Conto de fadas II (1896), do artista finlandês Hugo Simberg (Heritage Art/Heritage Images via Getty Images)

Literatura infantojuvenil, Mercado editorial,

Queimem as fadas

Sob a mira da censura de grupos conservadores e progressistas, literatura infantojuvenil se torna trincheira da guerra cultural

01out2026 | Edição #110

É impossível dizer exatamente quantos livros foram censurados no Brasil durante a ditadura militar. No incontornável 1968: o ano que não terminou, Zuenir Ventura fala em cerca de duzentos títulos proibidos. Um levantamento feito na Divisão de Censura de Diversões Públicas chega a 490 títulos submetidos à censura prévia a partir de 1970, sendo que setenta publicações de autores brasileiros foram vetadas. Já a pesquisadora Ana Caroline Silva de Castro se debruçou sobre processos do Superior Tribunal Militar de 1964 a 1979 e contabilizou 323 autos de busca e apreensão, com mais de 6 mil livros confiscados.

Como os critérios e as fontes são diferentes, esses e outros números variam. Para piorar, muitos documentos foram perdidos com o fim do regime, diversos confiscos nem sequer foram registrados, a imprensa estava proibida de noticiar casos do tipo, e a autocensura gerada pelo clima de perseguição abortava muitas publicações antes mesmo de saírem.

Apesar de a violência contra o mercado editorial ser um quebra-cabeça com peças faltando, há uma espécie de consenso entre autores e pesquisadores: a literatura infantojuvenil não estava entre as principais preocupações dos censores durante a ditadura.

“Chegamos à conclusão de que os generais não liam para os seus netos. Na verdade, acho que eles não liam nada, porque a gente nem chegava a disfarçar”, relembra a escritora Ana Maria Machado. “A Ruth Rocha inventou vários reis, como o Reizinho Mandão, que falavam diretamente sobre o poder. Eu escrevi Era uma vez um tirano — esse era o título — e saiu normalmente.”

Por mais paradoxal que possa parecer, foi nos anos 70 que a literatura infantojuvenil brasileira respirou novos ares. Mesmo sob a pressão do AI-5, que arrasou os direitos individuais e abriu as portas para a repressão mais sangrenta do regime, uma nova geração de autores começou a publicar histórias para crianças e jovens que rompiam com o moralismo, driblavam a caretice e questionavam as finalidades pedagógicas.

Mesmo sob o AI-5, uma geração de autores publicou histórias para crianças que rompiam com o moralismo

Ana Maria Machado, Marina Colasanti, Lygia Bojunga, João Carlos Marinho, Elvira Vigna, Ziraldo, Ruth Rocha, Wander Piroli, Bartolomeu Campos de Queirós, Juarez Machado e vários outros nomes buscavam reivindicar o livro infantil como território de liberdade, arte e experimentação, mesmo acossados pela opressão política e pela censura institucionalizada.

Só que as coisas vêm mudando.

Casos de censura e perseguição contra a literatura infantojuvenil estão se avolumando não só no Brasil, mas no mundo. Não é exagero dizer que a infância é hoje uma das trincheiras mais sangrentas da chamada guerra cultural ou de costumes.

A diferença é que agora a pressão usa outras máscaras. O carimbo do censor estatal vem saindo de cena e dando lugar a novas maneiras de tentar proibir a circulação dos livros.

Um dos alvos mais recentes foi o clássico A bolsa amarela, de Lygia Bojunga. Lançado em 1976, tornou-se um marco editorial e ajudou a consolidar o prestígio nacional e internacional da escritora. Apenas ela e outros cinco autores de todo o mundo receberam os dois principais troféus da literatura infantojuvenil: o sueco Alma, sigla do Astrid Lindgren Memorial Award, e o Hans Christian Andersen, considerado o Nobel para esse público.

