O poeta palestino Mahmud Darwich (Eamonn McCabe/Popperfoto/Getty Images)

Poesia,

A Palestina continua a existir

Dois lançamentos reafirmam a atualidade e a força de Mahmud Darwich, poeta palestino que fez da palavra abrigo, testemunho e lugar de resistência

22set2025 | Edição #98

Alguns poetas têm a capacidade de desestabilizar o leitor — seja com tema, imagens, linguagem, lirismo, tonalidade, musicalidade ou tudo isso junto. Mahmud Darwich é um desses raros poetas cujas palavras, em verso ou prosa, nos convocam a habitar o desconforto da perda e a tenacidade da resistência, e a chorar diante do belo apesar da dor. Choramos e pedimos mais.

Darwich nos atende e se apresenta agora diante do leitor brasileiro — que, aliás, já o conhece — a partir de dois momentos cruciais em sua trajetória: o jovem que escreve sob o impacto da Nakba e o exilado que dialoga com a infância perdida. Dois livros, duas vozes, e uma só urgência: fazer da poesia um território onde a Palestina continua a existir.

Publicado em 1964, Folhas da oliveira é a estreia literária de Darwich e inaugura sua trajetória como uma das vozes mais potentes da poesia árabe contemporânea. Com apenas 23 anos, ele escreve sob o impacto da ocupação israelense, transformando a experiência do deslocamento e da perda em uma poesia que é, ao mesmo tempo, pessoal e coletiva. Essa coletânea de poemas surge dezesseis anos após a Nakba de 1948, quando a aldeia natal de Darwich, Al-Birweh, foi destruída e o poeta, ainda criança, tornou-se refugiado dentro de seu próprio país, após quase um ano no Líbano e antes de partir para o longo exílio.

O ‘eu’ lírico, muitas vezes dissolvido em um ‘nós’, fala em nome de um povo despojado e silenciado

A coletânea reúne 26 poemas que tratam de temas centrais na identidade palestina: exílio, memória, pertencimento e resistência. A oliveira, imagem recorrente, é mais do que um elemento estético: é raiz viva, metáfora de permanência e emblema da cultura palestina. Por meio dela, Darwich entrelaça vivência individual e experiência coletiva, tornando a resistência uma experiência diária e compartilhada. Nesse contexto, os poemas funcionam como registro da violência colonial, tentativa de preservação da memória e afirmação da identidade nacional diante do apagamento territorial.

Consciência

Já nesse início, a forma como Darwich emprega o símbolo poético, especialmente o natural, está ligada tanto às mudanças nos rumos da causa palestina quanto à sua consciência da profundidade dessa causa e à precoce maturidade artística — processo intensificado após deixar a Palestina e viver no Egito e, depois, no Líbano, a partir de 1972, em consequência das perseguições e prisões que sofreu.

O “eu” lírico, muitas vezes dissolvido em um “nós”, fala em nome de um povo despojado e silenciado. A poesia assume, assim, função pública e política, revelando um Darwich jovem, mas consciente de seu papel como porta-voz da nação. O famoso poema “Documento de identidade” exemplifica essa voz militante:

Registre: sou árabe
o número do meu documento é cinquenta mil […] isso lhe dá raiva?

Esses versos são um manifesto contra a negação da existência palestina, e a dicção direta e incisiva evidencia a urgência da mensagem. A linguagem simples, o ritmo e a musicalidade favorecem a oralidade desse poema e dos demais da coletânea, permitindo que sejam veículos de comunicação e resistência cultural. Esses versos emblemáticos seguiram o poeta, mesmo quando ele buscava novos caminhos poéticos.

A linguagem de Folhas da oliveira combina simplicidade com densidade simbólica. Os versos curtos e o ritmo marcado acentuam a sensação de urgência, enquanto a repetição de imagens — terra, camponês, criança, pão, oliveira — constrói uma constelação de significados que alimentam a memória coletiva. Muitos dos versos presentes na coletânea foram musicados e, ainda hoje, seguem cantados e recitados — como os de “O mais lindo amor”:

Assim como cresce a grama nas juntas das rochas/ um dia, dois estranhos, nós nos encontramos./ O céu da primavera compunha uma e outra estrela/ e eu, estrofes de amor que recitava/ a seus olhos.

Nessa coletânea, Darwich constrói sua poética sobre três pilares: identidade, dignidade e afeto. O vínculo com a terra é visceral; o cotidiano do camponês e da família se sobrepõe à narrativa épica tradicional; o amor pessoal se confunde com a pátria. Assim, a poesia torna-se simultaneamente íntima e política, estética e ética, reafirmando a resistência não só contra a ocupação, mas contra o esquecimento.

