História,

Utopia tropical

Como a tentativa de criar um falanstério em terras brasileiras se transformou num espetáculo tragicômico

01out2019

Num sufocante sábado de verão, uma pequena multidão trajando batas e aventais se postou em frente a dom Pedro 2º no recluso Paço Imperial do Rio de Janeiro. Era 18 de dezembro de 1841. O monarca tinha quinze anos, mas já testemunharia o início de uma das mais insólitas empreitadas migratórias em solo nacional. Aqueles “filhos da velha Europa ávidos de paz e felicidade”, bradava Benoît Mure, com sua barba ruiva e seus óculos pequenos, vinham às “praias paradisíacas do Brasil” para “realizar os destinos imensos e misteriosos de uma idade de ouro”. Ele oferecia uma sociedade perfeita e harmônica, baseada no trabalho coletivo e na esperança intrínseca ao homem — uma utopia. 

A cena foi desvendada pelo pesquisador francês Laurent Vidal num recorte do Jornal do Commercio, e ela o assombrou por anos após o fim de sua tese, em 1995, até que decidisse investigar o sujeito que cravara em solo brasileiro uma epopeia tão particular. Assim começa Eles sonharam um outro mundo, livro que narra essas duas buscas: a dos franceses que tentaram pôr em prática as teorias de Charles Fourier (1772-1837) e a do próprio historiador, que destrincha, em primeira pessoa e com todo o lirismo inerente à empreitada, o “frágil equilíbrio entre a ‘poesia do desejável’ e a ‘prosa do possível’”.

De todas as utopias levadas a cabo na história recente, o falanstério é das mais curiosas. Fourier tinha grande oratória e uma pena criativa — pretendia ter inventado a própria “ciência social”. No início do século 19, dizia seguir os passos de Isaac Newton ao pensar as leis que presidiriam o funcionamento do mundo social. Imaginava uma organização superior, na forma de uma “colônia societária”. O falanstério seria a concretização desse ideal de sociedade igualitária, espaço físico onde todos trabalhariam e viveriam em conjunto. 

Que a primeira colônia, levada a cabo em 1832 na França, dois anos após sua morte, tivesse sido um desastre não acabrunhou os seguidores — a segunda experiência de um falanstério no mundo aconteceu no Brasil, na improvável Baía do Saí. Aqueles eram homens idealistas, que haviam participado de experiências como o saint-simonismo e as revoltas operárias na Europa. Mas havia um dissenso: de um lado, os adeptos da filosofia fourierista pura — para dar certo, a empreitada devia ser pensada por anos a fio —; de outro, os “realizadores”, para quem só a experiência concreta levaria o ideal a milhões de operários. 

Desigualdade

Em 1840, o Brasil já tinha colônias europeias, e não era segredo que o país buscava mão de obra para substituir a escravizada, com o intuito de realizar ofícios caros à jovem nação, como saberes agrícolas e industriais, além da pele branca, que a França, berço da civilização idealizada pela elite brasileira, exportaria, bem como seus valores imateriais. Que aqueles operários seguissem os ensinamentos de Fourier, um caixeiro-viajante que procurou resolver a desigualdade instituindo a “ordem societária” (algo que arrepiaria qualquer capitalista), não pareceu empecilho. 

Mas não era só. Como uma emulação do próprio Fourier, o autor da aventura era um orador ímpar, misto de visionário louco e gênio da palavra, que soube utilizar com maestria contatos diplomáticos e da imprensa para conquistar apoio oficial para erguer sua utópica urbe. Benoît Mure, fourierista e “porta-voz” da homeopatia na França — homem misterioso, que tinha apenas um quarto dos pulmões funcionando quando atracou no Rio, em busca do lugar ideal para seu falanstério.  

Mas por que teria ele escolhido São Francisco do Sul, na remota província de Santa Catarina? Vidal descobriu que Mure encontrara o naturalista Auguste de Saint-Hilaire, que escrevera um idílio sobre o local. A descrição de terras férteis, clima ameno e beleza sem par conquistou o francês. E ele não pouparia esforços até ver concretizado seu ideal. 

De todas as utopias levadas a cabo na história recente, o falanstério é das mais curiosas

O livro traz extensa pesquisa em arquivos públicos e detida análise da história em torno de Fourier, suas ideias e o contexto que fez uma França operária e desigual alimentar utopias socialistas entre 1830 e 1840. Vidal, diretor de pesquisa em história do Brasil num instituto da Université de Paris 3, segue o filósofo Jacques Rancière, autor de A noite dos proletários: arquivos do sonho operário (Companhia das Letras, 1988), para entender como surgiu a consciência utópica que brotou nesses cafés e bailes de arrecadação para criar a terra prometida. 

