Infantojuvenil,

Cabeludas, cabeleiras descabeladas

História celebra a tradição de personagens com cabelos de personalidade e também a relação entre mãe e filha

28nov2018

Os cabelos da boneca Emília são coloridos, a arteira Píppi Meialonga usa tranças ruivas que apontam para o alto e a inconformada Mafalda tem um laço vermelho no meio de seus fios volumosos. A literatura infantil foi sempre povoada de cabelos dos mais variados tipos, cores e comprimentos, que são muitas vezes fundamentais para a identidade de suas personagens. E não é à toa que garotas de personalidade forte como Emília, Mafalda e Píppi tenham cabelos exuberantes e chamativos.

No Brasil dos últimos anos, esse atributo tão importante na vida de grande parte das garotas ganhou ainda mais protagonismo nos livros para crianças. Ele é símbolo do empoderamento das meninas negras em fase de autodescoberta. Meu crespo é de rainha, da feminista americana bell hooks, publicado aqui em 2018; O cabelo de Lelê (2012), de Valéria Belém, com ilustrações de Adriana Mendonça; O mundo no black power de Tayó (2013), de Kiusam de Oliveira e desenhos de Taisa Borges, são alguns dos títulos que felizmente vêm possibilitando a reflexão sobre identidade e autoestima a partir do processo de aceitação vivido pelas protagonistas.

O cabelo da menina, escrito pela compositora e cantora Fernanda Takai e ilustrado por Ina Carolina, não traz a questão negra para a pauta, mas o cabelo amalucado e a coragem da protagonista fazem dela uma prima mais nova de Emília, ou uma parente brasileira de Píppi e Mafalda. 

O cabelo amalucado e a coragem da protagonista fazem dela uma prima mais nova de Emília, ou uma parente brasileira de Píppi e Mafalda

As conquistas de suas antecessoras estão assimiladas, e não há para ela outra possibilidade além de cada um ser como bem entende. Por isso, no dia em que acordou com o cabelo meio bagunçado, meio diferente, sentiu-se “uma menina com superpoderes” e decidiu que era assim que iria à escola. Para enfrentar os obstáculos que surgiam diante de sua atitude audaciosa, ela parecia já saber a receita: “sentiu-se sozinha na hora do lanche, mesmo que tivesse muita gente olhando para ela. De repente, lembrou-se da canção que a mãe sempre cantava. Sentiu uma mistura de arrepio com quentinho no coração”.

E desse jeito, com as madeixas “cheias de vírgulas”, um tanto de segurança e bastante persistência, a pequena heroína provoca uma doce revolução: depois de virar o assunto da escola, sua professora decide criar o dia do cabelo maluco na classe. Liberdade a “todos aqueles cabelos que pareciam aprisionados e tristes”, pensa ela: a vitória é da diversidade. 

É o que também mostram as ilustrações acomodadas em ângulos inusitados. Ora verticais, ora horizontais, dão a ver que o mundo pode ser experimentado por infinitas perspectivas. O traço descabelado das aquarelas contribui para a atmosfera relaxada, reforçada pela canção que Takai cria para o livro: “se meu cabelo é doido/ é doido por querer”.

Também vence nesse ambiente de singelo combate a relação entre mãe e filha. A troca cúmplice de ambas é o que organiza a narrativa: no início, a figura amorosa da mãe aparece como conselheira e protetora; no meio, como lembrança apaziguadora na mente da personagem; e, no fim, como parceira, quando o relato da sua conquista se transforma em uma celebração do amor entre as duas. Essa é a força motriz que colore cada página do livro e está por trás de toda a confiança adquirida pela menina, impulsionando-a a ser no mundo quem ela é dentro de casa.

Publicada originalmente como livro para celular e tablet pelo projeto Itaú Kidsbook, esta é uma história para carregar consigo. Texto, imagem, canção e objeto relembram, com a simplicidade das palavras de Takai, a importância das pequenas conquistas e o poder do afeto. Afinal, como há tempos mostram Mafaldas, Píppis, Emílias, Lelês, Tayós e tantas outras orgulhosas cabeludas, a luta é diária, assim como as vitórias.

Quem escreveu esse texto

Mell Brites

Editora, escreveu Primeiras palavras (Publifolhinha).