Ilustrações de Michelle Cunha

Literatura infantojuvenil,

Contadoras de histórias

Em Anete e o peixinho Bambo, a marajoara Isabella Miranda resgata narrativa contada pelas mulheres de sua família, unindo cultura e afeto

16out2026 • Atualizado em: 15out2026

Em alguns lugares, a oralidade é uma forma de manter a memória e a cultura vivas. O que parte do país conhece apenas como “folclore” e “lenda” pode ser a herança ancestral de uma família, de uma comunidade e de um território. Mais antiga que a escrita, essa prática também se torna a porta de entrada para aproximar as crianças do universo literário. 

Foi o que aconteceu com a paraense Isabella Miranda, que estreia na literatura com o infantojuvenil Anete e o peixinho Bambo (Companhia das Letrinhas). Em entrevista à Quatro Cinco Um, ela conta como resolveu transformar em livro a tradição de contar histórias transmitida por várias gerações de sua família, na ilha do Marajó. 

Em que momento você percebeu que poderia transformar em livro as histórias que cresceu ouvindo? 
Em uma das minhas férias no Pará, estava na casa da minha mãe, as duas deitadas na rede, e ela começou a contar umas histórias muito boas. Mas toda vez que pedia para minha mãe fazer um áudio com alguma história, para usar no teatro ou em outra coisa, ela enfeitava as palavras. Nesse dia, quando ela contou a segunda história, que é a da menina e o peixinho dourado, pensei: “vou gravar escondido e guardar o áudio; quando estiver com saudade, escuto”, porque ela estava falando do jeito dela. Cheguei em São Paulo e saí para assistir a uma peça com um amigo meu. Contei a história e ele falou: “acho que você tem que publicar isso”. Nunca tive a expectativa de contar histórias do Marajó. O Marajó é tão estigmatizado, chega aqui de formas tão distorcidas, que pensei que  as pessoas não iam querer saber. 

A minha ex-companheira, a Amara Moira, também me incentivou. Eu ia escutando o áudio da minha mãe e fazendo os primeiros rascunhos do texto.  

Este é seu primeiro livro. Como foi escrevê-lo?
Fui pegando dicas preciosas de autores que já estão aí. A Amara falou: “acho que você tem que colocar a sua avó como a narradora do livro”. Como autora de primeira viagem, ainda preciso desses fios — o que funciona, o que não. Essas pessoas me ajudaram a colocar não só a minha avó como protagonista, como a minha mãe, que é a menina, e o Lago Arari também. O Marajó como protagonista da história. A minha avó contava essa história para a minha mãe, é uma história ancestral de família, que foi passada de geração em geração. Na hora de dar o título, pensei: “e se essa menina se chamasse Anete [nome da mãe]?”. A gente foi construindo o texto para que a minha mãe pudesse se ver nesse lugar.

No lançamento, minha mãe falou para o público que os livros a que tinha acesso eram os que as filhas da patroa deixavam para ela nas férias. A minha mãe é uma mulher preta e nunca pôde se ver nesses livros. Quando ela abria, era sempre aquela menina branca, alta, muito bonita, pegando as frutinhas do pomar. Minha mãe diz que queria ser a menina branca, que não conseguia ver beleza em si porque o que era belo eram as meninas que apareciam nessas histórias. Queria um livro que fosse uma homenagem à Anete e às Netinhas de Cachoeira do Arari, para que uma criança possa se ver numa literatura infantil amazônica. 

Sendo uma escritora nortista, como esse território influencia a sua escrita? 
Tem uma influência não só na minha escrita, mas na minha vivência de corpo, de como me coloco. Moro em São Paulo há cinco anos e não tem um dia em que não fale do Marajó para alguém. Do quanto essas mulheres marajoaras fazem uma diferença enorme para o mundo, o quanto são caprichosas. Todos esses elementos quis colocar no meu livro como uma homenagem. A ilustração do vestido de retalho, da tiara de fuxico, pedi para a Michelle Cunha, muralista e ilustradora que mora em Soure, na ilha do Marajó. Pedi para fazer exatamente desse jeito, e ela fez com muito zelo como uma mulher paraense que é. 