“Eu queria encontrar um caminho original para contar a aventura e revelar a espessura de sua dimensão humana”, diz Vidal à Quatro Cinco Um. O autor passou vinte anos até delinear tal “arqueologia de uma esperança” — ou como e por que esses franceses aportaram no Brasil ao longo de seis anos em busca da concretização do sonho de Fourier. Vidal ainda segue a micro-história do historiador Carlo Ginzburg, buscando no relato individual a força histórica que ganha tintas universais. É assim que destrincha, em cartas, artigos, pronunciamentos e desenhos, como o anseio da criação de uma comunidade “perfeita” se espraiou pela França, atravessou as águas tortuosas do Atlântico e aportou nos portos cariocas, rumando para o sul do Brasil. 

Melhor que a ficção

Acompanhamos a epopeia desde seu início em Paris, onde setecentos homens compareceram ao chamado da viagem: por meio de jornais atrelados à causa, o fourierismo fazia sua propaganda. Figuras como Michel Derrion, que mais tarde protagonizaria a oposição aos anseios ditatoriais de Mure, organizaram “verdadeiras bancas para avaliar e escolher as futuras famílias”. Após investigação de “seu valor moral e profissional”, foram selecionadas 345 pessoas para emigrar ao Brasil, incluindo três chocolateiros, três fabricantes de piano e o “inventor da hélice” — uma espécie de “nova arca de Noé”, sugere o autor, “decidida a lutar pela salvação da humanidade”.

Seguiram-se uma visita à tumba de Fourier em Montmartre e um banquete com ares de “santa ceia”, que prepararia os 93 imigrantes da primeira leva de “novos cruzados”. Após intenso embate legislativo, o governo brasileiro cedeu 64 mil contos de réis para tal. O Império, quem diria, pagaria a vinda de socialistas ao Brasil. 

Vidal, inclusive, delineia a vida dos imigrantes no navio: o que comiam, os males que sofriam e os cânticos que entoavam ao partilhar os anseios da chegada. Uma criança nasce na travessia: era o primeiro filho da nova civilização. Em 14 de dezembro, avistam o Pão de Açúcar. Desfraldam a bandeira de sete cores do falanstério, carregam ferramentas nos ombros, caminham pelo Rio em meio aos escravizados. Um mundo novo, prenhe de possibilidades, acaba por se descortinar. 

A partir daí, assistimos a um “enredo surpreendente a cada passo”, diz Vidal. Pois “a vida humana pode às vezes ser muito mais surpreendente que a ficção”. Descobrimos que Mure é um larápio com intenções idealistas. Os colonos, que esperavam encontrar no Saí campos plantados e construções para abrigá-los, viram-se diante da mata fechada. Pior: percebem que havia dois contratos a reger a sociedade a ser implantada — um deles dava a Mure plenos poderes. Segundo as regras do Império, os colonos também não poderiam deixar o país antes de reembolsar o governo. Seria “o caminho para a sujeição e a escravidão”, relatou um deles. 

Munido de todo o dinheiro, Mure partira do Rio sem os sócios da Union Industrielle, responsável pelo falanstério. Quando os sócios retardatários chegaram, enfurecidos, ao litoral catarinense, “é uma espécie de vaudeville que se oferece aos habitantes de São Francisco do Sul”, pacata cidade de pescadores. Colonos começam a morrer sem explicação, há denúncias de pedofilia e cárcere privado, provisões são roubadas de um lado e de outro — duas colônias agora existem, a do Saí e a do Palmitar, esta com os dissidentes contrários a Mure, liderados por Derrion — e brigas ocorrem nas ruas, com “vagabundos” franceses entoando cânticos na língua da revolução. 

Quando o Império questionava os resultados, Mure prometia “novos colonos submissos e industriosos”. O ideário igualitário da harmonia fourierista se desmanchava em terras brasileiras, enquanto, na França, uma “caça aos colonos” ganhava corpo: munidos de intensa “atividade de propaganda”, eles enviaram novas levas de fourieristas ao Brasil — foram seis expedições e 581 pessoas em dois anos.  Na “península da discórdia”, fugas ocorriam. “Entre o poema da fundação e a prosa do hábitat”, escreve Vidal, “a vida oscila entre a esperança e a irritação.” No que devia ser uma única colônia industrial, em fins de 1843, sobraram duas colônias que nada produziam. Menos de quarenta indivíduos viviam no local. 

