História,

Um povo e muitos povos

Em livro fundamental, especialista conta a história dos árabes do século 16 até o pós-11 de Setembro e a Primavera Árabe

17set2021 - 10h54 | Edição #50

Em meados de agosto, o Talibã tomou o poder em Cabul vinte anos depois de ser expulso pelos norte-americanos, que retiraram suas tropas do Afeganistão no fim daquele mês. Em discurso, o presidente Joe Biden disse que “os Estados Unidos não podem participar e morrer em uma guerra em que nem o próprio Afeganistão está disposto a lutar”, fazendo alusão ao fato de as forças afegãs não terem resistido ao domínio militar do Talibã, que tomou a capital em apenas duas semanas. Foi uma ação concreta do governo Biden, de lavar as mãos e dizer que os Estados Unidos não têm nada a ver com os problemas do Afeganistão. O que é uma grande falácia.

As ações norte-americanas foram diretamente responsáveis pela situação atual do país asiático ao armar os mujahideens afegãos para lutar contra os invasores soviéticos na década de 80, em um conflito que ceifou muitas vidas. A política internacional norte-americana no Oriente Médio também deu fôlego ideológico para grupos islâmicos radicais como o Talibã. É o que mostra Os árabes, livro fundamental para entender o mundo atual e a rica história de um povo que são muitos povos, conforme a descrição do autor, Eugene Rogan. Ainda que os afegãos — e os turcos — não sejam árabes, a obra mostra como a história desses povos está imbricada à dos árabes, influenciando os destinos de milhões de pessoas. 

Publicado originalmente em 2009, Os árabes é um trabalho monumental do autor de The Fall of the Ottomans: The Great War in the Middle East (A queda dos otomanos: a Grande Guerra no Oriente Médio), que também é professor de história moderna do Oriente Médio na Universidade de Oxford. Os árabes chega ao Brasil em boa tradução de Marlene Suano, professora do departamento de história da Universidade de São Paulo, que já havia traduzido Deus: uma história humana, de Reza Aslan. Os árabes ajuda a preencher uma grande lacuna bibliográfica nos estudos historiográficos sobre o Oriente Médio no Brasil, onde há poucas obras sobre o tema em português. Em geral, nos (poucos) cursos universitários voltados para o tema, o título mais lido é Uma história dos povos árabes, do anglo-libanês Albert Hourani (1915-93), que foi mentor de Rogan. É uma obra importante, mas não é muito amigável para os leitores de primeira viagem no tema, por abranger a história árabe desde seus primórdios com o profeta Muhammad e a ascensão do Islã, no século 7 d.C., até a Guerra Fria, no final dos anos 80, e por uma certa falta de didatismo na estrutura dos capítulos.


 

Os árabes, ao contrário, concentra-se na história moderna, partindo da dominação turco-otomana — que durou quatro dos últimos cinco séculos —, passando pelo colonialismo europeu, pela ascensão do nacionalismo árabe e pela geopolítica da Guerra Fria até chegar aos acontecimentos do pós-11 de Setembro e da Primavera Árabe (capítulo inserido após 2011). Há alguns desequilíbrios na divisão do livro: os primeiros séculos de domínio otomano foram condensados em apenas dois capítulos, enquanto o restante da obra de quase oitocentas páginas é dedicado aos séculos 19, 20 e 21; e, como o próprio Rogan avisa na Introdução, não foi possível reunir a história de todos os países, portanto há muito a ser lido sobre o Egito e a Síria, mas pouco sobre Iêmen e Omã. Nada que atrapalhe o resultado final, mas apenas aguça a curiosidade de quem quer saber um pouco mais sobre a história desses períodos e lugares.

Ainda que seja uma obra tradicional ao se ater a fatos históricos, ela não perde a dimensão humana

Outros pontos altos são os capítulos que entrelaçam o imperialismo e o colonialismo europeus com a criação do Estado de Israel, a expulsão dos palestinos dos seus territórios e as transformações que esses eventos tiveram nas relações internas e externas dos países árabes, principalmente seu papel na sangrenta Guerra Civil do Líbano (1975-90). Rogan traz a heterogeneidade interna do movimento de resistência palestino, a forma como os países árabes usaram (e ainda usam) a defesa da criação (ou não) de um Estado palestino para seus próprios interesses, as intransigências de Israel em não cumprir as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU) para a retirada de colonos israelenses da Cisjordânia e a influência das potências na manutenção e distensão do conflito.

Visão de dentro

Um dos grandes diferenciais do livro é que Rogan usou fontes escritas pelos próprios árabes. O fato de o autor ter aprendido a língua árabe quando passou a infância em Beirute e no Cairo fez, portanto, toda a diferença. Esses textos trazem uma visão de dentro dos eventos, mostrando as complexidades de um povo que é ligado por uma mesma língua e história e que vai do Marrocos até o Iraque. Ainda que seja uma obra tradicional no sentido de se ater a grandes fatos históricos, ela não perde a dimensão humana justamente por trazer testemunhos pessoais de grandes personalidades e de gente comum.

O diário do barbeiro sírio Ahmad al-Budayri “al-Hallaq” (o barbeiro) traz comentários perspicazes sobre a Damasco de meados do século 18, quando o domínio da Síria foi ameaçado pelo poder da família Azm, uma das principais lideranças locais das províncias árabes da época. Em seu diário, ele traz os prós e os contras do Estado otomano e do poder local dos Azm, além de fazer uma análise social: “Na visão de Budayri, não havia maior prova do declínio da moralidade pública do que o comportamento descarado das prostitutas”, escreve Rogan.

Outra figura curiosa é a do teólogo e intelectual Abd Rahman Jabarti (1754-1824), testemunha ocular da invasão do Egito pelos franceses em 1798. Em uma das passagens de seus escritos sobre o contato com as novidades tecnológicas trazidas pelos franceses está a descrição do lançamento de um balão Montgolfier de ar quente, que foi bastante anunciado no Cairo. Dizia-se que “as pessoas se sentariam ali e viajariam para países distantes para coletar informações e enviar mensagens”. Al-Jabarti resolveu ver o voo com os próprios olhos. No dia do lançamento, o balão, decorado com as cores da França, começou a subir quando o pavio foi aceso com uma chama. O público ficou boquiaberto, e os franceses se orgulharam da reação. Tudo ia bem até que o balão perdeu o pavio. Sem uma fonte de ar quente, o balão murchou e caiu no chão. “Ficou claro que era como as pipas que os servos confeccionam para celebrar feriados e casamentos”, opinou Al-Jabarti. Os egípcios não ficaram impressionados.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #50 em agosto de 2021.