Embora precoce, Folhas da oliveira já revelava a consciência poética madura. Sua poesia não romantiza nem instrumentaliza o sofrimento: ela transforma dor em linguagem universal e a Palestina em mãe, amante, ferida, casa e ausência. Foi essa publicação que consolidou Darwich como figura central da literatura árabe moderna, influenciando gerações de poetas palestinos e tornando-se referência na difusão cultural da poesia árabe. Nela, o jovem poeta revela sua habilidade em fundir o íntimo e o coletivo, a sensibilidade lírica e a consciência histórica. Ainda nas primeiras páginas, Darwich demonstra que sua palavra será abrigo para um povo exilado e território para uma memória ameaçada:

Acolhi as tristezas/ saudei a errância e a fome/ é raiva minha mão/ é raiva minha boca/ o sangue das veias é um sumo de raiva/ Não espere de mim o sussurro / leitor/ não espere uma farra.

Autobiografia

Distante da voz coletiva e militante de Folhas da oliveira (1964), Por que você deixou o cavalo sozinho? (1995) evidencia a maturidade da escrita de Darwich e consolida sua trajetória literária. Essa coletânea assume o tom de uma autobiografia poética marcada pela introspecção, pelo registro da memória e pelo diálogo contínuo com a perda e o exílio.

O compilado de poemas se organiza em seis movimentos, cada um funcionando como capítulo de uma memória fragmentada. Desde o poema inaugural, “Vir de longe meu fantasma vejo”, a voz poética projeta-se num espaço-tempo que cruza infância, guerra e deslocamento. O título da coletânea, retirado dos versos que a constituem, traz várias camadas de significado: o cavalo como um guardião da memória palestina, como um elo com o passado e como um símbolo da terra que não se perde.

Sua poesia não romantiza nem instrumentaliza o sofrimento: ela transforma dor em linguagem universal

Ao perguntar “Por que você deixou o cavalo sozinho?”, Darwich formula, de modo lírico, a pergunta maior sobre por que se deixa para trás aquilo que sustenta a identidade — seja a infância, a pátria ou as tradições.

— Para onde me leva, pai?
— Em direção ao vento, filho.
[…]
— E quem vai morar em nossa casa depois de nós, pai?
— Vai ficar como está, filho.
[…]
— Por que você deixou o cavalo sozinho?
— Para companhia da casa, filho. As casas morrem se os moradores se ausentam.

Essa pergunta reaparece redesenhada em outras publicações de Darwich e também em textos de outros autores, como o libanês Elias Khoury. No romance Meu nome é Adam (Tabla, 2022. Trad. Safa Jubran), o narrador comenta uma palestra sobre a obra de Darwich realizada em Nova York pelo personagem Mamun. Ele observa, durante sua análise, que o palestrante se detém na expressão “aonde quer que o vento sopre”, presente em um poema de Darwich. No trecho, um menino pergunta ao pai para onde estão indo, enquanto são forçados a deixar sua aldeia. O pai responde: “Aonde quer que o vento sopre, meu filho”.

Obra do artista palestino Tayseer Barakat

No primeiro movimento de Por que você deixou o cavalo sozinho?, “Ícones do cristal do lugar”, Darwich descreve poeticamente a partida da aldeia após a Nakba de 1948. A cena começa com a iminência da guerra anunciando a ruptura. Já em “O espaço de Abel”, o poeta justapõe as invasões cruzadas à ocupação israelense, evocando o mito fundacional do primeiro homicídio — Caim e Abel — para representar a Palestina como corpo violado por sucessivos invasores.

Nessa coletânea, Darwich revisita a aldeia natal, a infância e a memória familiar, mas não apenas como reminiscência nostálgica. O poeta mitifica o cotidiano, transformando a tragédia concreta em abstração poética. Referências históricas e literárias — como o cavalo do poeta Al-­Mutanabbi, o colar de Tagore, mitos persas e gregos — surgem ao lado de imagens íntimas da casa, do corpo e da natureza. Essa fusão cria uma poética que transcende tempo e espaço.