Nenhuma outra história dá conta da potência narrativa de Mure, achado não só acadêmico, mas literário 

Com a dissolução do sonho, os colonos, quais “vaga-lumes errantes”, fincaram raízes no Rio: trabalharam na estrada que levaria dom Pedro 2º a Petrópolis, abriram comércios. Outros foram repatriados pela França. Um deles foi acusado de traficar escravos na África. O resto desapareceu dos registros. Mas é em Mure que jaz o sabor da história. “Sem sua energia, sua capacidade de convencer (e converter), seu lirismo, nada teria acontecido”, afirma Vidal. Outras histórias foram escritas sobre o Saí. Nenhuma outra dá conta da potência narrativa de Mure, achado não só acadêmico, mas literário. “Ao contar a vida desse homem, tive até vontade de escrever sua biografia.”

Pois tendo abandonado os colonos à própria sorte, Mure se mudou para o Rio e se lançou “apóstolo da homeopatia no Brasil”. Deu palestras na Faculdade de Medicina, fundou o Instituto Homeopático, abriu 25 dispensários e uma casa de saúde voltada à elite. Ficou rico e conquistou novos seguidores — só teve a trajetória tolhida por ter dito, em público, que dom Afonso morrera aos dois anos para que a homeopatia vingasse. Foi “convidado” a deixar o país. Em escritos posteriores, Mure diz ainda ter sido inspirado pelo “gênio” emanado de um vidro de Cannabis a propagar outra seita, a Armanase, no Egito, onde implantaria a “nova ciência”. Só saiu de lá morto, de tuberculose, aos 49 anos — não sem ter expressado desejo de voltar ao Brasil. 

Rememorar um sonho

O fantasma de Mure, na verdade, não pereceu no Nilo. Quem chega à Vila da Glória, onde o falanstério do Saí foi instalado 178 anos atrás, em busca de seus vestígios, não vê “nenhuma ruína, sequer um pedaço de muro”, diz Vidal. Mas tal descaso trai uma história peculiar, feita do mesmo idealismo fourierista: o sonho de Ledoux. 

Alguém que desconheça a epopeia do Saí, ao passar pela rua Aurélio Alves Ledoux, se pode indagar sobre a origem do sobrenome francês em terras de colonização açoriana. Mas logo surgem arremedos da história de Aurélio Ledoux, filho de Eduardo, neto de Alberto e bisneto de Léon Ledoux — colono da primeira embarcação a aportar no Brasil com falansteristas crentes no futuro prometido por Mure. 

Alberto fora o bebê nascido na travessia atlântica. E, para comemorar os 150 anos da chegada dos franceses ao Saí, Aurélio Ledoux recebeu de um grupo de atores, numa encenação da odisseia fourierista, ocorrida em um iate na baía de São Francisco, em 16 de maio de 1992,  um bebê que representava o papel do seu avô. 

Aurélio foi o maior defensor da história do Saí — e não só do ideal fourierista, mas do próprio Mure. Escreveu livro e peça a respeito e lutou pela construção de um monumento e um museu. Tinha ainda um dossiê cujos documentos vinham com um carimbo: “Aurélio Alves, Ledoux, a serviço da história”. Era o guardião da memória de Mure. Em seus discursos na Câmara local, não poupava adjetivos: parecia esquecer a sorte de seu bisavô nas mãos do falastrão, uma vez que Léon fugira do falanstério. Embalado por uma versão edulcorada da história, Aurélio focou na rememoração de um sonho. Morreu em 2006, sem que seu museu jamais visse a luz do dia. 

O que sobrou da memória da empreitada, além dos sobrenomes franceses no cemitério, são duas placas: uma colada à escultura de um druida, em homenagem ao “berço da homeopatia no Brasil”; e outra indicando que ali “residiu o primeiro médico a fabricar remédios homeopáticos” no país. Ambas foram conquistas de Ledoux e são dedicadas a Benoît Mure — que é ainda celebrado pelos homeopatas brasileiros: o Dia da Homeopatia no país é 21 de novembro. É a data da chegada ao Brasil desse louco visionário que, mais de um século e meio depois de morrer, ainda conquista corações e mentes do outro lado do Atlântico.

Quem escreveu esse texto

Willian Vieira

É jornalista e fez doutorado em letras francesas pela USP.