aula de ciências, aqui ganha corpo e densidade, ganha status de cor autônoma. 

Seria um jogo meramente gráfico ou pictórico (e um tanto frio) se não fosse explorado com maestria pelo autor para dar relevo psicológico ao frágil e melancólico Flicts. Assim nasceu o anti-herói, cor deslocada e “conflictuosa”, sem lugar num mundo de um colorido desesperador, de cores angustiantemente “vivas”. 

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Paulo Werneck

É editor da revista Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #26 set.2019 em agosto de 2019.