Infantojuvenil,

Aprendendo a jogar

Obra traz compilação de brincadeiras infantis de vinte países do continente africano

01out2019 - 01h24 | Edição #27 out.2019

As brincadeiras narradas por Rogério Andrade Barbosa e ilustradas por Marilia Pirillo nos transportam para cenários distantes e, ao mesmo tempo, íntimos. À medida que aprendemos novos jeitos de jogar ao longo das páginas, alguma memória de infância é ativada. Deve ser porque, como ressalta o autor, correr, pular, viver personagens e outras peripécias são modos de ser das crianças, que acabam se repetindo em diferentes culturas infantis, especialmente entre as brasileiras e de alguns países africanos, já que por vezes compartilhamos ancestralidades.

Uma qualidade fundamental da obra é mostrar onde e como se brinca: um mapa do continente africano destaca o país de onde vem cada brincadeira, e as ilustrações representam as várias vestimentas locais, junto com os cenários, como pátios de escolas e bairros residenciais, feitos provavelmente com base em referências reais, pela riqueza de detalhes. A diversidade cultural, aliás, aparece já no subtítulo do livro, ressaltando as origens múltiplas do que se conta, com o cuidado de diferenciar as ações de brincar e jogar — uma mais livre e a outra, regrada.

Apoiando-se nos desenhos de traços doces e convidativos, os textos explicam as brincadeiras de um jeito leve e divertido, tornando fácil a sua reprodução. Bastam objetos simples (bastão, pedrinhas, lenço, limão…), um pouco de espaço, amigos e imaginação para conseguir brincar de tudo que aparece ali. A natureza está presente na maioria das brincadeiras: caçar ou fugir de algum animal, mimetizar seus comportamentos, dominar espaços, unir forças em grupo, tudo que faz esquecer o tempo, como é próprio do jogo em qualquer lugar.

Pernas de galinha

Kakopi, kakopi, brincadeira que dá nome ao livro, vem de Uganda e significa “as pernas da galinha” (mas a ilustração da capa diz respeito a outra brincadeira). Funciona mais ou menos assim: as crianças estão sentadas lado a lado no chão, todas com as pernas esticadas como se fossem uma galinha que vai para a panela; depois, uma criança fica de pé, segurando uma colher de pau, e vai tocando as pernas dos sentados enquanto canta “kakopi, kakopi”; quem tem uma perna tocada tem de encolhê-la na hora; no final, ganha quem permanecer com uma ou as duas pernas intactas.

No fim do livro, quando o autor conta que coletou as brincadeiras em suas viagens como voluntário da Organização das Nações Unidas (onu) na África, dá vontade de saber mais: como era a vida das crianças que ele conheceu? Sobre o que conversaram? Como era a escola e o trabalho voluntário feito ali? As respostas poderiam instigar os pequenos leitores, talvez mais do que a narrativa de ficção, um tanto didática, que introduz a compilação de jogos — uma história sobre um menino e uma menina quenianos que reúnem brincadeiras para um trabalho escolar. Faltou apenas assumir de vez a vocação documental dessa obra que também é para aprender outros jeitos de brincar (em casa, na escola, na rua) e relembrar a própria infância, tudo junto e delicado.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Ana Paula Campos

Designer, é autora de Inventório, mestrado pela fau-uspsobre design e livros informativos para crianças.

Matéria publicada na edição impressa #27 out.2019 em setembro de 2019.