No Marajó tem muitas mulheres como a minha tia Dedé, que é mestra da cultura alimentar, do artesanato, tem os mestres da dança, do carimbó, e outros que ajudam a preservar a cultura ancestral da ilha. Carrego essas pessoas como influências diretas na minha vida. Quando lancei o livro, as pessoas lá no Marajó soltaram fogos — foi uma coisa maravilhosa, mandaram mensagem. Sinto que, quando uma marajoara chega em algum lugar, publica livro numa editora grande, é o Marajó que ganha. O meu papel é honrar a terra de onde vim e onde as minhas raízes estão. A gente é como uma árvore: dá frutos, galhos e flores, mas nunca podemos esquecer as nossas raízes, eu prezo isso. 

Existe alguma dificuldade em transformar uma história oral em escrita? Como não perder a essência do que era a versão contada? 
Eu e meus irmãos escutamos muitas histórias desde criança. Minha mãe, minha avó, minha tia e meu avô eram contadores de histórias, então a gente se torna um também. A contação de histórias é muito corporal, tem aquela entonação corporal. Não aprendi isso no teatro, aprendi com as contadoras de histórias da minha família. A expressão corporal é única e trazer isso para o livro foi um desafio. 

Este livro vem sendo construído desde 2024 e só está sendo lançado agora para não perder a tonalidade do narrador, que é a minha avó contando para os netos. Depois o livro se desdobra para o mundo encantado, onde a Anete brinca com o peixe no lago, como se fosse algo mais fantástico. Falo para as pessoas que este livro tem que ser contado em voz alta para que os adultos e as crianças possam falar com a entonação do pássaro, com o ronco da avó. Só que agora tem um diferencial: recomendo sempre ler acompanhando as ilustrações. Na contação de história, nós só fechamos os olhos e imaginamos. Conseguia imaginar o que minha avó falava porque era tudo parte do meu cotidiano, mas na minha infância não sabia, por exemplo, o que era uma lareira, porque nunca tive uma. Hoje, quero que as crianças possam se ver neste livro também com as imagens. A menina como ela é, o bicho como ele é. 

Você sempre pensou na história como um livro infantojuvenil?
Quando propus para a minha editora não sabia em qual selo iria lançar. O livro tem um desdobramento que não é comum aos infantis. Quando a minha mãe contava, ela suavizava um pouco, porque ficávamos muito impactados, mas minha avó dizia “não, isso aconteceu sim”. Não importava quanto a gente chorasse, a vovó não mudava o final das histórias. Como ela é a narradora do livro, preferi também que não mudasse. Mas, com esse desdobramento, será que caberia num selo infantil? Foi aí que minha editora falou: “é um livro infantil”.

Qual você acredita ser o papel da literatura na aproximação de crianças de outras regiões com o norte? 
Uma vez, estava na pequena biblioteca pública da minha cidade e abri um livro que tinha algumas obras do Louvre. Apareceu uma imagem nesse livro chamada Hermafrodita dormindo. Tinha a imagem da escultura e ao lado a descrição de que, quando você vê a obra pessoalmente, dependendo do ângulo, dá a impressão que ela é feminina e masculina, uma ilusão. Achei aquilo tão bonito. Lia e relia aquele texto. Quando imaginaria um dia estar no Louvre? Nem passava pela minha cabeça.

No ano passado, estive em Paris com amigos e queria muito ir ao Louvre só para ver essa obra. Fui me aproximando da sala e a emoção foi tomando conta. A impressão que tive foi que estava voltando naquele museu. Falei para os meninos: “não sei francês, mas sei o que está escrito nesta placa porque lembro desde quando tinha doze anos”. Isso é exatamente o que os livros fazem com a gente. Um livro sobre o Louvre que chega em Cachoeira do Arari, na biblioteca, e que uma criança vai abrir e ler. Os livros têm o papel de fazer a gente imaginar.

Quando penso na importância da literatura nortista para o país e para o mundo, é exatamente disso que estou falando. Gostaria que as crianças pudessem um dia chegar na Amazônia e relacionar uma menina correndo na beira de um igarapé com a Netinha, ou, durante a noite, ver a rasga-mortalha e relacionar com a do livro, uma avó diferentona com a dona Didi, as imagens daquelas casas com um livro que ela já leu. Não o livro de alguém que foi lá, descreveu como era aquele povo e foi embora, mas feito por uma artista e escritora da terra, que conta a história da sua região e família. Que as crianças possam ir à Amazônia e tenham a mesma sensação que tive quando visitei Paris.

Quem escreveu esse texto

Maria Eduarda de Oliveira Maia

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.

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