Infantojuvenil,

A militarização da vida cotidiana

Ambientado em 1968, Ordem mostra as relações sociais marcadas pela violência e pelos preconceitos

30abr2019

1968. Ano em que a brutalidade do período da ditadura civil-militar que tomou curso no Brasil entre 1964 e 1985 se intensifica: para evitar que vozes contra a ditatura se popularizem, o policialismo é ainda mais truculento, a tortura assume proporções atrozes. As tiranias são abafadas pelo nacionalismo ideológico propagado pelo governo: as bandeiras, a ginástica e o civismo fortalecem certo patriotismo ordeiro — justamente o que vive Doca, o menino narrador de Ordem

Para Doca (e assim ele começa a nos contar sua história), maio de 1968 “é o grande pátio da escola, vozes estridentes, professores e inspetores de alunos com réguas de madeira na mão para fazer a formação da fila de entrada. Do menor para o maior: as meninas de um lado, com sainhas de pregas azuis e meias três-quartos; e nós, os meninos, do outro, de shorts azul-marinho, camisa branca encardida, meia soquete e sapato Vulcabrás no pé”. 

Tamanha rigidez não exaspera o narrador, ao menos de imediato. O menino cultiva a ordem numa espécie de tranquilidade catastrófica: engole a raiva por ter o inspetor de aluno enfiado sua cabeça embaixo do jato de água da torneira; não acompanha as travessuras dos primos e tenta lhes ensinar táticas de escoteiro mirim; vigia o carro da família para garantir que está bem coberto com a capa e que não será atingido por bolas chutadas por moleques; aguenta, até não mais poder, a tortura psicológica estabelecida pela professora que se sente ameaçada pelo bom aluno. O pai de Doca é capitão (“o quepe de estrelas lustrosas”, “o revólver embaixo da cama”); a mãe deixou o emprego para cuidar da casa e dos filhos (“o cheiro de cigarro com pasta de dentes e Halitol para esconder do papai que fuma”, “as dores de cabeça aos domingos”) e a irmã mais velha vai se tornando uma menina que gosta de dançar “chacoalhando os cabelos até ficar tonta” e usa “a saia do uniforme enrolada, para ficar ainda mais curta”. 

Que esperar de Doca? Ordem é um livro sobre o período da ditadura civil-militar brasileira que, com perspicácia, nos é revelada sem ser mencionada. Ela está presente nos mais íntimos respiros do cotidiano de uma criança que experimenta o espanto de crescer em tempos sombrios. Um amadurecimento rodeado pela cúpula invisível, mas intransponível, do autoritarismo e das várias faces da violência. Violência que explode na proximidade com que pessoas e coisas são retratadas (chicletes Ploc, Mappin, programa da Hebe, show de domingo e Jumbo Eletro são quase personagens, revelando com exatidão o alcance imaginário do chamado milagre econômico). Violência que marca as relações, sempre baseadas no medo, na lei do mais forte, nos preconceitos contra mulheres, loucos, epiléticos, contra os fora de padrão — silenciados por berros ou remédios. Violência constitutiva que por vezes se mistura à trama familiar e arrebenta em bomba, fumaça e corpo ensanguentado no chão, bem em frente à padaria, derretendo como sorvete de uva. 

A beleza da construção do personagem é vê-lo se libertando do mandonismo que forja o discurso

A rigidez e a crença na ordem presentes no início da narrativa, construída com método nos capítulos enxutos, encarrilhados um ao outro como soldados em desfile militar, abrem espaço para a dúvida. Mesmo carregada de medo, a dúvida de Doca (“E eu, sem poder entender por que tudo na minha família tinha de ser assim, tudo cheio de raiva e de dor”) é estopim para mudança. Que esperar de Doca? A autora não nos entrega o destino do narrador. Observando a sobrecapa do livro, em que vários dizeres — de ordem — se sobrepõem a crianças, bandeiras, canhões, nos perguntamos, também, que esperar de nós.  

“Só mais tarde, muito mais tarde, eu ia crescer”, diz o narrador. A beleza da construção do personagem é vê-lo se libertando do mandonismo que forja, à revelia, o discurso. Mandonismo cotidiano que, como nos ensina Ordem, é a alma das atrocidades: desdobra a repressão das instituições e do imaginário, fazendo-a reviver nos atos diários e comezinhos dos cidadãos de bem.  

Quem escreveu esse texto

Malu Rangel

Doutora em teoria literária, é editora de livros infantis.