Infantojuvenil,

As leis (humanas) da selva

Autora branca narra suas trocas de gênero na infância, ao morar com os Enauenê Nauê

29out2018 - 15h06 | Edição #16 out.2018

Dos muitos encantos na vida de uma criança numa aldeia indígena, Minha família Enauenê destaca, de modo simples e sem lições de moral, um tema muito atual: a ideia de gênero. 

O relato autobiográfico de Rita Carelli trata de sua experiência entre os Enauenê Nauê, em Mato Grosso. Rita foi para lá com seu irmão e seus pais (um cineasta e uma antropóloga), logo integrados à vida aldeã e adotados por uma família local — como é comum acontecer com os estrangeiros entre os grupos indígenas. O ponto de vista é aquele da Rita criança, profundamente afetada pela intensidade das descobertas naquele mundo novo, ao mesmo tempo inusitado e acolhedor. 

A questão de gênero não tarda a aparecer. Rita chegou à aldeia menina, mas não gostava de fazer as coisas que as outras faziam por lá: cuidar dos irmãos, ajudar a mãe nas tarefas da casa, fiar e fazer cerâmica. Encantada pelas brincadeiras dos meninos — flechar, pescar, jogar bola — e tendo compreendido que havia uma clara separação nas atividades cotidianas, ela decidiu ser menino. Para marcar posição, optou por um gesto simbólico: atravessou o pátio da aldeia, algo sabidamente reservado aos homens. Sua mãe índia logo lhe tirou a camisa e passou a tratá-la como menino. 

Tempos depois, Rita quis voltar a ser menina. Ciente do caminho da mudança, muito mais simples do que aqueles que nós, brancos, escolhemos para possibilitar o trânsito entre os gêneros, ela se esforçou em aprender os afazeres femininos e tornou a ser reconhecida como tal. Ninguém lhe perguntou como se sentia, se tinha certeza da mudança, se reconhecia o seu corpo como de homem ou de mulher, se tinha ou não desejos homossexuais — nenhuma dessas questões que costumam surgir nesse percurso tão complicado aos olhos brancos. O livro apresenta um modo novo de enxergar o tema: para os Enauenê, ser menino ou menina depende do que se faz, não de como se nasce. 

Clastres

Essa visão nem é exclusividade dos Enauenê, nem isso aconteceu só porque Rita ainda não tinha seios e era, com a sua pele branca, um ser estranho. No artigo “O arco e o cesto”, Pierre Clastres, que viveu entre os Guayaki, traz experiências muito parecidas. 

Observando que os Guayaki definem homens como caçadores e mulheres como coletoras, o antropólogo francês explica que para eles o arco e o cesto são marcadores de gênero:  um homem não pode sequer encostar em um cesto, nem a mulher em um arco. Se isso acontecer, o homem vai ficar azarado na caça — panema. Logo, se não for caçador, não poderá ser homem; se não for homem, será mulher. 

Clastres narra a história, tão real como a de Rita, de dois homens que ficaram panema, sentenciados a andar com as mulheres e a carregar cestos na busca de frutas e mel na floresta. Cada um reagiu de um modo diferente. Sentindo-se inadequado, um deles virou piada na aldeia: junto com as mulheres, carregava desajeitadamente o seu cesto para lá e para cá, mostrando o tempo todo o seu descontentamento. 

Para os Enaeuenê, ser menino ou menina depende do que se faz, não de como se nasce

O outro se encaixou perfeitamente na nova vida e era respeitado como uma mulher plena: carregava o seu cesto com desenvoltura e tinha amantes homens. Havia encontrado o seu lugar, enquanto o primeiro ficara no meio do caminho — nem lá nem cá, nem homem nem mulher. 

Eis a lição dos Enauenê, dos Guayaki e também dos Wari’, povo de Rondônia com quem trabalho há trinta anos: há outras formas de pensar, de agir, de ser, muito mais flexíveis e menos dogmáticas do que a dos brancos. 

Rita certamente sabia que ao voltar à cidade teria que abrir mão desse trânsito fácil entre ser menina ou menino, assim como os meus filhos sabiam que em casa teriam os seus movimentos limitados às dimensões de nosso apartamento, que voltariam a ver televisão e a usar talheres. Como nos mostra a escritora Rita, algo dessa experiência fica e pode ser partilhado por meio de relatos como este. 

Vivam os Enauenê, os Guayaki, os Wari’ e todos os índios, que tanto têm a nos ensinar. Vivam os antropólogos e seus filhos, que voltam para contar suas histórias e inventar brincadeiras.  

Quem escreveu esse texto

Aparecida Vilaça

Professora de antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora Ficções amazônicas (Todavia, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.