Ilustrações de Amy Maitland

Literatura infantojuvenil,

Japonês com sotaque caipira

Janaína Tokitaka e Amy Maitland recontam uma das mais queridas histórias do folclore do Japão ao ritmo de moda de viola

07out2026

Recontar uma história já narrada por milhares de vozes e de diversas maneiras é quase tão desafiador quanto a missão de Momotaro, um menino nascido de um pêssego que, com a ajuda de três companheiros (um cão, um macaco e um faisão), enfrenta terríveis onis. E não se trata de uma narrativa qualquer, mas de uma das mais queridas do folclore japonês.

De Lúcia Hiratsuka a Ryunosuke Akutagawa, passando por incontáveis bachans (avós) pelo mundo, o menino-pêssego tem revivido suas aventuras, acompanhado sempre por amigos e kibidangos. Em A moda de Momotaro, testemunhamos uma das raras vezes em que nos deparamos com algo novo em um universo já tão explorado. O texto de Janaína Tokitaka e as ilustrações de Amy Maitland conseguem um feito notável, pois não carregam uma única voz, mas uma polifonia que ecoa desde épocas ancestrais do outro lado do mundo, trazida ao Brasil com os primeiros imigrantes nipônicos.

À primeira vista, pode parecer que as autoras subvertem a história, apresentando algo alheio à alma japonesa. No livro delas, temos um enredo em ritmo de moda de viola caipira. Mas Tokitaka mantém o espírito da lenda, respeitando as suas origens, ao mesmo tempo que aproxima a história da cultura brasileira.

Momotaro teve fome e na marmita encontrou/ Enrolado com capricho um belo kibidango.

Nesse trecho, por exemplo, equilibra dois mundos ao manter a palavra japonesa kibidango e traduzir obentô como “marmita”. A autora também optou por manter a palavra oni, que em alguma versões é traduzida como “ogro” ou “demônio”. A escolha me parece tão acertada quanto não traduzir kibidango com o nada divertido “bolinho de painço”.

A autora mantém o espírito da lenda ao mesmo tempo que a aproxima da cultura brasileira

A história aceita bem a musicalidade. Há até uma canção entoada alegremente pelas crianças japonesas: “Momotaro-san, Momotaro-san/ O-koshi ni tsuketa kibidango/ Hitotsu watashi ni kudasai na?” (em português: Sr. Momotaro, Sr. Momotaro, o bolinho de painço em sua cintura, por favor, me dê um). A canção prossegue, e nosso herói responde que dará um bolinho se for acompanhado na luta contra os onis. No texto de Tokitaka, o ritmo pode ser outro, mas se canta com a mesma alegria.

Batalha

As ilustrações de Maitland também trazem novos ares à história. Uma novidade é que, na equação de um menino-pêssego, o que se subtrai é o menino, restando ao pêssego viver as heroicas aventuras. A personificação de uma fruta calçando geta (tamanco de madeira japonês) é uma divertida surpresa.

Seguem-se as criativas representações do cão, do macaco e do faisão, passando por paisagens oníricas que apresentam uma jornada até o encontro com os temíveis onis. A ilustração do embate nos lança em uma batalha visual, que ressalta o impacto de uma história lendária. Maitland não apenas retrata o que as palavras expressam, mas acrescenta um novo sentido imagético, que, com vida própria, não larga a mão da narrativa, assim como os heróis da história.

O texto sucinto dá conta do recado. Tokitaka explora a concisão para criar silêncios que são preenchidos por Maitland, sobretudo com a escolha das cores. No início, paisagens amarelas, verdes e azuis, que vão se diluindo em um preto e branco à medida que a batalha se desenrola. Os quatro heróis são engolidos pela cena dominada pelos inimigos — somente pequenas partes dos amigos aparecem aqui e ali. Cria-se a expectativa: o que vai acontecer? Até que as cores retornam, demonstrando a vitória de Momotaro e seus companheiros, movidos a kibidango e amizade, que, afinal, é a mais deliciosa das receitas da vida. Janaína Tokitaka e Amy Maitland não trouxeram só mais uma versão da história de Momotaro ao Brasil. Com esta moda o tornaram brasileiro.

Quem escreveu esse texto

André Kondo

Editor e escritor, venceu o Prêmio Jabuti 2025 pelo romance O silêncio de Kazuki (Telucazu).

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.