A autora norueguesa Erika Fatland (Divulgação)

História,

Além do Bojador

A norueguesa Erika Fatland viaja por dois oceanos, 29 países e quatro continentes para ver o que sobrou do império português

21out2026

“Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor”, já diziam os famosos versos de “Mar português”, de Fernando Pessoa, que resumem o espírito explorador da diminuta região localizada na ponta da Península Ibérica, entre a Espanha e o oceano Atlântico. Não é exagero dizer que as grandes navegações, iniciadas pelos portugueses no século 15 para encontrar novas rotas marítimas até a Índia e suas caríssimas especiarias, mudaram o mundo que se conhecia até então.

De entrepostos estabelecidos ao longo da costa ocidental africana, em Ceuta, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé, Príncipe e Angola, passando por Moçambique, Goa, Sri Lanka, ilhas Banda, Macau, Malaca, ilhas Molucas, Santa Helena, Timor-Leste e Japão, até chegar ao Brasil, na América do Sul, os portugueses deixaram sua marca em quatro continentes e foram, por um século, um dos impérios mais poderosos do mundo. Além disso, ao longo do século 20, enquanto as potências europeias perdiam suas colônias na África e na Ásia, Portugal as manteve sob sua influência até a entrada do século 21, já que a administração de Macau passou oficialmente ao governo chinês só no fim de 1999.

O que teria sobrado, então, desses cinco séculos de expansão marítima? É o que a jornalista e antropóloga norueguesa Erika Fatland tenta responder em Navegadores: uma viagem através do império perdido de Portugal. Para realizar tal empreitada, ela viajou por 29 países e quatro continentes ao longo de três anos, a partir do período em que a pandemia de Covid-19 estava arrefecendo. Mas não foi só pela terra e pelo ar que ela se deslocou. Fatland resolveu seguir também o trajeto marítimo dos navegadores portugueses, como Vasco da Gama e Bartolomeu Dias, apoiados por figuras como o Infante D. Henrique e D. Manuel 1º.

Viajante experiente

Navegadores é, até agora, o projeto mais ambicioso de Fatland, viajante experiente e autora de outros três relatos de viagem. Ela ganhou projeção internacional com Sovietistão, lançado originalmente em 2015, em que conta suas viagens por Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão. Em seguida, saiu A fronteira: uma viagem em torno da Rússia — pela Coreia do Norte, China, Mongólia, Cazaquistão, Azerbaijão, Geórgia, Ucrânia, Belarus, Lituânia, Polônia, Letônia, Estônia, Finlândia, Noruega e Passagem do Nordeste, de 2017 (ambos traduzidos também por Pinto Silva e publicados pela Âyiné).

Fatland passou mais de cinquenta dias no mar em dois cargueiros, com uma tripulação de filipinos

Em 2020, veio High: A Journey Across the Himalayas, Through Pakistan, India, Bhutan, Nepal and China (ainda sem tradução no Brasil). Por fim, em 2024, a viagem pelo império lusitano.

Nessas andanças, ela percebe a presença do português como língua oficial nas ex-colônias africanas e no Brasil (que, como observa, tem uma gramática e cultura linguística próprias), além de ter originado várias línguas asiáticas que estão morrendo (como o kristang de Malaca, na Malásia; o crioulo português das ilhas Banda, na Indonésia; e o patoá português de Macau). Outra herança deixada pelos lusitanos encontra-se na música e na culinária de muitas dessas comunidades — o tempurá japonês, por exemplo, só existe por causa da influência portuguesa no Japão.

Fatland conclui que os oceanos pelos quais os portugueses se aventuraram ainda eram os mesmos (não tenho certeza disso) e que o império português era, antes de tudo, um império marítimo (o que é um fato). Ela passou mais de cinquenta dias no mar, acompanhada de uma tripulação composta por filipinos, em dois cargueiros da empresa norueguesa Höegh.

Na primeira parte da viagem, saiu da cidade espanhola de Santander, seguindo a costa oeste africana, passando pelo golfo de Biscaia, o cabo do Bojador (tido no século 15 como a fronteira do mundo conhecido) e o cabo da Boa Esperança, até aportar em Durban, na África do Sul. Na segunda perna da viagem, cruzou o oceano Índico até a Coreia do Sul. Um registro semanal da vida a bordo, escrito por Fatland, pode ser conferido no site da empresa norueguesa, que foi uma das financiadoras da viagem.

Alguns desses relatos também se encontram em Navegadores, intercalados aos capítulos voltados aos países pelos quais os portugueses deixaram seus rastros. Dias monótonos, trocas de fuso horário, noites solitárias ou regadas a karaokê, intrigas entre os tripulantes, a difícil vida de um marinheiro tanto no mar quanto no retorno à terra.

Valendo-se de crônicas portuguesas de séculos atrás, ela tenta imaginar como era a rotina nos barcos da época, com sua falta de privacidade, comida e água potável, sua sujeira, doenças, mortes e o desconhecimento sobre os mares nunca d’antes navegados por europeus.

Conflitos

Em entrevistas, Fatland fala bastante de Guiné-Bissau, um país com parca literatura para o aspirante a turista. Segundo ela, foi um dos países mais difíceis pelos quais já viajou, inclusive para se locomover entre as ilhas do arquipélago dos Bijagós e por um acidente que sofreu ao cair de uma motocicleta. É possível sentir o desespero, a irritação e até a abnegação da autora nessa parte da viagem, assim como em Angola — o relato está recheado de observações sobre a falta de pontualidade. É lá, aliás, que ela ouve falar da invasão russa na Ucrânia, tema de seu próximo livro.

