Infantojuvenil,

As sementes da Baobá

Estreia de Rodrigo França discute a formação da identidade a partir do personagem do Pequeno Príncipe

01maio2020 - 01h00 | Edição #33 mai.2020

O céu é meu pai
A terra, mamãe
E o mundo inteiro é tipo a minha casa

“Casa”, Emicida

A palavra Ubuntu sintetiza o livro O pequeno príncipe preto (Nova Fronteira), estreia de Rodrigo França no mundo da literatura. De origem zulu e xhosa, Ubuntu faz referência ao sentimento de coletividade, de uma “humanidade para com os outros”. O livro é carta protagonizada por um corpo negro, cheio de vida e que narra uma gama de possibilidades de existências e de mundos. Uma viagem a vários mundos: o do pequeno príncipe preto, o planeta de um rei e a Terra, esta que habitamos. Em cada um desses cenários, ele vivencia experiências diferentes e se coloca de frente a situações cotidianas que são o sentido da humanidade. A curiosidade conduz o príncipe a outros mundos, e os ensinamentos que carrega o fazem não perder sua identidade e o ensinam a lidar com seus afetos e sua subjetividade. Olhar de quem questiona as relações permeadas por preconceitos e dificuldades. Levanta a filosofia Ubuntu para todo mundo, “eu sou porque nós somos”.

Partindo não de uma releitura mas de uma autoinscrição (nos termos do filósofo camaronês Achille Mbembe) do clássico de Antoine de Saint-Exupéry, França primeiro experimentou a narrativa de O pequeno príncipe no teatro, linguagem com a qual tem lotado espaços com produções pretas nos últimos anos. O autor tem formação em artes cênicas, filosofia e ciências sociais. Nos palcos, reúne um elenco composto de atores negros, continuando o movimento iniciado por Abdias Nascimento, Ruth de Souza, Hilton Cobra, entre outros.

A peça O pequeno príncipe preto atraiu um público de mais de 50 mil espectadores em um ano e meio. Contudo, a história contada em livro alcança mais pessoas e, principalmente, mais crianças — inclusive as que estão dentro dos adultos, que podem encontrar ali um primeiro espelho para a autoestima. Na obra, a árvore Baobá representa a riqueza das tradições africanas, mãe do mundo.

Ao iniciar sua jornada, o protagonista vai parar no planeta do rei, onde usa da sabedoria do silêncio para lidar com a arrogância e a soberba do “rico dono” do planeta. O vento o transporta numa pipa logo depois para a Terra, onde encontra todo tipo de gente que não presta atenção nele. “Cativando ou não as pessoas, nós somos únicos”, reage ele ao ouvir da raposa que o príncipe era igual a outros 100 mil garotos que ela conhecia. Nem todos fazem frutificar o Ubuntu, o amor e o respeito. Logo outra Baobá brotará, cabe a gente plantar.

Raízes

Edson Cardoso, jornalista do Ìrohìn e ativista do movimento negro, descreveu como é a hora da saída das crianças nas escolas públicas: “Vejo um espetáculo que é algo extraordinário, uma população que passava, literalmente, pelo canto da parede, envergonhada. O jeito como eles saem da escola [agora], com o cabelo solto, andando na rua. A minha subjetividade pega algo assim: a alegria de ser, de se mostrar como se é. Se antes andavam de cabeça baixa, pelo canto da parede, agora saem cheios de atitude e com o cabelo solto — isso é uma coisa muito forte”. Não tem volta.

Para onde estamos caminhando como sociedade? A resposta é uma criança que pode afirmar que ama a si mesma. O pequeno príncipe preto ajuda os mais novos a pensar na importância de suas origens. As raízes da Baobá são a ancestralidade e a oralidade dos terreiros de candomblé, o alimento, os avós, bisavós e tataravós brasileiros ou não, diaspóricos de um mesmo chão. O livro nos leva a uma volta ao passado, constrói novos futuros, preenche lacunas.

Nas ilustrações vivas da artista Juliana Barbosa Pereira, o menino é  microscópico e dono do mundo, “milionário dos sonhos” como dizem Emicida e Elisa Lucinda. França, sem fazer um discurso nos moldes clássicos, afirma a negritude como algo além da cor da pele, em metáfora com o lápis de cor. Basta que se cumpra a Lei 10.639, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, para o livro circular ainda mais entre as crianças, verdadeira semente de Baobá para todo canto.

O príncipe é um ancião e o futuro que ainda está para nascer. O príncipe é a esperança que está por vir e a oralidade de griots, pais e mães de santo, como Menininha do Gantois e Beata de Yemanjá, guardiões das memórias e identidades que geram vida. O livro prega o amor-próprio e o cultivo da empatia e do carinho. Um samba do Roberto Ribeiro diz que todo menino é um rei, acho que aqui França confirma.

Nós por nós, Modupé!

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Jefferson Barbosa

Jornalista, membro da Coalizão Negra por Direitos, Global Fellow da Fundação Ford, foi fundador dos coletivos PerifaConnection e Voz da Baixada e autor de Mãe do mundo: vida e lutas de Mãe Beata de Yemanjá (Malê, 2023).

Matéria publicada na edição impressa #33 mai.2020 em abril de 2020.