Humor,

Millôrzinho Fernandesão

Originalmente publicados na revista Cruzeiro, na década de 1940, textos imitam fala infantil

29out2018 - 14h18 | Edição #16 out.2018

É uma coletânea de textos que o Millôr Fernandes publicou a partir dos anos 1940 na Pif Paf que era uma sessão da revista Cruzeiro e depois virou uma revista inteirinha e o Millôr escrevia as Conpozissõis Imfãtis num estilo como se fosse uma criança mas o Millôr Fernandes não era uma criança claro senão os adultos não iam deixar ele escrever na revista Cruzeiro porque os adultos é que dizem tudo o que a criança pode fazer e o que ela não pode fazer mesmo eles fazendo um monte de coisa que eles dizem que não pode. 

Uma coisa que não pode fazer por exemplo é o adulto trabalhar no cartório registrando criança e a mãe da criança dizer pro adulto que registra a criança que o nome da criança é Milton e o adulto que registra a criança errar na hora de escrever e colocar o risco do T em cima do “o” e parecer um acento circunflexo antecedido por dois “LL”s e em vez de Milton Fernandes a criança vira para sempre Millôr Fernandes. 

Milton de nascimento

Aí talvez por isso o Milton quer dizer o Millôr tenha ficado muito bravo com os adultos e tenha decidido escrever as Conpozissõis Imfãtis e o primeiro texto termina assim: “Eu quando crescer vou ser adulto só porque sou obrigado senão eu ia ser sempre pequenininho”. 

Nesse livro que eu tô falando o Millôr adulto fingindo que é pequenininho escreve sobre várias coisas tipo “A cidade” — “um montão de gente tentando fugir dos automóveis” —, “Os filhos” — “uma coisa que só os pais podem ter, pois os avós só têm netos e assim mesmo com muita diferença de idade” —,  “O tamanduá” — “um bicho que fica entre o canguru e o elefante”, “A vitrine” — “uma caixa de vidro que a gente fica do lado de fora”. Esses são só os comecinhos porque os textos inteiros não cabem aqui só se a revista em vez de 451 chamasse quatro milhões e quinhentos mil e um e daí ela ia ser bem mais grande e cabia até o livro inteiro.

Outra coisa que faz o livro ser meio chato é que o Millôr não era criança naquela época mas também não era muuuuuito adulto

Conpozissõis imfãtis é da editora FTD mas foi publicado pela primeira vez em 1975 pela editora Nórdica que é um nome de editora muito estranho se a editora fica no Rio de Janeiro porque o Rio de Janeiro é onde fica o Méier que é onde nasceu o Millôr Fernandes e o Méier é bem longe da Noruega que é onde nasceu a Liv Ullman mas como a editora Nórdica pelo menos publicou uma biografia da Liv Ullman é um pouquinho menos estranho.

O livro às vezes é muito engraçado e às vezes é até bonito mas depois que você já leu assim uma meia dúzia de Conpozissõis ele acaba sendo meio chato também. É que na Pif Paf as Conpozissõis vinham no meio de vários outros textos e desenhos e piadas então era tipo assim uma cenoura num prato que também tinha arroz e carne e feijão e ervilha daí a cenoura é gostosa mas comer só a cenoura sem mais nada uma depois da outra uma hora enjoa. 

Outra coisa que faz o livro ser meio chato é que o Millôr não era criança naquela época mas também não era muuuuuito adulto o crítico Paulo Roberto Pires que tá escrevendo a biografia do Millôr chama a Pif Paf de “laboratório” onde o Millôr ainda estava experimentando todos os estilos pra poder depois declarar “Enfim um escritor sem estilo”. 

Mas pensando bem o livro é mais legal do que chato. E tem um posfácio nada chato do escritor Rodrigo Lacerda. Outra coisa legal de falar que não tem muito a ver mas tem é que até 27 de janeiro lá no Instituto Moreira Salles em São Paulo tem a exposição Millôr: Obra Gráfica com um montão de desenho incrível e até uns desenhos das capas da Pif Paf então vale a pena visitar e dá pra levar seus filhos se você é adulto ou levar seus pais se você é criança e é isso.

Quem escreveu esse texto

Antonio Prata

Escritor e roteirista, é autor de Trinta e poucos (Companhia das Letras) e Jacaré, não! (Ubu).

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.