No trecho sobre Moçambique, Fatland lança luz sobre um conflito armado pouco falado na imprensa internacional. O conflito na província de Cabo Delgado, no norte do país, já causou, desde 2017, mais de 6.600 mortes, mais de 660 mil deslocados internos, sequestros em massa de meninos, que são transformados em crianças-soldado, e uma população traumatizada com os ataques de extrema violência. Segundo Fatland, ninguém consegue explicar as origens do conflito, que envolve ricas reservas de gás natural, a vulnerabilidade social e o extremismo de grupos armados na região. As seções sobre as ilhas Banda, Timor-Leste e, em especial, a ilha de Santa Helena são outros pontos altos do relato.

Buracos

Apesar de ter o tamanho de uma epopeia, a narrativa não abarca etapas interessantes das grandes navegações portuguesas. Faltou enfatizar a influência islâmica nos conhecimentos científicos, tecnológicos e comerciais essenciais para a empreitada lusitana, assim como destacar a expertise árabe no cultivo da cana-de-açúcar, a qual os portugueses implantaram e expandiram nos Açores, na Madeira, em São Tomé e no Brasil. A autora menciona en passant as tentativas de colonização portuguesa na Península Arábica: comenta a presença portuguesa no estreito de Ormuz, mas não escreve nada sobre os entrepostos no Áden e os esforços lusos para dominar Meca, a cidade sagrada dos muçulmanos, com o intuito de lutar contra os grandes inimigos da cristandade segundo o imaginário da época. Fatland provavelmente evitou visitar esses lugares por questões de segurança — a tripulação de um dos cargueiros no qual viajou receava que os donos da companhia insistissem para que a embarcação fizesse o trajeto pelo mar Vermelho, onde poderiam ser atingidos por mísseis dos houthis no Iêmen.

Outra ausência diz respeito à passagem portuguesa pelo antigo reino da Birmânia, hoje Mianmar, sobretudo pelo fato de, no início do século 17, o português Filipe de Brito e Nicote ter se autoproclamado rei de Sirião e Pegu, áreas que hoje pertencem a Yangon, a maior cidade de Mianmar. 

Na ampla bibliografia ao final do livro, chama atenção a ausência do historiador indiano Sanjay Subrahmanyam, um dos principais especialistas em império português da Idade Moderna, autor de uma importante biografia de Vasco da Gama.

Estereótipos

Navegadores segue a trilha deixada pela historiografia oficial portuguesa sobre as grandes navegações, com foco na trajetória dos navegantes e dos reis portugueses. É esse também o enfoque historiográfico na parte brasileira do relato. Fatland repete algumas vezes que o Brasil foi “descoberto por acaso” por Pedro Álvares Cabral, o que a historiografia mais recente demonstra ter sido um mito criado posteriormente. Já se sabia da existência de terras a oeste e até houve expedições secretas anteriores a 1500 com o intuito de dominar esses territórios antes dos espanhóis.

O relato em território brasileiro começa na Amazônia, onde a autora está à procura de indígenas “autênticos”, que nunca tiveram contato com a “civilização” e que ainda vivem como “sempre viveram”. Ela não consegue. Sem cogitar que sua premissa estivesse equivocada, sugere nas entrelinhas que a razão para isso foi não ter encontrado guias que cooperassem com o pedido.

Fatland revela como estereótipos sobre os povos indígenas das Américas infelizmente ainda circulam pelo mundo, mesmo entre antropólogos de formação e viajantes que procuram desconstruir visões colonialistas. Esse tipo de comentário já aparece em seus livros anteriores, quando trata de populações que via como “congeladas no tempo”. No Brasil contemporâneo, esse pensamento prejudica diretamente a luta pela demarcação das terras indígenas. O argumento central dos opositores é o de que esses povos teriam se “aculturado”, invalidando as reivindicações por causa do simples uso de tecnologias, internet e vestimentas modernas.

A autora descreve a Independência do Brasil do jeito macarrônico que é perpetrado por aí

A autora também afirma que todos os povos indígenas fugiram para a Amazônia, ignorando o resto do interior do país e os grupos que continuaram em áreas do litoral. Segundo ela, os jesuítas “salvaram” os indígenas da escravidão ao levá-los para as missões, o que, hoje se sabe, era uma forma de facilitar a sua catequização e sua exploração como mão de obra gratuita, ou seja, era outra forma de trabalho escravo.

Fatland descreve a Independência do Brasil do jeito macarrônico que é perpetrado por aí sem fazer uma reflexão séria sobre como essas datas e esses mitos são criados para representar o nascimento de uma nação. A família real luso-brasileira também é descrita em cores bastante favoráveis, destacando como D. Pedro 1º e Pedro 2º eram contra a escravidão, embora se vissem impotentes para mudar o sistema escravista brasileiro por culpa das nossas elites. A libertação dos escravizados teria sido realizada apenas pela boa vontade da família real, com a Princesa Isabel assinando a Lei Áurea, não como resultado de um longo processo com rebeliões de escravizados, o movimento abolicionista e outras formas de resistência.

Mesmo assim, há momentos curiosos na sua estadia no Brasil: para ver o Teatro Amazonas, em Manaus, ela entra na fila do velório do ex-governador Amazonino Mendes, morto em fevereiro de 2023; a visita a Salvador e ao Rio de Janeiro ocorre durante o Carnaval, o que resulta em descrições não intencionalmente engraçadas — a viajante claramente está cansada das festividades; a tentativa de entender o que diferencia o candomblé da umbanda chega em um beco sem saída. Realmente, o Brasil não é para principiantes.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

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