Tanques em frente ao Congresso Nacional após o golpe militar de 1964 (Agência Senado/Arquivo Público do DF/Reprodução)

História,

Ecos do golpe de 64 são muito fortes hoje, diz Heloisa Starling

Em A máquina do golpe, historiadora descreve a conspiração, a implantação e as continuidades da ditadura militar

23out2026

Famílias conservadoras que defendem um retorno ao passado, militares e outras forças de segurança cada vez mais entranhados na política, ameaça de intervenção norte-americana pairando sobre as eleições. Para a historiadora Heloisa Starling, autora do recém-lançado A máquina do golpe: 1964 — como foi desmontada a democracia no Brasil (Companhia das Letras), mais que uma repetição do passado, estamos ainda vivendo no presente os ecos daquele período histórico.

“Se pensarmos em todas as ameaças em 1964 e as que estamos sofrendo hoje, não é que o passado está se repetindo, é que os ecos desse passado, desse golpe, estão muito fortes na nossa conjuntura hoje”, diz Starling em entrevista a Paulo Werneck no podcast 451 MHz. “A minha ideia é que, se as pessoas entendem o que é um golpe de Estado, se eu consigo escrever isso numa narrativa que seja interessante, estou fornecendo repertório para que a gente possa entender o presente.”

No livro, a historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais narra em detalhes os dias decisivos entre o planejamento e consolidação do golpe militar. A ação é dividida em quatro etapas: a conspiração; a desestabilização das instituições de forma que permitisse uma intervenção; a deposição do presidente João Goulart e a tomada de poder; e, por fim, a etapa de manutenção do novo regime. 

Descrever a montagem e execução do golpe, segundo Starling, é importante para que o leitor de hoje possa entender que “a direita reacionária não caiu do céu como um raio”. Pelo contrário, ela está no cenário político pelo menos desde o movimento integralista. 

Uma das descobertas da pesquisa, segundo a historiadora, foi romper com uma leitura antiga de uma vertente da historiografia de que o governo inaugural do general Castelo Branco (1964–1967) ainda era democrata e que a verdadeira ditadura foi implantada depois. 

A historiadora e professora Heloisa Starling (Renato Parada/Divulgação)

“Chamo a atenção para o primeiro Ato Institucional. Está muito claro na nossa imaginação, pela violência da repressão, o AI-5, mas a estrutura da ditadura, os fundamentos, a base da repressão estão no primeiro Ato Institucional”, diz. 

Segundo Starling, ali também está a gênese da ideia de que os generais não deram um golpe, mas fizeram uma “revolução”, difundida por parte dos militares até hoje. “Quando eu transformo um golpe de Estado em revolução, dou à revolução o poder de criar um ato que altera a Constituição de 1946 e coloca as condições de poder na mão do Executivo.”

Articulação com os EUA

Uma das revelações mais impressionantes da pesquisa, segundo a autora, foi a articulação dos militares da Escola Superior de Guerra com os colegas norte-americanos, em ligação direta com o Pentágono. 

A operação Brother Sam, plano de apoio logístico e militar dos Estados Unidos autorizado pelo presidente Lyndon B. Johnson para garantir o sucesso do golpe, previa, ela afirma, uma possível invasão americana ao país. 

“Não é à toa que temos um Bolsonaro hoje, por exemplo. Ele foi treinado, na sua formação militar, por instrutores que participaram da repressão. Então você tem uma continuidade que passa pelos quartéis, que é como se cria esse imaginário [de revolução]”, diz. 

Outra teoria bastante difundida que a historiadora contesta é a de que a democracia no Brasil é frágil e recente. Segundo ela, a história democrática no país remonta ao final do século 18, em movimentos pouco estudados, como a conjuração do Rio de Janeiro. Além disso, observa, é importante lembrar que o modelo político só caiu à força de golpe de Estado, nunca por uma opção da população ou mobilização de forças políticas. 

No entanto, adverte: “Se alguém disser que a democracia está estabilizada é bom a gente ficar esperto porque ela está sempre em movimento. E o que imputa movimento à democracia é a luta pelos direitos. Como dizia Rosa Luxemburgo, liberdade não é dizer ‘sim’, mas poder dizer ‘não’”.

Quem escreveu esse texto

Paulo Werneck

É editor da revista Quatro Cinco Um.