Ser menino

Se A bolsa amarela driblou a tesoura da ditadura, o mesmo não ocorreu no Colégio Militar Dom Pedro II, no Distrito Federal. Em maio deste ano, o romance recebeu uma saraivada de reclamações feitas por pais de alunos do quarto ano, que precisaram ler uma resenha da história durante a disciplina de língua portuguesa.

Embora a íntegra do livro não tenha sido adotada pelo colégio, a escrita de Bojunga foi acusada de espalhar “ideologias de gênero”. O motivo? Raquel, a protagonista da narrativa, tem três desejos guardados em sua bolsa: crescer, tornar-se escritora e ser menino. Este último foi a causa do escarcéu.

‘A censura hoje é diferente. Sofri ameaças contra mim, meus filhos e netos e tive que sair das redes sociais’

A vontade da personagem, contudo, nasce da percepção de que os garotos costumam ter muito mais liberdade do que as meninas. E aqui vai um spoiler: no fim, ela abandona esse desejo, que se transforma em uma pipa e sai voando.

“Geralmente, quem defende esse tipo de proibição não lê”, afirma João Luís Ceccantini, pesquisador de literatura infantojuvenil e um dos organizadores de Literatura infantil e juvenil na fogueira. “Eles atacam o livro para desviar a atenção do que realmente importa.”

Lançado pela Aletria em 2024, o calhamaço de 552 páginas reúne artigos que destrincham episódios de censura contra aproximadamente trinta títulos para a infância nas últimas décadas. “Está piorando. As pessoas fazem leituras de mão única e querem reduzir as crianças a seres humanos simplificados, controlados e fáceis de doutrinar. Mas não é assim. A boa literatura abre caminhos. Ela expande a cabeça do leitor, nunca restringe”, afirma.

O próprio A bolsa amarela já havia sido perseguido em 2019 por um vereador de Limeira, cidade no interior de São Paulo, por supostamente “afrontar princípios morais dos pais e dos próprios alunos” da rede municipal. Nos anos seguintes, outras narrativas sofreram ataques semelhantes, como o clássico O diário de Anne Frank (1947); Amoras (2018), de Emicida; O menino marrom (1986), de Ziraldo;e Ciranda de Aruanda (2021), de Liu Olivina.

Este último motivou um dos casos mais graves. Em novembro do ano passado, um grupo de policiais militares armados entrou em uma escola municipal da capital paulista. O pai de uma aluna decidiu denunciar o colégio por discordar de uma atividade pedagógica feita pela filha. Inspirada pela leitura de Ciranda de Aruanda, que apresenta os orixás e a cultura afro-brasileira para crianças, a menina fez um desenho de Iansã. Isso contrariou as convicções religiosas do adulto.

Ilustração feita por Arthur Rackham, no século 19, para o conto “Os doze irmãos”, dos irmãos Grimm (Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images;)

A violência alcançou também Ana Maria Machado. “A censura hoje é diferente. As redes sociais criam uma delação digital e institucionalizada. No caso do meu livro, sofri ameaças de todos os tipos, contra mim, meus filhos, meus netos. Tive que sair das redes sociais, porque cheguei a receber 14 mil mensagens em um só dia”, relembra.

A escritora se refere a O menino que espiava pra dentro (1983), no qual o personagem deseja passar o máximo de tempo possível no mundo da fantasia. Para isso, ele usa várias táticas ligadas aos contos de fadas — entre elas, tentar se engasgar com uma maçã, em uma clara referência a Branca de Neve. Em 2018, grupos enxergaram nessa cena um incentivo ao suicídio infantil e iniciaram uma campanha contra a autora.

“Eles têm todo o direito de não gostar do livro. Mas estamos vivendo um clima de perseguição. Além dos ataques on-line, entraram maciçamente em contato com a Amazon e com várias livrarias, pedindo que parassem de vender todos os meus livros. Todos. É uma mentalidade de delação e ódio. É muito pior do que na ditadura”, avalia.