Darwich ainda dialoga com tradições árabes clássicas e referências ocidentais — como Lorca, Whitman e Neruda. A alternância entre imagens concretas e abstratas cria um ritmo que remete à cadência das lembranças, ora claras e tangíveis, ora fragmentadas e elusivas. No quinto movimento, por exemplo, o poeta veste a voz poética como um troiano moderno, questionando a própria derrota e afirmando: “A guerra de Troia não existiu/ nunca existiu, nunca”. Essa negação insinua a impossibilidade de narrar plenamente a perda, reforçando a tensão entre memória, linguagem e ausência. Assim, a coletânea de poemas, permeada por reflexões filosóficas sobre o tempo, a identidade e o destino dos povos exilados, eleva a experiência pessoal ao nível universal.

Distância

A distância entre as duas coletâneas, lançadas juntas no Brasil, não é apenas cronológica: estende-se também à forma e ao estilo. Ao longo de Por que você deixou o cavalo sozinho?, Darwich desenvolve uma voz profundamente subjetiva e memorialística, diferente do tom coletivo e prospectivo da estreia. Nela, a voz poética — individual, introspectiva e reflexiva — dialoga com a própria infância, a dor e o silêncio do exílio, em tom elegíaco e em versos longos, narrativos e de musicalidade contida. Ideias como cavalo, aldeia, casa e silêncio tornam-se metáforas do deslocamento e da identidade suspensa.

Isso faz lembrar o texto de abertura de outro livro de Darwich, a coletânea de ensaios Diário da tristeza comum, de 1973, em que o poeta adulto dialoga com sua versão criança, que foi desterrada:

— O que está fazendo, pai?
— Procurando meu coração, que caiu naquela noite.
— Acha que vai encontrá-lo aqui?
— Onde mais? Eu me curvo e o recolho de grão em grão, como fazem as camponesas que colhem as azeitonas em outubro, uma azeitona por vez.

A trajetória literária de Darwich é um diálogo contínuo entre memória, identidade e exílio, moldado por experiências históricas que impactaram sua vida e a consciência palestina. Ao longo das décadas, o poeta transformou a Palestina em metáfora da condição humana, convertendo ausência em presença e fazendo da poesia abrigo, território e testemunho.

Em livros publicados no Brasil pela editora Tabla entre 2020 e 2025, Darwich aprofunda esse diálogo, evoluindo da voz pública à íntima, da militância à filosofia, sem abandonar o compromisso político. Em Diário da tristeza comum, o exílio cotidiano torna-se espaço poético, mantendo viva a tensão entre o lírico e o histórico. Memória para o esquecimento, texto em prosa sobre o cerco israelense a Beirute em 1982, mistura ensaio, poesia e autobiografia, revelando ser Darwich um poeta do trauma que recria a identidade palestina a partir do medo e do silêncio.

Sua palavra resiste, canta e reconstrói o tempo, a identidade e a memória de um povo

Em Onze astros, de 1992, Darwich insere a Palestina em um contexto civilizacional mais amplo, evocando o Al-Andalus e os povos nativos americanos, em que a memória ultrapassa fronteiras e a resistência se torna experiência cultural. Por fim, Da presença da ausência, de 2006, marca uma virada radical: autobiografia em segunda pessoa, é um diálogo do poeta com sua sombra, uma reflexão sobre a morte, o legado da palavra e o vazio da pátria perdida. A linguagem torna-se abrigo final; e o exílio, meditação sobre o ser.

Com a publicação simultânea de Folhas da oliveira e Por que você deixou o cavalo sozinho?, nas traduções diretas do árabe de Alexandre Chareti e Michel Sleiman, respectivamente, o leitor brasileiro tem a oportunidade rara de percorrer as duas margens de uma mesma trajetória: o Darwich jovem, em plena ebulição histórica; e o Darwich maduro, em plena ebulição interior. Esse lançamento conjunto não apenas amplia a recepção da poesia palestina no Brasil, como reafirma a atualidade e a força de um poeta que traçou uma verdadeira geografia da memória e fez da palavra lugar de resistência.

Mahmud Darwich morreu em 2008, mas permanece vivo, como poeta nacional da Palestina e como poeta universal. Sua palavra resiste, canta e reconstrói o tempo, a identidade e a memória de um povo. Cada poema, seja do princípio ou do fim da carreira, ecoa a voz do poeta que, em “Wardun aqall” [Menos flores], de 1986, declama:

Nesta terra há o que merece a vida; nesta terra, senhora da terra, mãe dos inícios, mãe dos fins. Chamava-se Palestina. Passou a se chamar Palestina.

Quem escreveu esse texto

Safa Jubran

Pesquisadora e tradutora, escreveu Árabe e português: fonologia contrastiva com aplicação de tecnologias informatizadas (Edusp).

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “A Palestina continua a existir”

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