História, Literatura infantojuvenil,
Por outras histórias possíveis
Literatura devolve a um menino indígena o nome e o relato que lhe foram tomados
01out2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110Apesar de ser dedicado ao público infantil, há em Orundellico: a possível história de Jemmy Button, da escritora chilena María José Ferrada e da ilustradora mexicana Mariana Alcántara, uma pertinência a pessoas de qualquer idade, por seu tema e sua abordagem.
O livro conta a história de Orundellico, um menino indígena pertencente ao povo Yagan, que foi levado à Inglaterra no século 19 para ser forçosamente “civilizado” — ou seja, para aprender a abandonar seus costumes tradicionais, tornar-se cristão e falar a língua inglesa, entre outros elementos.
Esse tipo de ação colonial ocorreu em outros territórios indígenas e em outros momentos históricos, como no caso dos tupinambás que foram levados à Europa no século 16. É comum que as interpretações hegemônicas da documentação sobre a retirada de pessoas indígenas de seus territórios privilegie apenas a perspectiva do colonizador e pouco ou nada se escute sobre quem foi vitimado pelas invasões. Contrapondo esse hábito, Ferrada e Alcántara buscam fabular outros sentidos e caminhos, nos quais o “sucesso” da operação colonial é questionado.
O mito do ‘descobrimento’ silencia as nomeações indígenas e encobre as autorias tradicionais
Orundellico nos presenteia com um relato em que o negacionismo colonial não tem vez. Enquanto a narrativa hegemônica descreve a colonização como um processo positivo, consensual e linear, outras histórias a contestam. Fazer frente a esse negacionismo é uma tarefa fundamental e que tem sido levada adiante de muitas maneiras, inclusive pela literatura.
Nomes originários
A negação da violência que permeou e permeia toda a empreitada colonial é outra ação violenta, na medida em que busca retirar das populações vitimadas o direito às denúncias, à memória e ao pertencimento. Ao mesmo tempo, no negacionismo há também a intenção de descredibilizar iniciativas de reconhecimento e reparação dos privilégios advindos dessa exploração. Afinal, uma das dimensões dessa recusa diz respeito à falácia de que a colonização seria coisa do passado, sem consequências no contemporâneo. A força de Orundellico não está apenas no registro ou fabulação de um passado distante, mas no lembrete sobre o presente.
“A partir desse dia chamaram Orundellico de Jemmy Button”, lemos no livro, cientes de que um dos primeiros gestos da invasão, do colonialismo e do imperialismo é o apagamento dos nomes originários. O mito do “descobrimento”, ao silenciar as nomeações indígenas, tenta também encobrir as autorias, as existências e os modos de vida tradicionais.

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No lugar dos termos indígenas que descrevem as gentes (rios, montanhas, bichos e demais seres), colocam homenagens a quem os invadiu. Nas praças, estátuas, nomes de pessoas, cidades, países ou continente, o elogio aos colonizadores tenta apagar outras narrativas desses territórios. Daí a importância da memória e das artes, em toda sua diversidade, no cultivo dessa afirmação que contesta os novos nomes e denuncia seus projetos de dominação.
Ao expandir a escuta a outras vozes, Orundellico traz uma polifonia em que as nuvens e montanhas também se expressam, à sua maneira. A mesma coletividade se apresenta nas ilustrações de Alcántara: as cenas de moradia, pesca e plantio trazem cada pessoa conectada e acompanhada por parentes de seu povo. Há, ainda, espaço para o que não sabemos e para o que talvez nunca saibamos, contrapondo, de alguma forma, o afã incessante do descobrimento.
Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “Por outras histórias possíveis”
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