Infantojuvenil,

A mata e o mundo

Um quelônio sai em busca de explicações sobre a origem do universo e reencontra hipóteses formuladas pelos gregos na Antiguidade

23nov2018

Se hoje grande parte da humanidade acredita que a Terra é redonda e gira em torno do Sol, houve um tempo e lugar em que o mundo era plano e abaixo dele havia um abismo repleto de monstros marinhos. E esta é apenas uma dentre as milhares de narrativas, orientais e ocidentais, que fizeram parte do nosso imaginário ao longo dos séculos. 

Pois a protagonista desta história, uma jabuti fêmea chamada Naná, está tomada por uma questão que não lhe dá descanso: “Onde começa o mundo? O que há por baixo dele? Quem pode me contar a verdade, sem nada inventar?”. Cismada como só ela, procura na Mata Virgem “algum bicho que já tivesse chegado ao fim do mundo e visto com seus próprios olhos o que há lá bem na beirada”.

É inverno na serra, os animais saem de suas moradas em busca de “coquinho, de uma framboesa temporã, procurando as árvores poucas que florescem o ano todo”, e a cada capítulo desta Fábula sobre o começo do mundo, Naná encontra um novo esfomeado e lhe expõe sua ideia fixa. Dona Serpente diz à jabota que a Terra nasceu de uma explosão, o Macaco Simão tem certeza de que é um prato parado que sempre existiu e sempre existirá, já Iracema, a Onça, afirma ser o mundo um chão sem fim, que vai alargando em qualquer direção.

Essas ideias tão curiosas, aprendemos na segunda parte do livro, intitulada “Pequena miscelânea de cosmologia”, correspondem a mitos arcaicos do pensamento grego antigo. Mas, para a criança ainda distante das verdades científicas, as hipóteses sobre a origem do mundo são acima de tudo matéria para o exercício livre da imaginação. 

A própria tartaruga — acredite se quiser — pertence à linhagem da boneca Emilia e não se conforma com respostas pré-fabricadas: sua “avó materna, já morta, era conhecida por ter levado a vida em férias na Mantiqueira com uma amiga famosa — a marquesa de Rabicó”. E nesse ambiente profícuo, o leitor é convidado a acompanhá-la em sua aventura filosófica na qual o que parece importar é o questionamento e a reflexão.

Não é a primeira vez que tal olhar virgem como a mata é associado ao universo infantil, já que são as crianças, com os seus recorrentes por quês, a se depararem com inúmeras experiências inéditas. Não é desse mesmo princípio que parte Jostein Gaarder, no clássico O mundo de Sofia? Nele, uma garota de catorze anos troca correspondências com um homem misterioso, que lhe introduz ao pensamento filosófico. Em um dos primeiros bilhetes recebidos, ela lê: “De onde vem o mundo?”. E reflete: “‘Não faço a menor ideia […]. Ninguém faz, não é?’ E ainda assim Sofia achou que a pergunta era importante. Pela primeira vez ela achou que não era possível estar neste mundo sem se perguntar de onde ele vinha”. 

Um pouco mais adiante, seu amigo oculto lhe diz, em outra carta: “Perguntas como essas sempre foram feitas por pessoas de todas as épocas. Não conhecemos nenhuma cultura que não tivesse se preocupado em saber quem são as pessoas e de onde vem o mundo. No fundo, não há tantas questões filosóficas para fazermos. Nós já fizemos algumas das mais importantes. Mas a história nos mostra muitas respostas diferentes para cada uma das perguntas que fazemos”.

No texto de Maria Cecilia Gomes dos Reis os animais falantes não levam Naná a nenhuma resposta certa, pelo contrário: a única conclusão a que pôde chegar a pobre réptil é que o melhor a fazer é tranquilizar o coração e conviver com a dúvida. Essa ausência de solução é ainda mais significativa se considerarmos o diálogo que a autora estabelece com as fábulas ao criar personagens animais com comportamento humano. 

A mensagem que paira no texto vai na direção do ditado: ‘O que não tem remédio remediado está’

Em sua origem, as narrativas curtas, popularizadas através do grego Esopo, tinham funções abrangentes como explicar, censurar, aconselhar ou qualquer outra ação discursiva associada à vida em sociedade. Aqui, a única intenção é instigar o leitor ao exercício de pensar, e não há moral que possa ser extraída; a mensagem que paira no texto, se é que há alguma, vai na mesma direção do ditado popular: “o que não tem remédio remediado está”.

Bem sabe a autora que o assombro do ser humano diante dos mistérios do universo é tão antigo quanto a própria espécie. É o que nos diz também Alex Cerveny, agregando sentido ao texto escrito com suas ilustrações: seu traço e técnica, assim como as capitulares que abrem cada capítulo, parecem ecoar as velhas enciclopédias, os pergaminhos medievais ou mesmo manuscritos da Antiguidade. 

O mapa da região do Vale do Paraíba que introduz a narrativa e os desenhos de árvores nativas completam esse ambiente onde as grandes questões do homem se unem às reflexões cotidianas de uma espécie brasileira, onde clássicos da literatura infantil (em sutis aparições) tomam assento no aqui e agora do século 21 e propõem ao leitor que revise o mundo à sua maneira.

Por essa razão que, nas páginas seguintes ao final da saga de Naná, sente-se certa ruptura. A narrativa de escrita ritmada, bem-humorada e sagaz, que não fornece respostas fáceis à criança, dá lugar a uma lista de informações sobre os planetas do sistema solar e a um convite para que o pequeno leitor pinte as ilustrações da página em preto e branco. Fica a dúvida sobre a função deste material de não ficção — seria uma tentativa de dar conta da noção, da qual a literatura infantil nunca escapou completamente, de que é preciso abordar temas e conteúdos objetivos mesmo nos livros de histórias? 

Outros planetas

Já o anexo que vem a seguir, a “Pequena miscelânea de cosmologia”, ocupa quase metade do volume, tem como destinatário o adulto e relaciona cada uma das formulações que aparecem no livro a seu modelo cosmológico correspondente. A autora, doutora em filosofia e tradutora premiada, oferece um material denso e acurado para aqueles que se inquietam ou simplesmente se impressionam com o milagre cotidiano da existência.

Vale ingressar neste terreno fértil e abundante da Mata Virgem e exercitar, junto à jabota Naná, aquilo que difere o Homo sapiens sapiens de todos os outros bichos da Terra: a capacidade de pensamento e raciocínio. Como disse o poeta, “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além” — certamente a outros planetas e galáxias. 

Quem escreveu esse texto

Mell Brites

Editora, escreveu Primeiras palavras (Publifolhinha).