A autora luso-libanesa Safaa Dib (Geiziely Fernandes/Divulgação)

História,

O país que se herda

Cruzando autobiografia e história, Safaa Dib investiga o Líbano dos pais a partir de sua posição pertencente e estrangeira

21set2026

Há países que conhecemos pela geografia; outros, pela história. Há ainda aqueles que só parecem se tornar inteligíveis quando alguém os conta a partir de uma casa, de uma família, da língua herdada, de uma guerra que terminou oficialmente mas continuou vivendo na memória dos que partiram. Líbano: uma biografia, de Safaa Dib, pertence à última categoria. Seu título já contém uma escolha significativa: não se trata de “uma história” do Líbano, mas de “uma biografia”. Como se um país pudesse ter infância, traumas, rupturas, migrações e fantasmas, como se pudesse ser contado à maneira de uma vida.

Filha de imigrantes libaneses, nascida no Catar e criada em Portugal, Dib escreve a partir de uma distância que nunca chega a ser separação. O Líbano do livro é, ao mesmo tempo, país real, território histórico e lugar imaginado pela diáspora. É o país dos pais, das histórias ouvidas desde a infância, das viagens de regresso, das relações familiares e, sobretudo, das perguntas de quem cresce entre pertenças: de onde venho? O que exatamente herdei? Quanto de um lugar em que não nasci existe em mim?

A escrita de Dib nasce da necessidade de compreender. É uma investigação sobre a própria origem que não permite que a história permaneça distante da narradora. Quando fala dos drusos, por exemplo, não está apenas descrevendo uma comunidade religiosa do Oriente Médio. “Nasci drusa numa família drusa”, lembra, e evoca a sua imagem ainda jovem, buscando em enciclopédias respostas para entender o que aquela identidade significava. A história coletiva surge, assim, de uma pergunta íntima.

Essa perspectiva atravessa o livro. Líbano: uma biografia recusa a separação rígida entre autobiografia e história. A narrativa vai da aldeia de Kfarmatta à formação do Líbano moderno, da imigração dos pais para Portugal à guerra civil libanesa, das lembranças de infância às diferentes comunidades religiosas, de Beirute às experiências profissionais e políticas da autora. Essas linhas correm lado a lado e se cruzam continuamente, fazendo da mudança de escala — da casa ao país, do indivíduo à comunidade — um princípio.

É na história da família, porém, que o livro encontra seus momentos mais fortes. A migração ganha corpo e memória, e emigrar significa aprender a viver em outro país, criar filhos em outra língua, trabalhar, erguer uma casa e formar um lar longe daquela que ficou para trás. É também inventar maneiras de lidar com a distância. Dib lembra o tempo em que falar com o Líbano dependia de cartas, telefonemas caros e até fitas cassete que transportavam as vozes da família. Décadas depois, celulares e redes sociais transformariam radicalmente essa relação. A tecnologia modifica a própria experiência da ausência. Nesses momentos, a história da diáspora se torna experiência sensível.

A família Dib (Divulgação)

O Líbano herdado pelos filhos dos emigrantes não coincide com o Líbano daqueles que partiram. Entre o país transmitido pela memória e aquele que se encontra ao regressar há sempre um descompasso. É nesse intervalo que Dib escreve. Portugal é o lugar para onde os pais emigraram e também onde ela se forma intelectual e profissionalmente, trabalha no mundo editorial, participa da vida política e constrói sua identidade. O Líbano, por sua vez, precisa ser descoberto, interrogado e, em certa medida, desaprendido.

Essa distância impede que a narrativa se transforme numa celebração sentimental das raízes. Há afeto e nostalgia, como há desconforto diante das tradições, das estruturas comunitárias e do peso que a pertença pode exercer sobre o indivíduo. Conhecer as próprias origens, sugere o relato, não significa necessariamente encontrar nelas uma resposta pacificadora. À medida que Dib se aproxima do país que recebeu dos pais, ele se torna menos, e não mais, simples.

Dimensões

A história libanesa torna difícil qualquer ideia de identidade homogênea. Dib destaca a multiplicidade religiosa e comunitária de um país cuja vida política permanece organizada segundo pertencimentos confessionais.

Para mostrar como esse mosaico se constituiu, atravessa civilizações antigas, impérios, as relações entre drusos e maronitas, o período otomano, a Nahda (o renascimento cultural e intelectual árabe iniciado no século 19), o colonialismo europeu, a formação do Líbano contemporâneo e a guerra civil. A amplitude permite notar que os conflitos recentes têm raízes muito anteriores e que a história libanesa se fez também de intensas circulações entre o mundo árabe e a Europa. Não é casual que a tradução apareça como uma força constitutiva da modernidade árabe: num livro sobre identidades herdadas e transformadas, línguas e culturas tampouco permanecem intactas.