Seres sensíveis

Não é apenas o conservadorismo moral e religioso que promove essas campanhas. Machado conta que chegou a ser processada por causa de outro título: Menina bonita do laço de fita (1986). Nesse caso, leitores consideraram a história racista pelo uso da palavra “mulata” e por não enxergarem na trama uma representação suficientemente positiva da população negra, sobretudo da protagonista, que não tem nome e é chamada de “pretinha” por um coelho branco.

Algo parecido ocorre com a obra de Monteiro Lobato, que sofre pressões para ser retirada de colégios e bibliotecas devido a passagens abertamente racistas. A disputa chegou aos tribunais e, em 2024, o Superior Tribunal de Justiça rejeitou um pedido para proibir a adoção de Caçadas de Pedrinho (1933) em escolas públicas.

Antes disso, em 2017, o livro Peppa (2009)foi retirado de catálogo a pedido da própria autora, Silvana Rando, após receber ataques contra a representação do cabelo da protagonista no texto e nas ilustrações. Em 2021, Abecê da liberdade: a história de Luiz Gama, o menino que quebrou correntes com palavras (2015), de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta, foi recolhido pela editora após críticas a uma cena em que crianças escravizadas brincam dentro de um navio negreiro.

“Quando a literatura trabalha essas questões na linguagem e na estética, ela move as coisas. Por isso, é considerada tão perigosa. A vontade de controlar e proibir vem da direita, da esquerda, do centro, de baixo, de cima”, afirma Nilma Gonçalves Lacerda, pesquisadora de literatura infantojuvenil e uma das organizadoras do recém-lançado O mundo que se quer esconder das crianças.

Ilustração de Arthur Rackham (1867-1939) (Culture Club/Getty Images)

Na coletânea, artigos defendem o livro para crianças e jovens como um espaço de enfrentamento, incômodo, desafio e reflexão. Em vez de se organizar a partir de títulos censurados, propõe um mergulho nos assuntos que costumam ser classificados pelo jargão da área como “temas fraturantes”. Entre eles, estão a morte, a sexualidade, as desigualdades sociais, as questões raciais, a violência e a política.

“Quando a gente interdita temas, sujeitos e experiências na literatura, estamos proibindo muito mais do que uma história”, diz Fabíola Farias, também organizadora da coletânea. “Interditamos vidas, modos de existir e formas de disputar um lugar no mundo. Não é só uma questão literária. Tem a ver com a nossa democracia.”

Para Lacerda, a censura às narrativas infantojuvenis é uma questão que vai muito além da infância. “A literatura é um exercício de subjetividade. Ela permite uma construção da pessoalidade e da liberdade. Por que grupos preferem a proibição? Porque dá muito trabalho educar com liberdade — e dá ainda mais trabalho governar com liberdade.”

Mas como frear a onda de proibições e perseguições? Como garantir que a literatura chegue a crianças e jovens com toda a sua complexidade? “Precisamos apostar nas crianças e entendê­-las como sujeitos sensíveis, inteligentes e capazes de lidar com uma literatura potente, que fala do mundo, da experiência humana, das disputas sociais e da complexidade da vida”, sugere Farias. “É difícil. Acho que é uma aposta de longo prazo.”

“A criança não é uma debiloide. Não é um depósito onde você enfia ideias prontas e joga a chave fora”, diz Ceccantini. “Se esses grupos realmente quisessem resolver algum problema do Brasil, deveriam estar atacando e censurando as bets. Elas, sim, estão destruindo crianças, jovens e famílias inteiras. Deixem a literatura em paz.”               

Quem escreveu esse texto

Bruno Molinero

É jornalista e escreve sobre literatura infantojuvenil no blog Era Outra Vez, da Folha de S.Paulo. Seu livro Corpo de Passarinha (SM) venceu o prêmio Barco a Vapor de 2023.

Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “Queimem as fadas”

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