História,

Onde você estava na manhã de 11 de setembro de 2001?

Vinte anos depois, dois livros procuram nos situar em meio aos escombros dos relatos de pessoas afetadas pelo maior atentado terrorista da história

25ago2021 - 17h03 | Edição #49

Fatos históricos de grande impacto, principalmente se os Estados Unidos estiverem envolvidos, costumam ensejar uma variação da pergunta acima: onde você estava quando John F. Kennedy foi assassinado (22/11/1963)?  Quando o homem pisou na Lua (20/7/1969)? São eventos com supercobertura midiática e crescente bibliografia, que ganha novo impulso nas efemérides redondas. Não é diferente com o maior ataque terrorista da história sofrido em solo norte-americano, que neste mês completa vinte anos.

A história é feita geralmente a portas fechadas. O fim da Segunda Guerra Mundial a partir da rendição da Alemanha seria anunciado em uma cerimônia 36 horas depois do ocorrido, não fosse um repórter da Associated Press furar o embargo e publicar a notícia antes, em 7 de maio de 1945. Pelo feito, e por pressão de Truman e Churchill, o jornalista Edward Kennedy foi demitido (ele morreria em 1963, de acidente de trânsito, e sua família só receberia desculpas formais em 2012, quando o então presidente da agência de notícias reconheceu a injustiça histórica.)

Quando a história ocorre diante do mundo, como foi o 11 de Setembro, há a necessidade de querer participar do momento de alguma maneira. A mais comum é conectar sua atividade naquela hora exata ao evento histórico.

Quando o primeiro avião atingiu a Torre Norte do World Trade Center, às 8h46, eu dormia. A noite anterior tinha sido do lançamento do novo álbum do Jamiroquai, A Funk Odissey, num show para convidados no Hammerstein Ballroom, com bebida farta.

Quando o segundo avião atingiu a Torre Sul, às 9h03, eu já estava acordado e, como correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York e morador do East Village, a vinte quarteirões do alvo, corria a caminho do local, acompanhado de minha mulher, a jornalista Teté Ribeiro, que operava uma câmera fotográfica amadora.

Nos relatos dos dias seguintes na imprensa brasileira, houve outro fenômeno curioso e não incomum em ocasiões como aquela. Muitos conterrâneos disseram que, naqueles 102 minutos entre a primeira colisão e o desabamento das torres, estavam a poucos metros dos prédios — uma ex-modelo contou que comia um hambúrguer por ali; um empresário fazia uma reunião de negócios ao lado.

Outros tantos disseram que por muito pouco não estiveram no prédio, adiaram uma visita, desmarcaram um encontro, iriam a uma reunião, passariam para um lustro nos sapatos (havia nos andares inferiores das torres uma bancada de engraxates, muitos deles brasileiros de Governador Valadares, mg). Exagero? Não, tentativa de pertencimento. “Eu quase morri”, “Poderia ter sido eu/meu parente/um conhecido”, parecem querer dizer. E assim fazer parte do todo.

Ordem no caos

Dois lançamentos ajudam a colocar ordem no caos narrativo e separar fato de ficção. O mais ambicioso é O único avião no céu: uma história oral do 11 de Setembro, do jornalista norte-americano Garrett M. Graff, que saiu em 2019 nos Estados Unidos e a Todavia publica agora no Brasil.
 


O único avião no céu: uma história oral do 11 de Setembro, do jornalista norte-americano Garrett M. Graff
 

Em 560 páginas, há relatos de mais de quinhentas pessoas, que foram colhidos por Garrett e por outros jornalistas e historiadores nos últimos dezessete anos em diversas fontes, como os memoriais dedicados às vítimas dos ataques em Nova York, em Washington e na Pensilvânia, mas também em transmissões de tv, reportagens e mesmo outros livros. Garrett é assim mais o organizador do que o autor propriamente do livro. Mas desempenha a tarefa com competência.