Montanhas no Líbano (Divulgação)

Mas essa amplitude cobra seu preço. Quanto mais a autora se aproxima da síntese histórica, mais se afasta da singularidade da voz que a torna especial. Há momentos em que a sucessão de nomes, datas, acontecimentos, comunidades e explicações transforma a narrativa numa espécie de história geral condensada do Líbano. O impulso pedagógico é compreensível diante de um leitor português ou brasileiro, que provavelmente conhece pouco da história libanesa, mas nem sempre a passagem entre memória e exposição histórica é orgânica. O relato perde, então, algo da força que adquire quando a grande história é percebida através de uma experiência particular.

Entre o país transmitido pela memória e aquele que se encontra ao regressar há sempre um descompasso

Essa é talvez a tensão fundamental do livro. Dib precisa da história para compreender a memória familiar, mas, quando a história ocupa espaço demais, ameaça justamente aquilo que torna seu relato singular. A pesquisa histórica sustenta a narrativa; sua força particular, porém, vem da posição da filha que tenta compreender o que produziu a vida dos pais e, consequentemente, a sua. É quando essas duas dimensões iluminam uma à outra que Líbano: uma biografia alcança sua maior potência.

A guerra civil, entre 1975 e 90, oferece o exemplo mais evidente do encontro entre as duas dimensões. Ela deixa de ser uma sucessão de acontecimentos políticos e surge como uma fratura que reorganizou famílias, comunidades e memórias, prolongando-se nos silêncios, ressentimentos e movimentos de dispersão que produziu. A guerra terminou; o efeito nas vidas continuou. Para quem nasceu depois ou cresceu longe, ela pode chegar como memória anterior à própria memória — uma experiência não vivida que, ainda assim, participa daquilo que se herda.

Emerge então outra questão: quem pode contar um país?

Impossibilidade

Dib escreve sobre o Líbano em português, a língua do país para o qual seus pais emigraram, na qual ela própria se constituiu. O gesto não é secundário. O país transmitido em casa precisa ser narrado na língua adquirida fora dela. Ao leitor que talvez conheça o Líbano sobretudo pelas guerras, crises e imagens televisivas, a autora oferece outro repertório: histórias familiares, paisagens, comida, religiões, literatura, aldeias e afetos. Seu Líbano é feito simultaneamente de convivência e violência sectária, cosmopolitismo e rígidos pertencimentos comunitários.

A experiência da autora aponta, porém, para uma ideia de pertença menos estável. Não se trata de escolher entre Portugal e Líbano, entre aqui e lá, mas de conviver, por vezes de maneira incômoda, com vários lugares dentro da mesma história. A segunda geração não recebe dos pais uma identidade pronta. Recebe materiais: sobrenomes, hábitos, palavras, histórias, silêncios. E precisa decidir o que fazer com eles.

É um livro sobre o Líbano e também sobre o que uma geração transmite à seguinte sem perceber

Nesse aspecto, Líbano: uma biografia ultrapassa seu objeto imediato. É um livro sobre o Líbano e sobre aquilo que uma geração transmite à seguinte sem necessariamente perceber que o está fazendo. Herdam-se guerras não vividas, a nostalgia de lugares não conhecidos e fidelidades cuja origem nem sempre se compreende. Ao investigar sua história familiar, Dib transforma essa herança involuntária em matéria de conhecimento e, portanto, de escolha.

Safaa Dib no colo do pai, em Dubai (Divulgação)

Há, contudo, um limite inscrito no título. Nenhuma história pessoal consegue conter e contar um país inteiro. Chamar o livro de “biografia” é assumir esse risco: fazer uma vida familiar aproximar-se da vida de uma nação sem confundir uma com a outra. O interesse do projeto está justamente nessa impossibilidade. O Líbano que Dib pode contar não é o Líbano, mas aquele que se torna visível a partir de sua posição, íntima e distante, pertencente e estrangeira ao mesmo tempo. Toda biografia escolhe o que destacar, e a de um país não poderia ser diferente.

Ao final, quanto mais Dib procura compreender de onde vem, menos simples se torna a resposta. Sob uma origem e uma identidade aparecem outras. Talvez seja esta a sua descoberta mais fecunda: uma herança não é apenas o que se recebe, mas aquilo que, depois de recebido, precisa ser interrogado. Líbano: uma biografia se constrói nesta distância: entre o país que se recebe como herança e aquele que é preciso conhecer por conta própria.

Nota do editor
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros.

Quem escreveu esse texto

Safa Jubran

Pesquisadora e tradutora, escreveu Árabe e português: fonologia contrastiva com aplicação de tecnologias informatizadas (Edusp).

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