Sabe-se o que George W. Bush fazia (e é dele o único avião no céu do título, o Air Force One, que a partir do segundo ataque levantou voo e foi da Flórida, onde o presidente participava de um evento para crianças, para a Louisiana, depois Nebraska e finalmente Washington, quando se definiu que era seguro tê-lo no solo de novo). Idem sobre o vice, Dick Cheney (foi agarrado pelo segurança e levado para o abrigo subterrâneo da Casa Branca), o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld (café da manhã com congressistas), o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani (tão logo soube do primeiro avião, foi ao banheiro se aliviar, pois percebeu que teria um longo dia pela frente), e outras autoridades.

O livro começa com o relato do único norte-americano que não estava na Terra naquele dia, o astronauta Frank Culbertson, que chegou à Estação Espacial Internacional a bordo do ônibus espacial Discovery um mês antes, para 125 dias no espaço, e termina com a fala de Barack Obama sobre a captura e morte de Osama bin Laden, em 2 de maio de 2011.

Mas é dos cidadãos comuns que chegam as histórias mais pungentes. Como a da comissária de bordo Amy Sweeney, do voo United 11, que atinge a Torre Norte, em gravação segundos antes do impacto: “Estou vendo água. Estou vendo prédios. Estamos voando baixo. Estamos voando muito, muito baixo. Ai, meu Deus. Estamos voando baixo demais”.

Ou a história de Pasquale Buzzelli, engenheiro que trabalhava no 64º andar da mesma torre. Ao chegar naquela manhã, sentiu e ouviu o impacto do primeiro avião. Ligou para a mulher, Louise, grávida de sete meses e meio, em casa. Nos minutos seguintes, o prédio desabou com ele dentro. A história tem um final surpreendente; não vale a pena estragá-la aqui.

Diversos lados

O segundo lançamento é O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu, de Simone Duarte, em edição bem cuidada da Fósforo. Nele, a jornalista brasileira conta o outro lado — ou os diversos lados — do 11 de Setembro, a partir da visão de personagens de certa maneira marginais, mas que tiveram a vida impactada por aquele dia. Cada um deles cobre um aspecto geopolítico da autodeclarada “guerra ao terror” dos Estados Unidos.


O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu, da jornalista Simone Duarte
 

Simone conta a história, em suas palavras, de Ahmer, “treinado para ser um menino-bomba” (na verdade, um composto de três personagens); “do jornalista Baker Atyani, escolhido por Osama bin Laden para anunciar um grande atentado; do general Ehsan Ul-Haq, ex-espião-chefe do equivalente à cia paquistanesa; da poeta iraquiana Faleeha Hassan, obrigada a viver no país invasor; de Gawhar, uma afegã que fugiu da ocupação militar americana rumo à Europa; da jovem iraquiana Gena, que fugiu para a Síria, onde cairia em outro conflito sangrento; e de Rafi, um afegão que atravessou oito países para escapar do Talibã”.

Aqui o discurso é ora indireto — ou, como a autora define, as suas “memórias das memórias deles” —, ora direto, caso do depoimento do jornalista Atyani sobre como conheceu Osama. Há até mesmo uma interessante transcrição da jornalista ao vivo no ar naquela manhã em interação com Carlos Nascimento, então âncora da tv Globo em São Paulo. Interessante por explicitar a frágil natureza do trabalho jornalístico, de contar com informações provisórias e em transformação e de ter de dar sentido muito rapidamente a elas.

Simone chefiava a redação da emissora em Nova York naquela manhã. O nome do livro vem da informação dada pelo porteiro de seu prédio sobre o cheiro estranho que tomava seu apartamento ao fim da jornada de trabalho daquele dia. Era o cheiro do ataque ao World Trade Center, que chegava até ali porque o vento mudara de direção.

Os dois livros são lançados num momento em que o vento de novo muda de direção, com a decisão dos Estados Unidos de retirar suas tropas do Afeganistão, agora novamente dominado pelo grupo fundamentalista Talibã. Formam um mosaico de um quadro ainda por ser arranjado, cuja compreensão histórica nos escapa.

Faça parte da principal publicação brasileira sobre livros! Assine a Quatro Cinco Um.

Quem escreveu esse texto

Sérgio Dávila

Jornalista, escreveu Diário de Bagdá (DBA).

Matéria publicada na edição impressa #49 em julho de 2021.